quinta-feira, 24 de abril de 2008

Da mesma, no mesmo

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"Minha querida Cristininha
há horas difíceis
como dizem os cauteleiros
ou os Tampax"

...

Só depois de ler
Barthes
é que Camila
ficou a saber
que o dedo da masturbação
é o médio
até aí tinha usado
sempre
o indicador
experimentou também
o polegar
e viu que todos serviam
meu menino
seu vizinho
pai de todos
fura bolos
mata piolhos
depois de perder a virgindade
experimentou
com um tubo de Cecresina
metido num Durex Gossamer
também servia
mas isto nada
tem a ver com o amor
tem a ver com o escrever
e com o pintar
e dá menos satisfação
a menos que Camila
se lembre de Jênia
e da penetração
então usa
só os dedos
e serve
para adormecer

(Adília Lopes, in "Antologia" (Cosac & Naify e 7 Letras, 2002)

...

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, Dezembro de 2000.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Manifesto Antropofágico

Rating:★★★★★
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Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.


OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

Fonte: site da Lumiarte - http://www.lumiarte.com/luardeoutono/oswald/manifantropof.html

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Liaisons dangerous...

Abaixo coloco o diálogo que tive com um comprador de calcinhas usadas...quando a vida imita a arte!

 

olá says:

bom dia

Yara says:

Olá Beto, tudo bem?

olá says:

sim e vc?

Yara says:

bem....bem com sono....Zzzzzzzzzzz!

olá says:

adorei te ver ontem

olá says:

sem contar que fiquei louco pra conferir se estava mesmo sem calcinha!! ..rsr

Yara says:

mas é atrevido hein! rsrs!

 

 The following message could not be delivered to all recipients:

mas é atrevido hein! rsrs!

 

olá says:

fiquei louco pra comprovar se vc estava mesmo sem calcinha ontem sabia?

Yara says:

já li isso...e eu respondi que és atrevido!

olá says:

nao tinha aparecido a resposta

olá says:

mas hj vc vai deixar eu ver. nao vai?

Yara says:

vc ver??? Mas vou retirar por baixo da saia, tudo bem?

olá says:

mas vai deixar a saia erguida  né?

olá says:

quero ver com detalhes...

olá says:

inclusive o que tem por baixo da calcinha...rsr

 

Yara says:

Beto, Beto....estou no trabalho...meu msn é vigiado...cuidado com o que escreve

olá says:

mas pode ser assim?

olá says:

vc deixa eu ver com detalhes?

Yara says:

na hora eu decido

olá says:

nao

olá says:

diga agora

olá says:

ou entao deixe eu tirar com a mão pelo menos

olá says:

só pra sentir um pouco de vc

Yara says:

não...com a mão não

olá says:

então vai deixar eu ver com detalhes  né?

olá says:

?

Yara says:

na hora eu vejo Beto...sério!

olá says:

nao vale

olá says:

quero saber o que ira acontecer

Yara says:

a vida é assim...não dá para prever o futuro...rsrs!

olá says:

mas dá pra se programar

Yara says:

não gosto de me programar...rsrs!

olá says:

mas já que estou pagando,  tenho que saber sobre o que estou pagando

olá says:

se vou tirar com a mao

olá says:

ou se vou ver com detalhes

Yara says:

o preço é simbólico....e estou dentro do acordado....cheque mate!

olá says:

só acordamos sobre o tipo de calcinha e valores

olá says:

nao fechamos nada sobre a forma de entregar

Yara says:

pois é....por isso quem decide sou eu...pq não requisitou antes...rsrsrs!!!

Yara says:

ja volto

olá says:

ja decidiu comoiremos fazer?

Yara says:

não...vou decidir na hora

olá says:

nao

olá says:

conte agora

Yara says:

não....rsrs!!! vc não pode fazer nada!!!HA HA HA HA HA HA!!!!

olá says:

se nao me contar    nada feito...

Yara says:

hum hum...problema seu...rsrs!

olá says:

é serio

olá says:

conte vai

Yara says:

 

olá says:

vou ganhar beijo na boca?

Yara says:

nao

olá says:

nem um ?

Yara says:

nem meio

olá says:

vamos fechar assim entao

olá says:

eu tiro com a mao,

olá says:

bem devagar

olá says:

e sem beijos na boca  ok?

Yara says:

olha o primeiro combinado é o que vale....ou vc tem duas palavras?

olá says:

eu tiro com a mao,

olá says:

 bem devagar

 

olá says:

e sem beijos na boca ok?

 

Yara says:

então tá...vamos desmarcar tudo e assim ficaremos todos bem

olá says:

só quero fazer um bom negocio

Yara says:

ué! e eu tb!

Yara says:

vc tem a opção...estou sendo sincera

olá says:

minha opção e ter sua calcnha com o maximo de prazer possivel

Yara says:

a minha opção é fazer a negociação que melhor me convenha...rsrs!!!

olá says:

e deixar eu te ver sem calcinha não te convém?

Yara says:

não...pq me conviria?

olá says:

para excitar ainda mais sua historia no blog

olá says:

eu vejo vc lentamente levantando a saia...

olá says:

vejo vc de calcinha

olá says:

e aos poucos vc tirando-a... bem lentamente

olá says:

te vejo sem ela  e por fim, vc me entrega a calcinha

Yara says:

que criatividade hein!!!rsrs!!!

olá says:

nao acha uma boa ideia?

olá says:

?

Yara says:

Beto! pare de fazer tantas perguntas, please!!!

olá says:

sim ou nao

olá says:

só quero que responda...

Yara says:

não, não acho...pq eu acharia?

Yara says:

uai! responde...rsrs

olá says:

pq é super excitante

olá says:

vc nao gosta de se excitar?

olá says:

loucas aventuras e fantasias sexuais?

Yara says:

hum....não...rsrs!!! qual o seu conceito de loucura?

Yara says:

ah

olá says:

fazer o que estou propondo pra mim é uma loucura

olá says:

e excitante demais

olá says:

e gosto muito disso

olá says:

por isso estou te propondo

Yara says:

então não é apenas uma coleção...é um fetiche?

olá says:

sim

olá says:

com certeza

olá says:

nao é o fato de ter a calcinha que me excita

olá says:

e sim, como as consigo

Yara says:

e quando não consegue do jeito que quer?

olá says:

negocio até ficar bom para os dois

olá says:

é o que estou fazendo com vc

olá says:

negociando e tentando te mostrar o quanto é excitante e o quanto vai me provocar e me satisfazer ...

olá says:

negociando e tentando te mostrar o quanto é excitante e o quanto vai me provocar e me satisfazer ...

 

Yara says:

hum hum ....tendi

olá says:

entao,

olá says:

vc aceita?

Yara says:

não gosto que me peçam coisas repetidamente...não gosto de ser previsível....e já te dei opção Beto...é pegar ou largar!

olá says:

larguei.

Yara says:

 

olá says:

ter a calcinha simplesmente por tê-la, roubaria novaral ou compraria em lojas...

olá says:

não há graça alguma nisso

olá says:

entende a diferença?

Yara says:

então pq não deixou as coisas mais claras logo de cara...além do que, vc tem que correr o risco...se eu te der a resposta, já está tudo pronto

olá says:

leva-se tempo numa negociação...

olá says:

temos que nos conhecer

olá says:

ganhar confiança

olá says:

pra ir abrindo o jogo

olá says:

se falar tudo logo de cara  sei que assusta e com certeza

olá says:

nao teria metade das que ja consegui

Yara says:

então, boa sorte!

olá says:

bigadu

olá says:

mas continuo aberto para suas propostas

olá says:

chegaremos logo num acordo

olá says:

pode apostar

Yara says:

pq seria uma negociação? Veja: eu não tenho nenhuma contrapartida...e tb não há como ter....não há o que apostar

olá says:

mas vc nao acha excitante participar desta minha historia?

olá says:

do meu fetiche?

Yara says:

eu já tenho a história que eu queria....e o fetiche é seu, como bem disse

olá says:

por isso te perguntei se nao acha excitante participar dele

Yara says:

eu não preciso participar da históra para dar o desfecho que eu quero...não é mesmo?

olá says:

vc vive só de imaginações?

olá says:

sente prazer só por imaginacao?  abandonou a realidade?

Yara says:

pelo contrário...pq estou na realidade, nao faço parte da ficção...

olá says:

e fazer parte do meu fetiche nao é realidade?

Yara says:

da sua realidade? rsrs!!!

olá says:

sim

olá says:

nao quer participar?

Yara says:

a sua realidade é a minha ficção....mas a minha ficção não é a sua realidade...ha hah ha ha!

Yara says:

Beto, sei que tem de ir....desmarcamos então...e boa sorte!

 

quinta-feira, 27 de março de 2008

No, I don´t wanna dance!

Porquê o silêncio é uma música para se dançar de um. Nele só o infinito se faz ritmo... Em gerúndio de solidão. 

Pontas Dúbias...

Acordei atrasada hoje. Mesmo assim tinha de tomar banho para lavar os cabelos que estavam sujos. Enquanto sentia a água quente me despertar do sono que não fora embora mesmo com o susto do atraso, aproveitava o prazer enorme em sentir o xampu ensaboar os fios de minha cabeça, agora curtos. Passei o condicionador e me senti muito macia, cada vez mais, até parecer que aquela sedosidade toda me penetrava também por dentro. Fiquei com o coração de manteiga. Enlaçaram-me repentinamente lembranças em fios, cheias de babosa ...e a água do chuveiro caiu mais forte no meu rosto. Ficou tudo embaçado. Os cabelos aos poucos me apertavam a garganta, estreitando-a em cada fio.

Há três anos esses fios me enroscam o pescoço. Cortei o cabelo na esperança de que não mais me sufocassem no banho. Pelo tamanho que ficou não há comprimento para que dêem a volta no pescoço. Mais ainda me entram pela boca e continuo a sentir os mesmos nós.

A vista estava embaçada, mas ainda sim o vi perfeitamente passando pelos corredores da Letras (ou das Letras?) enquanto  desenhava a mesma cara de quem finge que não viu. Para quê? Só havia eu no banheiro! Passei condicionador mais uma vez para que os fios ficassem bem macios e para que não fizessem nenhum nó. Talvez fosse melhor beber o condicionador!          

terça-feira, 25 de março de 2008

terça-feira, 11 de março de 2008

Ao desdia da mulher...

O texto abaixo, embora tenha o estilo de escrita daqui foi publicado na Gironda primeiramente. Isto porque, a demanda veio de lá. Mas deixo abaixo pelo tom confessional dos escritos. Ele também é um diálogo com textos anteriores.

 

Inicio este texto sem a certeza de que será concluído, visto que a reflexão que ele propõe é fruto de uma demanda “de fora para dentro” – o dia internacional da mulher – que foi “comemorado” no dia 8, sábado. Por isso, as idéias aqui podem aparecer soltas e disparatadas.  

Bom, acho que não será necessário explicar que não é uma data que mais simbolize qualquer coisa que seja. Mas, de qualquer modo, tem, a seu modo, repercussão, na medida em que estou aqui escrevendo esse texto. Mesmo que para negar sua importância no movimento feminista atual, ainda por alguns instantes me vi inclinada a pensar sobre O que é ser mulher?. No sábado, tive pouco acesso a internet , mas os poucos momentos  em que entrei para ver os meus e-mails, tive o ímpeto de postar sob o titulo “Dia Internacional da Mulher” qualquer conteúdo desconexo, em forma de protesto, assim como foi feito na época da ditadura, em que se publicavam poesias nos editoriais em que havia tido interceptação da censura. Mas não o fiz. Por preguiça mesmo. Quem sabe, por destino.

Eu sei que muitos dos leitores que habitam este blog odeiam aquelas mulheres feministas que, de forma estereotipada, parecem militar 24 horas por dia. Acabam por ser categorizadas pelo caráter assexualizante de seus discursos. Esses dias eu mesma me peguei a perguntar : O que é mulher objeto? Pergunta a que minha amiga Sonia  respondeu: “é aquela que não se preocupa com  o próprio prazer, mas apenas com o papel que tem a cumprir e, isso, não tem nada a ver com dar ou não dar na primeira vez”. Porém, veja bem: ela parou para pensar nessa resposta. Não foi de imediato.

Eu sou uma feminista. Quem quiser de parar este texto por aqui, fique à vontade. Mas explico. Sou uma feminista na medida em que vivo em um país machista. Do contrário, bastaria que eu fosse feminina. O que creio que tem de ser defendido, é que não se deve abolir a feminilidade em prol de uma igualdade (de direitos) entre gêneros. Por outro lado o Feminino que tenho em mente não é aquele caráter de delicadeza ou ainda obscurantista a que algumas pessoas se referem. É outra coisa. É o que tem em uma escrita de Clarice Lispector e que não conseguimos descrever com certeza, mas que genialmente a autora capturou. Talvez o que disse agora seja outra ideologia de “o bom crioulo”. Se o for, esta não é uma questão fechada e, portanto, deixo em aberto para outros tipos de argumentação. O que me fez chegar até tais apreensões (não são conclusões) foram especulações a partir de sentimentos meus e de coisas que vejo freqüentemente da realidade de outras mulheres que me rodeiam. Será que após tantos séculos em silêncio, em que a valorização deste foi uma regra imposta como qualidade inerente ao sexo (e aqui falo em sexo, caráter biológico) feminino não restou nada que em conjunção com o aspecto biológico refletem e refratam da imagem que temos do que seja ser mulher? As idéias passam de geração a geração e não precisa ser historiador para saber isso, mas talvez o precise ser para se afirmar com mais argumentos. Pensemos mesmo no que está na base da idéia de inconsciente coletivo. Pois bem, após tanto tempo de silêncio e de clausura de palavras e dos sentimentos que nelas ganham forma, será não há nada que more dentro deste não dito, que foi comum a todas e que ainda paire em nosso inconsciente?

Não penso apenas sob o aspecto pejorativo. Não é isso! Será que quando me olho no espelho nua, e vejo um corpo que parece que, a qualquer momento, pode se quebrar, com todas as suas peculiaridades, peculiaridades estas que estão talvez mais na minha cabeça do que em mim realmente, será que não há nada de feminino no modo como organizo, categorizo e recorto a minha interpretação de mundo, o MEU mundo, do meu corpo e do modo como esse corpo se faz presente nesse mundo? Não houve nada desse silêncio em comum que ainda nos perpasse em uma “quarta dimensão da palavra”, com as palavras de Clarice? O quanto há de feminino e o quanto há de masculino nesse olhar? Aliás, o quanto há da idéia masculina de feminino e o quanto há realmente de feminino nesse olhar? Creio que não dá para se posicionar como mulher, mulher que não se objetualiza, ou que pelo menos, que tenta uma auto crítica neste sentido sem passar primeiramente por estas questões.

Quando dei inicio ao curso de Letras na Universidade de São Paulo, acreditava que conhecimento tinha antes de tudo de me trazer tolerância. Porque, em meus estudos, constantemente eu tenho oportunidade de acesso a pontos de vista que gradativamente refinam o meu olhar. Tal refinamento só poderia levar a um número maior de contato com outras realidades, de outros pontos partida e consequentemente tal prática me levaria a uma maior capacidade em me colocar no lugar do outro e assim tolerá-lo. Isso seria senso-crítico. Mas o que a duras custas eu aprendi é que senso crítico não é ser tolerante a tudo, mas antes, saber a que eu tenho de ser tolerante e de que modo devo manifestar a minha intolerância. Infelizmente, eu ainda sou punida por ter um útero. Punida por homens e também por MULHERES. Punida por idéias. Idéias que beneficiam a alguém, senão não haveria punição. Quem é esse alguém, deixo ao leitor que preencha a lacuna como bem desejar. Eu preenchi assim: às mulheres que se enquadram nos padrões e usam isso para se afirmarem diante das outras e, aos homens que se afirmam com o vaso bonito que exibem ao seu lado.

Mas não adianta eu vir aqui e dizer “olha, mulher feia não é descartável!”. Não existe um ensino “aprenda a gostar de jiló em duas lições”. Pensar no que há está nas profundezas do que colocamos na sacolinha do Feio e do Belo, talvez, bem talvez, esteja mais próximo de um começo.

O que me incomoda de verdade é ouvir relatos como os da minha faxineira que depois de vinte anos de casamento foi agredida pelo marido porque envelheceu. Sim, porque envelheceu. Ele a apelidou “carinhosamente” de “monstra”. Em contrapartida, ela me relatava que estava ali limpando minha casa para arrecadar dinheiro e mudar de casa e assim deixá-lo. Outra coisa que também me incomoda é ver o olhar de felicidade de muitos homens quando digo que tenho um filho. Não é porque gostam de criança, não! É porque na categoria de mãe solteira eu, na cabeça deles, seria uma mulher mais “fácil” de levar na cama. Infelizmente, isso é mais comum do que parece. No começo, achei que fosse coisa de minha cabeça e tentei mesmo ignorar. Mas era tão indisfarçável como expressavam tal reação que não havia como não me incomodar.

Sabe o que é engraçado? É que homem que fica com mulher porque também é bonita, é normal, mas mulher que fica com um rapaz porque ele também tem dinheiro ou porque também é bonito é vagabunda ou fútil. Não sei se pegaram o quis dizer com o TAMBÉM. Não vejo nada de errado em ficar-se com alguém também por estética. Quem seleciona todo mundo não seleciona ninguém. Mas para quem é essa estética e que estética é essa? Nesse ponto, eu continuo a enxergar novamente o silêncio. O silêncio que dá voz a esta feminilidade indissociável ao caráter biológico do que é ser mulher, mas que pode ser dito sim. Quem sabe, a Maetê não tenha razão: “Mas como eles não sabem lidar com a mulher substantivo, eles nos retalhem em pequenos adjetivos”. Não quero ser punida por ter um útero, mas também não preciso (embora eu possa querer) negá-lo. Não quero que se torne clichê o milagre de ter gerado um ser dentro de mim a partir de uma “gosminha” e de uma coisinha microscopia que estava o tempo todo dentro de mim, mas que de repente se fez presente de maneira tão fantástica, que “clichelizar” em nome de um discurso igualitário, seria apagar da minha vida uma das únicas experiências em que vivi a poesia que se materializou.

Creio que ser mulher seja estar atenta e critica às contradições que nos são impostas (as vezes por nós mesmas) e ainda sim não apagar a beleza dos paradoxos que reside nessa condição.