segunda-feira, 7 de julho de 2008
As imagens falam por si...(prestem atenção nos grifos!)
Esclarecer o Pessimismo
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Revista Cult, Abril 2007
Da Indústria Cultural à industrialização da ética – para pensar o 60° aniversário da Dialética do Esclarecimento e sua atualidade
Quem é capaz de contestar hoje a existência da Indústria Cultural? A crítica que foi escândalo na Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer (1) desde 1947 perdeu seu significado. O texto, porém, mantém um alerta como sinal cifrado a exigir interpretação. Ele se refere ao empobrecimento da experiência (2), decisivo na destruição do sujeito livre. Mais do que uma questão de estética e de decisão sobre as virtudes da obra de arte ou dos meios de comunicação, o problema da IC é um problema de ética, o poder do indivíduo de decidir sobre sua vida que a cada dia escapa de suas mãos.
O Esquematismo ou o pensar igual
O texto sobre a IC, caduco para alguns, ainda é atual. Pelo menos duas de suas questões permanecem essenciais: a do Iluminismo como “mistificação das massas” e a do “esquematismo” do pensamento. Quanto ao primeiro aspecto, a questão é saber por que a aceitação de que há uma IC que adquiriu o valor de lei sobre a criação humana implantou-se com força de raiz no fundamento da sociedade? Que ninguém (ou esta seja a lei apesar das exceções) crie fora do mercado sem visar servi-lo é a prova da mistificação das massas consideradas culpadas por tudo que lhes é oferecido. O artista, se sobrevive como tal, torna-se herói em relação ao todo, o funcionário da comunicação entrega-se à burocracia do processo de repetição de imagens e idéias, o espectador máquina de ver, ouvir e dançar, imita a maquinaria, certo de que encontrou um canto aconchegante no sistema. Desavisado, o que o indivíduo aniquilado em sua capacidade de fazer experiência não sabe - e dificilmente saberá – é que a capacidade de pensar lhe foi roubada e, portanto, ele perdeu a chave de sua liberdade.
A ausência de pensamento reflexivo resulta do “esquematismo” que substitui o pensamento livre. Rodrigo Duarte explica a função do esquematismo como processo pelo qual “uma instância exterior ao sujeito (...) usurpa dele a capacidade de interpretar os dados fornecidos pelos sentidos segundo padrões que originalmente lhe eram internos (3). A função do sujeito de relacionar conceitos gerais à multiplicidade das coisas de que falava Kant foi eliminada. Compra-se hoje o pensamento enlatado. Com os pensamentos prontos a ação se torna repetitiva e igual. A rigor não há mais ação alguma. A inação política ou a ação sem sentido dão a impressão de frenesi, a “correria” do cotidiano. A compulsão a agir, ação que não sabe de seu objetivo, toma conta de tudo. Se não sei o que faço é porque não pensei no que faço, mas já não posso pensar porque alguém pensou no meu lugar. Se “a cultura contemporânea confere a tudo uma ar de semelhança” é o fim da diferença, fim do pensamento, fim do desejo, o que a IC nos vendeu.
A industrialização da ética é o que está em jogo na IC. Ética não é apenas a forma do comportamento como a moral, mas o modo de questioná-lo. É a ação que se dá em nome do pensamento livre. A ética só aparece se a pergunta “o que devo fazer?” for respondida levando em conta o sentido de toda ação em relação a outro. Se não há ética é porque não há reflexão sobre a ação e nem a chance de refletir sobre. A passagem da “indignação moral” - a emoção passageira e repetitiva em relação ao que, em termos morais, nos escandaliza - à “reflexão ética” é proibida na industrialização da ética. Esta indústria está na base fundadora da sociedade, e claramente associada aos meios de comunicação, à escola, à família, aos poderes executivo, legislativo e judiciário e, infelizmente, mesmo aos intelectuais que se omitem de sua tarefa de esclarecimento. Seu produto inquestionado são valores e jargões que se repetem sem cessar. Infelizmente contra a falta de ética só uma ética mais forte pode vingar, assim como contra a ignorância apenas um conhecimento mais profundo pode ser uma arma.
A industrialização da ética e a repetição
A industrialização da ética se reproduz pela repetição. O que Nietzsche entendeu como a verdade por efeito de repetição(4) é o mecanismo básico desta indústria. Repetimos seus slogans sem ponderação: “o poder corrompe” diz-se para evitar que todos o queiram, “é preciso ser feliz” diz-se para desviar a atenção sobre o sentido mais complexo da vida, “a competitividade é boa” diz-se com o mesmo objetivo de dominar as relações e evitar a união solidária, forma de poder contrária à violência e à dominação. Palavras sérias como “felicidade”, “direito”, “dignidade” e a própria “ética” são transformadas em meras palavras mágicas sem conteúdo. O poder da Indústria é só o que se confirma: quanto mais repito mais transformo a palavra em marca registrada, aumento seu valor de ilusão.
A crítica abstrata ao pessimismo e o elogio ao otimismo também são elementos cruciais desta industrialização do pensamento e da ação. Confundimos pessimismo com niilismo, achando que o primeiro é a mera negação da vida (que nem o niilismo, como corrente do pensamento, é) e perdemos com isso o seu potencial de alerta. Ou será que a indústria da ética também já nos habituou de tal forma ao que o pessimismo seria o único a criticar? Benjamin disse ser preciso organizar o pessimismo (5), isso significava olhar para o que é péssimo sem simplesmente tornar-se cativo dele. O pessimismo como atenção e alerta da reflexão é hoje uma atitude de cuidado do pensamento com a ação, com a prática. Atualmente é o único caminho para a evolução da discussão sobre a ética.
(1) Adorno, Theodor e Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento. Tradução de Guido Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
(2) Tema que já era central na obra de Benjamin. Ver Experiência e Pobreza. In Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas I. IV edição. P. 114-119.
(3) Duarte, Rodrigo. Teoria Crítica da Indústria Cultural. Belo Horizonte: ed. UFMG, 2003.p.54.
(4) Nietzsche, Friedrich. Sobre Verdade e Mentira no sentido extramoral. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1997.
(5) Benjamin, Walter. O Surrealismo. O ultimo instantâneo da inteligência européia. In Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas I. IV edição. P. 33.
Fonte: Site da Marcia Tiburi, a autora do texto.
http://www.marciatiburi.com.br/textos/esclareceropessimismo.htm
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Revista Piauí
Coloquei o link não da Revista, mas de uma matéria que está na revista sobre a Rodoviária. Imperdível!
A sensibilidade e a complexidade que faz falta no jornalismo da grande mídia.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Vida Tempo
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a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
Do livro Pensamento do Chão, de Viviane Mosé.
Obs: O texto é centralizado, o que, na minha cabeça, dá o formato de uma ampulheta. Mas graças a imbecialidade dessa ferramenta, não consigo retomar o texto em seu formato original.
Fonte: http://noitesmaldormidas.arteblog.com.br/47404/Vida-Tempo-poema-de-Viviane-Mose/
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Profanação: ato metafísico e democrático - Brevíssima análise de um detalhe na obra de Giorgio Agamben
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A história da filosofia podia ser a história de sua terminologia, disse um dos filósofos mais críticos de que temos notícia, autor da obra Stichworte, termo que se traduz no que em português se expressa por “farpas" (1). Vilém Flusser disse algo parecido ao defender que não existem conceitos sem palavras e que, portanto, podemos ir direto ao que interessa (2). Palavras-Chave de Raymond Williams, publicado no Brasil há pouco, revela a mesma preocupação (3). Não é diferente em As Palavras e as Coisas quando Foucault conecta a vontade de dizer que se condensa na palavra à impossibilidade de dizer que está sempre do lado da coisa (4). Em todos os casos se trata de ter atenção à análise histórica dos termos nos quais se materializam idéias e conceitos, relações e intenções. Toda palavra é um sistema de pensamento inteiro e compactado. O fragmento na sua verdade sistemática e imediatamente expressa. Espécie de botão de flor do pensamento, mais do que semente.
Afim aos mesmos tons é o livro Profanações de Giorgio Agamben cuja edição brasileira recém nasceu (5). A começar pelo título, tem-se o exemplo do alcance que a análise de uma palavra pode oferecer em termos que superam em muito o estado de dicionário que um dia o poeta criticou – sem que a análise crítica sobre a verdade e a beleza do dicionário fosse sua questão - e alertam para o fato de que toda palavra carrega com ela um universo onde o lingüístico faz sua morada, o político. Não é a palavra apenas um nome vago que designa o mundo como o mero dedo de Crátilo que apavorava Sócrates ao apontar para as coisas destituindo a linguagem de sua função inaugural. A palavra é corpo que sobrevive à história e se revela a camada mais sutil de sua sedimentação. O poeta radical é o mago da palavra porque conhece a lei do seu funcionamento e promove a sua desarticulação na invenção da poesia. O filósofo, quando nasce, faz o mesmo para logo, em nome da dúvida, abandonar a poesia sempre ameaçada em virar certeza.
Dos enunciados de Agamben, sobressaem termos como gênio e magia, paródia e felicidade. Por meio de palavras, sem ater-se ao dado etimológico, ele procura a verdade dos conceitos e das ações. É o termo profanação o melhor modelo que evidencia o modo como a palavra - mais que roupa ou pele que reveste o conceito - é ela mesma que ensina a pensar e, nisto, desenha um método, um procedimento filosófico de descortinamento do objeto de análise pela atenção ao que lhe é mais superficial, seu nome próprio.
No capítulo Elogio da Profanação uma análise do verbo profanar a partir da definição do jurista romano Trebácio, põe o leitor diante da reunião da idéia e da ação concentrados na palavra. Profanar quer dizer devolver à esfera humana o que tinha sido sacralizado, o que fora separado dos homens. Profanar é, pois. restituir ao uso humano. É tornar comum. É repor o sacro à ordem da realização democrática. Agamben realiza a profanação filosófica com seu texto, mostrando que a boa filosofia é análoga ao gesto de restituição democrática. Ele facilita a compreensão, pela exposição do complexo. Não por torná-la rasa. Daí a diferença do que é filosofia e outros métodos possíveis.
O gesto da profanação envolve a posição democrática do “uso”. Agamben realiza a crítica do pior do jargão capitalista, o consumo. Só por tocar nesta seara Agamben desce com suas pinças eruditas à pocilga do pensamento e da ação para recolher pérolas. Com isto ele demonstra a verdade do seu método: profanar é falar do lixo, do resto, do banal, do que se tem como menor, do que dá vergonha e, todavia, mostrar seus profundos veios metafísicos e políticos, cujo conhecimento é o tom exato do seu significado. Profanar é romper com o mero gosto em cuja vigência a sociedade impede a expressão. É a profanação da linguagem que cria a literatura, a profanação da forma que cria a arte, a profanação da moral que cria a ética. A profanação dos conceitos cria a filosofia.
Uso X Abuso: dimensões da relação humana com o que existe
Que filósofo de respeito – leiamos com ironia - ainda poderia se envolver com a vulgaridade do jargão e ainda descobrir por meio de uma análise erudita – e destoante -toda a sua lógica? É assim que, para falar da forma do uso que designa a profanação, Agamben recorre ao cânone teológico do consumo como impossibilidade do uso fixado pela Cúria Romana em seu conflito com a Ordem dos Franciscanos que, no século XIII, reivindicava na lógica da “altíssima pobreza” a “possibilidade de um uso totalmente desvinculado da esfera do direito”, o uso de fato. É João XXII quem argumenta que o uso que se dá no consumo dos bens sempre é da ordem da propriedade. Tal uso se define no próprio ato de seu consumo, de sua destruição, de seu “abusus”. O consumo é a destruição da coisa e, por conseqüência, impedimento de seu uso já que a substância da coisa aniquila-se nele. O consumo é, portanto, algo que só existe no instante de seu desaparecimento. O uso, diferente do consumo, é o das coisas que não podem ser objeto de posse. O uso de algo que não se podia ter era uma contradição para o papa. Para Agamben, a verdadeira natureza da propriedade surge como dispositivo de deslocamento do livre uso dos homens para uma esfera separada que constitui o direito.
É neste ponto que o consumo como direito de posse tem relação com o sagrado como esfera das coisas que foram separadas do uso humano. A “infelicidade dos consumidores” do capitalismo, diz o ousado pensador, advém da incorporação da “não-usabilidade e da crença de que exercem seu direito de propriedade sobre os mesmos, porque se tornaram incapazes de os profanar”. Aquele que compra e consome, não usa.
Usar, por sua vez, é gesto que a sociedade ignorante de seus próprios símbolos, perdeu de vista. A criança usa palavras e coisas quando as transforma em brinquedos realizando o sentido da profanação. Ela evita a destruição pelo uso que se renova a cada brincadeira. A impossibilidade de usar é a mesma impossibilidade de profanar que surge como uma espécie de doença conceitual e emocional contagiosa que vigora em tempos de capitalismo dando-lhe sustentação. O fetiche da mercadoria se explica aí: o sacro é aquilo que separado torna-se santo, mas também escória e tabu, vide o significado do homem sagrado em sua obra (6). A filosofia que, desde seus primórdios se retirou da esfera do útil, do mero serviço, foi para poder morar na esfera do uso como brinquedo, como potencialidade, como profanação necessária do poder do pensamento que ao se sacralizar impede o pensamento livre pela proibição do novo modo de pensar.
A principal atitude que uma ética atual – aquilo que Agamben chama “tarefa política da geração que vem” - deve colocar em cena é a da profanação da religião do capitalismo de que fala Benjamin, da religião do espetáculo, da religião da pornografia, da política como corrupção, da religião da democracia banal, da religião da ciência, da universidade, de tudo o que se coloca como dispositivo para realizar o sonho do “improfanável”. De tudo o que quer sustentar o sagrado sem aceitar sua dialética com o que lhe nega.
(1) Adorno, Theodor. Palavras e Sinais. Modelos Críticos 2. Trad. Maria Helena Ruschel. Petrópolis: Vozes, 1995.
(2) Flusser, Vilém. A dúvida. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
(3) Williams, Raymond. Palavras-Chave. Trad. Sandra Vasconcelos. São Paulo: Boitempo, 2007.
(4) Foucault, Michel. As Palavras e as Coisas. Trad. Salma Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
(5) Agamben, Giorgio. Profanações. Trad. Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007.
(6) Agamben, Girogio. Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua I. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2002.
Fonte: Site da autora, Marcia Tiburi - http://www.marciatiburi.com.br/textos/profanacao.htm
Conversar é uma forma de amar
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Publicado em Vida Simples
O diálogo foi uma das questões mais importantes no surgimento da filosofia. Serviu de modelo teórico de uma ação prática. Platão, na antiguidade clássica, usou-o como estilo para mostrar que a filosofia dependia da conversação. Ele queria mostrar que ela não era uma teoria isolada das relações humanas. Que nascia da diferença do pensamento de cada um que entrava em contato com o pensamento de outro. Chegou a dizer que o pensamento era o diálogo da alma consigo mesma num sentido muito próximo do “falar com os próprios botões” que conhecemos tão bem. Pensar era uma questão de linguagem. O pensamento precisava das palavras, da gramática, da língua, do imaginário, do mito, para se expressar e, por isso, o cuidado com a escolha e o uso de todos estes elementos era tão essencial.
Da conversação é que surgem todas as nossas relações sociais: desde a família até as decisões políticas, passando pela amizade e pelo amor. É porque não sabemos que a arte da conversa é muito mais do que a mera persuasão, que convencimento ou sedução, que perdemos de vista sua função ética. Conversar serve para criar laços sinceros e reais. Com ele se funda o que chamamos sociedade cujo laço essencial é o amor, segundo Humberto Maturana, importante biólogo e filósofo chileno da atualidade.
Ninguém conversa mais
Desaprendemos de conversar por alguns motivos. Um deles é o descaso que temos com as palavras. Nem nos preocupamos em conhecê-las, não avaliamos a história da humanidade que nelas se guarda. Não imaginamos que palavras tão comuns quanto liberdade, memória, história, pensamento, prática, e tantas outras possuem uma vasta história. E não se trata apenas da etimologia, da origem dos nomes, mas da função simbólica, do que está guardado nas palavras como sentido que vai além delas e mostra o mundo humano dos afetos, sentimentos, desejos, projetos. Não apenas os poetas e escritores devem cuidar das palavras, mas todos os humanos.
Conversar é perigoso, dizem os donos do poder
A má política, aquela que se separou da ética, sempre soube o quão perigoso para si mesma era a conversação. Nos campos de concentração da Alemanha nazista era comum a separação de prisioneiros de mesma língua e o convívio de prisioneiros de nacionalidades diferentes. Podemos chamar “violência simbólica”, segundo a expressão do sociólogo do século XX Pierre Bordieau, a este gesto de impedir o contato pela palavra. Sabiam os nazistas que este era um procedimento de tortura mental e também de proteção do regime. Sabiam que a conversa sempre aproxima os seres humanos por criar afetos e, deles, pode surgir algum projeto que modifique alguma coisa que alguém desejava ver sempre igual. A conversação cria cumplicidade. Por isso, todas as instituições autoritárias proíbem a conversação.
Mas o problema maior em nossa sociedade atual é o fato de que incorporamos a proibição da conversa. Introjetamos o medo do contato. Não sabemos mais conversar, perdemos o estímulo quando caímos em depressão ou morremos de medo quando somos tímidos. A frase de Sartre “o inferno são os outros” muitas vezes pode nos socorrer diante do pavor do contato e da relação mais íntima com quem poderia vir a ser um amigo.
Quantas vezes parecemos conversar, mas isso não ocorre. Conversações estranhas, porque sem diálogo, aparecem quando numa festa, num encontro casual, ou na escola, no trabalho, ou mesmo em casa, contamos sobre um filme que vimos. A pessoa a quem nos dirigimos, quem deveria conversar sobre o que lhe dizemos, recorre imediatamente a outro filme que ela viu ou diz não gostar de cinema. Fazemos isso e assim nem conversamos sobre o filme assistido por quem narra o fato, nem o visto por quem o ouve. Perdemos a capacidade de prestar atenção no que foi dito. A capacidade de escutar está em extinção. Se usarmos outro exemplo perceberemos o fenômeno de modo ainda mais claro: quando alguém fala de seus problemas, o outro, aquele que deveria ouvir, sempre comparece com seus exemplos interrompendo a atenção necessária à exposição do primeiro, quando não chega a dizer “não quero ouvir, pois isso não me acrescentará nada”, como se conversar – o que fazemos de mais humano - fosse uma troca mercantil de lucros e ganhos. Ou ainda, interrompe com um “eu sei” prepotente, inviabilizando toda descoberta. Em outras palavras, nos tornamos – em graus variados - incomunicáveis. Em tempos de comunicação de massas, numa sociedade estimulada pela mídia que nem sempre cumpre com seu papel de comunicar, esta se tornou uma questão essencial.
O que teremos a nos dizer no futuro?
Walter Benjamin dizia que a incapacidade de narrar experiências comunicáveis resulta das experiências negativas que sofremos. Um soldado que vai a guerra é o seu exemplo, mas podemos usar nossos mais próximos: aquele que vive na rua sem lar, o que vive na miséria material qualquer que seja, aquele que se sente só num asilo, num orfanato, num hospital. Que criança será capaz de sobreviver em sua intimidade se nenhuma linguagem será capaz de expressar o sofrimento que ela viveu na pele perambulando pelas faróis e, do outro lado, não havendo ninguém que possa ouvi-la? Que poderá ela nos dizer se chegar a ser adulta? Não temos o que dizer aos descendentes de escravos, aos aviltados históricos deste país?
O que temos nós, de fato, a dizer e a ouvir desta esta criança nas ruas? Elie Wiesel, autor de A Noite, quando criança assistiu à morte por enforcamento de um menino num campo de concentração. A condenação fora a condenação do futuro e de toda a humanidade. Mas ainda podemos corrigir os erros. Melhor começar conversando direito, descobrindo o que temos a dizer e ouvir.
Fonte: Site da autora - http://www.marciatiburi.com.br/textos/conversareumaforma.htm
terça-feira, 1 de julho de 2008
Os meus crimes de cada dia.
Ao caro leitor que por estas linhas venha a caminhar, peço a gentileza de ao final da leitura, organizar as idéias da maneira que melhor lhe fizerem sentido. É que em meu tatear cego e sem olfato precisei me quebrar em tantos pedaços, me desfiar em tantos gomos, que recompor a fruta que ardilosamente eu mofava dentro de mim exigirá deixar escorrer junto com o seu suco, a placenta e o feto de algumas de minhas dores; parir pelas mãos de dentro desse buraco negro todas as estrelas brutalmente azedadas nesse licor. Dedico este texto a todos os dizeres mortos no sepulcro de minha memória. Às minhas lembranças inventadas...
É o incômodo de uma dorzinha fina e sinuosa, daquelas que não mobilizam, dor de dente podre, que me trouxe mais uma vez a este espaço. Foi num escuro mais forte que toda a umidade de meus desejos, tropeçando sôfrega em minha solidão que encontrei em meio a bolores e gritos amordaçados, os cadáveres de meus delitos. Com presteza admirável, na inquisição de meus anseios, joguei impiedosamente no saco da mesquinharia tantas gentilezas, carícias, afetos, açúcares... Convulsões... Que mesmo cobertas em musgo e fel ainda apresentam a baba estelar de suas explosões, o brilho quente e ágil refletido das mordaças de um pretérito imperfeito: elas eram a carne e os ossos de meu silêncio.
Todos os dias, como uma faxineira dedicada, eu cuidadosamente me prestei a limpar e alvejar o sangue de minhas palavras desossando-as ainda vivas. Servilmente, como um Judas reencarnado, entregava ao tempo, vampiro insaciável, a água vermelha que delas escorria. Tudo a que o dedo delator de meus medos me sussurrasse aos ouvidos. Um psicopata que justifica a sua covardia na crueldade da violência de seus atos. Embora paridas de meu ventre, não eram minhas as palavras que encarcerei. Eram de outros...
Tanto silêncio, tanta formalidade. Tantas armaduras... tantas máscaras! E passei grande parte de minha vida desfiando o tempo nos requintes desse masoquismo. Minuciosamente polia esse casco duro e áspero e bordava suas amarraras com a seda mole das fezes defecadas em dor no estrangulamento dessas vozes. O engraçado é que mesmo tão criminosos, ainda temos necessidade de tribunais. Nele, sentenciamos todos os nossos desafetos e, vendados com o pano rancoroso de nossos fracassos, os condenamos, engolindo-os, mastigados ao tempero pútrido de suculentas distorções. Ao fim, uma má digestão, o retorcer das lembranças, o orgasmo fingindo no vômito do ressentimento. Saímos loucos e vorazes, batendo em todas as paredes, em todos os espelhos, estraçalhando as mãos em nossos cacos, arrebentando nossos corpos nas lascas desses muros, num empenho inútil de destroçar em berros o desejo que temos do outro.
Só há espírito onde há sangue. A morte só existe dentro da vida. O contrário não é verdadeiro. Somente a consciência da morte a materializa. À natureza, não há nada além de transformações químicas. É o sangue que jorra de nossas paixões quem alimenta a vida e ao seu contrário. O que eu me pergunto é porque, se tantas vezes somos crentes da materialidade dessa fluidez, ainda sim enfiamos tanto sabão nas idéias? Porque tanto temor nas palavras? Se o maior tesouro de sua divindade vem do pecado original que elas carregam. Doutores em convicções demagogas, pintamos toda a fragilidade de nossa ignorância com o verniz de discursos apoteóticos. Eu sou a histérica de Freud! A todo o momento lavando as mãos, aflita em me alvejar de meus desejos. O medo do parto gera um outro, muito pior, um parto as avessas que chupa para dentro do útero estéreo do silêncio as frutas maduras dos afetos. Apodrece tudo ainda no pé, bicha até a raiz, e, por fim, após salgar a terra, amarela todos esses dizeres em gavetas velhas, vedando-lhes a boca com a imperfeição de pretéritos gerundiados...
Saber o quão pertencente a outrem é nosso silêncio, o faz, nos final das contas, um grande latrocínio. Eu sou a criminosa, a cúmplice e a maior de minhas vítimas.