domingo, 7 de setembro de 2014

Letra arrendada



Comprou minha vida e eu não sabia
Pois meu nome não registrei
No chão que sonhava minha vida
Minhas pegadas
E minha sombra
Em troca de arrendamento
Subtraídas
Comprou minha vida e eu não sabia
E a fiança do que eu mesma financiei
Era letra periférica
Sem rubrica de ser minha
Tinta marginal
Sem cabimento
Nas escolhas
Da não-escolha do dia
Desmemória de quem não se queria errante
E por delicadeza não gritou
As raízes que fazia
Comprou minha vida e eu não sabia
Encaixotada a humilhação
Do que sem nome
Ressentia
Culpada de todas as incertezas que perfurei
Nas paredes alheias sem nome
Do que sem nome eu sentia
E não dizia
Comprou minha vida e eu não sabia
Emprestou seu nome à minha paz
e a renomeou conforme lhe convinha
na garganta o amor se misturava
ao desamparo
letra muda em afasia
Comprou minha vida e eu não sabia
Meu tempo em contrato palavra
Palavra que fiei
Na solidão de minha agonia
Perante a indiferença que a olho nu
Eu via
Dava por desentendida
E quanto menos queria incomodar
Mais meu chão eu sedia
E iludida comemorava
A terra que eu nutria
Ainda que a todo tempo sem nome
Classificada e recortada
Sempre e sempre
“ a hóspede”
E nestas terras
Haveria alguma alforria
Mas estadia é só letra vigente
A quem compra o próprio nome
O meu eu arrendei
Lendo analfabeta
As páginas do que não lia
Achando que essas coisas de nascença
De nós é inseparável
Ao espólio de outros impossível
Que não a quem de si acredita ser a própria vida
E logo veio a cobrança
A penhora da dignidade recolhida
descobri
Que sem nome
a escolha feita
estava nas entrelinhas
era vender a minha ida
Pois comprou minha vida
E eu não sabia.
Problema meu que não sabia.  

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre mães e não-escolhas


Já ouvi por muitas vezes que a vida é uma questão de escolha. E muitas vezes já ouvi que tudo depende do meio em que se vive. Não gosto de pensar que não há escolhas. Mas acho extremamente perigoso retomar a questão das escolhas como algo unicamente individual. Temos escolhas quando as temos. E minha experiência diz que temos escolhas em dois contextos: quando temos dinheiro; quando temos apoio e nos sentimos seguros com nós mesmos e com esse apoio. Agora, pensar escolhas sem apoio é querer lavar as mãos com quem precisa de nós – Liberalismo; e é jogar quem está à margem em profunda  solidão. E isso é sim social, posto que coletivo.  Eu lia uma matéria sobre coletivos de mães que se ajudam no cuidados de seus filhos. Para poderem trabalhar e ter uma renda melhor; para não criarem subempregos a outras mulheres; para estabelecerem redes de solidariedade. Ou seja, como mulheres e mães, nós temos de mobilizar toda nossa vida para cuidar dos filhos. Temos de muitas vezes, ter nossa renda reduzida em gastos com escola, babá, empregada, etc. Temos de morar perto das escolas dos filhos, pagar aluguel mais caro, aceitar empregos com rendas menores e com horários mais flexíveis. Mudamos de cidade, de casa, de roupas, de dieta, de horário de dormir, aceitamos maridos folgados e violentos, aceitamos morar com gente que não queremos... por nossos filhos. Eu tive de ver seriamente a possibilidade de ver minha renda ir pelo ralo para pagar um aluguel mais caro, pois não conseguiria mudar o Gabriel em duas escolas. E faz duas semanas que estou com ele na casa da minha mãe por falta de moradia e já estou tendo de ME VIRAR para mudar esse contexto e rápido. Daí eu vejo um monte de homens afirmar que “poxa, seria um ótimo pai, mas...” : “moro longe, tenho emprego com horários que não permitem, tive de me mudar, adoraria, mas....”, pois afinal, a escolha parece ser dada só a um lado. Temos escolhas quando as temos. Em alguns contextos, a falta de escolha é nomeada de “comodismo”, “instinto materno”, “covardia”. Em outros contextos, a escolha é nomeada por falta de escolha: “briguei com minha ex”, “meu emprego é longe”, etc. Escolhas...   

Expeculação imobiliária

Houve um momento em minha vida em que desejei ser folha descolada do galho. Ao vento, sem raiz, sem chão nem terra acertada. A vida me deu voos livres, mas breves. E logo depois, flor eu era, não folha, fui fecundada. Então a vida me colou ao chão e costurou-me em raízes tão fortes e profundas, que nem todas as inundações que arrebentaram de meus olhos conseguiram arrancá-las. Que nem todo o sal destas águas conseguiu impedir que se fortificassem. E eu maldisse as chuvas que me hidratavam. E ao sol que meus veios nutriam. Pois ao solo cada dia mais me afincavam. Com o tempo, com o caule grosso e a vista alta, não mais distinguia a terra de meu sangue e minha pele da paisagem. Foi quando vieram os tratores. E rasgaram-me da terra. Com tanta força que saí deixando à mostra metros e metros de raiz. E sangue. Um novo parto. Eu, útero de mim. A fórceps. E caída fiquei por um tempo, mas ainda de pé apesar de desterrada. E nesse dia soube que não mais queria ser folha, eu era agora copa florida e pesada, eu carregava semente e era responsável por ela e pela sombra de onde estava. Aos tratores, contudo, minha história pouco importava. E mais uma vez vieram. Eu agarrei-me a terra com toda a minha força. Desta vez, porém, as raízes ainda que grandes, estavam frouxas, na terra ainda não tinham se enfiado inteiras. E eu caí. E caíram todas as folhas. E seiva viscosa secou diante do de um novo sol sem sombra. E senti o concreto me enterrando viva. Fiquei apenas em minhas folhas, já que do solo, fui abortada. Sigo agora sem destino, as vezes em círculos de redemoinhos... À procura de um novo solo em meio à especulação imobiliária paulistana e seus corações inférteis em cimento petrificados.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Um cosmético para a pele perfeita


Ei de ter  grossa couraça
grossa couraça...
Que me proteja das desilusões
alanhadas pela Paixão
e suas garras tão ligeiras e afiadas

Ei de ter grossa couraça
grossa couraça...
Que me proteja do frio da Indiferença
que congela o meu sangue em pedra
iceberg no peito
a força de meu Mar contida em gelo
carne em  hipotermia
em vidro corpo
em mim Naufragada
onda empalhada

Ei de ter grossa couraça
grossa couraça...
que rosas por muito esperei
e as tive
mas tacadas em mim
com raiva
e por seus espinhos
enfiada em meu ventre
e das pétalas minuciosamente
já aleijada

Ei de ter grossa couraça
grossa couraça
tão grossa
que relembre em mim
de minha pele
superfície tesa
linha de comunicação com o Outro
e tantas vezes
para souvenir escalpelada
poeta de seu peito abortada

E sigo firme ainda que ferida
refeita em fé e esperança
e à espera
em finalmente parar de sentir dor
pois enfim terei
grossa couraça
grossa couraça... 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Para que um poeta morra.

Eu não sei se faço Literatura, mas sei a Literatura que eu caço. É a da palavra que mora um pouco antes do Silêncio-Pausa, já que o único Silêncio a mim intocado é o da pausa, que é quem dá sentido ao som. É a palavra mais distante possível dos discursos de homogeneização. A Literatura da Alteridade, da singularidade que se sabe somente em relação a um Outro. Literatura que mata o gênio. É a que imprime ao papel o Inomeado. De um Sem-nome  que se faz matéria no que consegue se diferenciar do Outro. E nisso passa a falar de um jeito único. Que captura aquilo que pairava no ar, sem som nem grafia, praticamente na Angústia de um engasgo. A literatura de um soluço. Cenas ali, postas, comprimindo o peito por não se auto-enunciarem.  Eu não sei se tudo que leio é Literatura, mas também tenho comigo a Literatura que eu fujo. É a “grande literatura”. De cânones onde só homens brancos e heteros têm voz. E eu sei que ela tem o seu valor. Porém,  já teve o seu espaço na cronologia dos sonhos e das utopias. Já pode se preparar a sair de palco. Para que coloquemos fogo nele. Essa literatura dos “heróis”. Eu quero é a morte imediata de todos os heróis. Não qualquer morte, é claro. Que não morra laureados. E sim – sim! sim! sim! – cagados. E das grandes coisas eu de ontem me aborreço e desfaço. Eu quero o ínfimo em desagravo. Grão de areia versus o Himalaia. A Lentidão versus a informação. O poema versus o poeta!!! Que todos morram esquartejados! E nem esquecerei a urgente necessidade da morte dos artistas. De todos os artistas. Dos filósofos...  Estripados em minha janela, tão lindos... As vezes eu sonho mesmo até a morte da escrita: sonho as pessoas sentadas,  recitando suas histórias e a de outros, com toda a beleza da Literatura, como se fosse nada. UM INFIMO AO INFINITO E NADA. Um mundo de humanos sendo Artistas e a Arte diluída da normalidade dos dias. Um mundo de humanos sendo apenas e profundamente humanos. Até lá, eu sei, utopias são ao longe e em afasia. Até lá não serei poeta. Com todo o meu esforço. Quero o benefício da dúvida de que toda vez que eu escrevo, eu consiga apunhalar um “Grande” poeta. E faço poemas ruins de proposito. E penso: “ha! ha! Beeeeeem feito!”. E os sujo de menstruação e esfrego meu sangue sujo em suas caras! E cuido deles como meus filhos e elogio esse meu fazer-cuidado, pois sei que o cuidar está fora do mundo dos Homens e eles não entenderão do que eu falo.  Linguagem de Mulher e parida e que não se choca com criança correndo pela casa e nem de limpar bunda de menino. E escolho essa Linguagem que fala de boceta, vagina e clitóris.  Linguagem que nomeia solidões e olhos opacos de memórias ardidas. E que sabe fingir que não foi nada. Que fala de mulheres que moram na mesma casa e não se comunicam com palavras. Estas pararam no caminho, por cansaço. Mas que, enquanto lavam a louça, acabam por desabafar falseadas em amenidades aquelas outras coisas que dormiam exaustas.  E tenho comigo que há muitos silêncios a serem ou paridos e definitivamente abortados. São as palavras que não se sabem. Que foram confundidas a se manterem disfarçadas de Silêncio, para conveniência dos senhores da grande casa (sempre grande). Mudesas. Inomeações.  É a elas que procuro. É Elas que eu gostaria de nomear. Nomear silêncios, enquanto assassino poetas. A alegria da pirraça!

Do resultado eu não garanto. Mas já tenho comigo o prazer do processo. A cada um que me lê, ao menos um poeta morre. E talvez algum artista de outro suporte. E algum filosofo enlouquece... E seus grandes palcos já queimam em chamas. E uma mulher é lida. 
RÁ!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

De Medusa a Zeus


Todos os homens querem meu cu
os corados, os calcados, os recalcados e os requintados.
Todos os homens querem meu cu
os trotskistas, os artistas, os skatistas e os feministas
Todos  os homens querem meu cu
E citam Foucault, citam Catulo, citam Drummond e até Rimbaud...
Mas o que todos querem é meu cu
para eu não ser moralista,
para eu ser a grande foda de SUA vida,
para eu ser a pervertida
para eu ser fetichista.
Que tem antropólogo que diz que é subversão
Que tem Psicanálise que prova que só é tabu e é bom
Que tem filósofo que diz que bom mesmo é gostar de ser  a exceção
Mas chupar boceta nenhum deles defende não!

E vagina é coisa de mulher reprimida
E clitóris coisa de virgem descabida
E do MEU prazer sabe Ele muito bem
Estudioso que é de discurso e depravação
Sodoma e Gomorra
SEU tesão!
Que ali é mais apertadinho  
e a seco o sexo é mais safadinho...
E orgasmo?
Esse talvez desencarnado?!
É só não doer se penetrado
E é só sangrar o esperado
Cala a boca! Não para não!
E se não sinto, Freud diz que é desejo incontido
E se machucar, é ignorar, preocupação com isso é higienismo
E se não gozar, espera outra vez, mulher nem sabe direito o que é gozo, frigidez e paranoia,
nem faz sentido!

E me fodem selvagemente
Os mais intelectuais, me fodem até metaforicamente
Mas fodem BEM MESMO é politicamente...
E foda boa não é o que EU sinto,
Foda boa é sim a SUA poesia sadomasoquista
e lírica....

E me fodem conceitualmente
E me fodem repetidamente
E me fodem e me fodem e me fodem
CINICAMENTE...

Todos os homens querem meu cu
já que, se eu não gozo, sou moralista
já que, se eu não gozo, não sou a grande foda da sua vida
já que, se eu não gozo, não sou suficientemente pervertida
E justo eu que li Foucault?!
E justo eu que li Catulo?!
E justo eu que li Drummond?!
O problema mesmo
é que não li Rimbaud!!!

E já que não gozo
Do Teatro Grego, máscara de Medusa e  boa rima
Gemo alto ainda que arredia:
“que nem nos filmes pornôs, Amor,
hoje sou sua putinha!”
trepada de cu e merda
e ferida e
fingida
a arte de ser estuprada
mas academicamente de cabeça erguida

Esse é meu canto AOS de sempre
delicadeza
de poeta sem corpo
vazo de esperma dos que se elegem Deuses.