sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016


Tú, língua molengada em miados sem espreita de virada, chupa-bolas de carrasco, glicose enjoativa de pudores, falsa simetria de fervores, negociador-a do inegociável. Entregou sua dignidade por qualquer promessa barata de alteridade. A.L.T.E.R.I.D.A.D.E. Palavra rebuscada em verborragia escalpelada. Salvador -a - humanista - vou vomitar! - dos que te enxergam como frágil ou como servo - a. Sabe o que você quer? Sabe? Essa merdinha de estrelinha na testa por ter perdoado seu enrabador?! Vingança do que recebeu em cima a quem está embaixo? Por baixo dos panos, sinceridade desonesta a quem a tutela se elegeu condecorado? A violência é que mais valioso e humano te entrego. Para aprender que não se aniquila a ferocidade do que é irretratável. E se me der o outro lado da face, eu te devolvo um chute na guela da sua ideia. Só me respeita no que me trata como forte em minha força. E enganada em minha fraqueza. Frágil ou parva? Tome esse murro nos olhos da cara!    

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Solidão, um convite

Entra solidão
que eu não aguento mais
esse bater porta infernal
entra solidão
se ajeita logo
fica em silêncio
vê se dorme logo
vê se dorme logo
vê se dorme logo
vê se dorme logo


Entra solidão
que você não é mais
uma esquecida em portões
entra solidão
tira esses sapatos
e a roupa do meu corpo
benze meu silencio 
e vê se me ama logo
e vê se me ama logo
e vê se me ama logo!
de-me esse momento ao menos
de-me esse respeito inteiro 
de-me um vazio terno
que é para eu me acostumar
que é para eu me acalmar 
que é pra eu te aceitar
dentro do meu tempo 
dormindo em meu chão

Entra solidão
que a mesa está posta 
e esta espera é em vão 
Entra solidão
e vem comer direito
sem restos de desejos
o suficiente 
só para nós duas
mãos que escorrem entre as pernas
numa fome de um só pão
entra solidão
entra solidão

e dê sentindo em meu silencio ao menos
um gozo sincero ao menos
que é para eu me acostumar
que é para eu me aconchegar de uma vez
que é para pra eu me ouvir também
história repetida
carne rasurada
portas que se batem 
antes de abrirem
antes deu conseguir dormir

Entra solidão
que eu não aguento mais
todos os seus nãos de antemão
 entra solidão
e vê se me ouve logo
e vê se me olha logo
e vê se cala boca logo

que é para acostumar também
que é para eu  aceitar talvez
que é para eu dormir enfim
que é para eu me sentir

entra solidão
entra solidão 
que eu não aguento mais

esse bater porta infernal

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Cinismo

De algum momento em diante o cinismo não mais me protegeria. Abriram um corte, fino corte, entre as células sinceras do core. Ouvir “Ace Of Spades” na última altura não apagaria os intervalos na escola ouvindo Axé Music e Back Street Boys. Cantarolar Caetano na Universidade em meio aos casaizinhos puro amor-gratidão rasta corpos-padrão vida hipster eu desafortunada sem aborto relações livres presa em um corpo armadilha tão pouco. Nem tão boa quando todos esperam. Nem tão má quanto gostaria de poder bancar. A peleguice é sempre muito sedutora e  a hipocrisia é um vestido de perfeito corte. Compadecer-se de mim… Falar infantilmente. O olhar servil que não enfrenta nem afronta os olhos de quem a especulação revelaria a dificuldade em observar quem tem no rosto uma máscara. Ainda sim, ver a máscara. Não acreditar no que vê. E ver máscaras em todos. Relativizar a dor alheia em nome da Verdade e da Ciência não mais me colocava  a parte de minha própria dor. Ninguém é obrigado… sempre me argumentam. E eu de braços abertos sou piegas demais para bancar  a Lana Del Rey. Não vou morrer amanhã. Com a importância de uma bactéria, não importa. Eu gosto das bactérias. E de muita criatura. Não de todas, como muitos esperam. E busco mesmo em mim, como tudo o que reteve em internos espelhos, pois do outro pouco sei para além de tipos que desfilam e deliram em movimentos discretos, as cacas retém muito do movimento. 

Por isso dançar. Por isso a experiência de uma força e de uma sexualidade bilateral, bivalente, biestra, ancestralidade apropriada para uma cabeça sem face. Alguém que, cansada, quer-se força sem raiva. A raiva todavia não nego, ainda que enclausurada em discursos pelegos. Autoritarismo aprendi, autoritarismo reproduzo.  Mas, se é para ter algum tipo de cinismo, escolhi, abusada, aquele de quem vadia por puro deleite e afrontamento silencioso.     

A língua

E finalmente  a língua procura
daquilo que não deve encontrar
corte 
nem cegos esfolamentos
(a lâmina suga o cabo e ainda que sempre afiada)
Se não se quer mais manter-se
de tocaia na guarita de um silêncio 
é por que na saída é que soa
o sussurro de
uma promessa instaurada

Segue sinuosa então
em cilíndricos cantos súditos
delicada serpente
E remonta Eras inteiras
na caça do que lhe conte uma história humana sem teorias
: só a fala à língua suga 
enquanto lava

respira fundo fotografias
de suas rosas encravadas
vomita espinhos e a flor
no entreabrir de pernas 
e a água finalmente rasga
em rompante
a mortalha invisível que a imobilizava

é correnteza nascida enfim
na língua
um fim:
a flor finalmente 

encarnada 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Nós - preparação para o dia 21

Nós - preparação para o dia 21
Haverá o dia em que
serei
como uma de nós,
E não mais o meu e o seu corpo
terra colonizada
refugiadas de nossa inegociável humanidade
Não mais!
E não mais perguntas que não querem saber o que nos questionam
blablabla retóricas
apenas
fazer de nós mero espelho
de seus próprios egos ególatras
refletores de seus próprios anseios
tensos receios
Não mais!
E não mais apenas um buraco e um par de seios
mas
nós
inteiras
para além de um conceito encurraladas
bucetas
Eu sei!
Esse dia chegará!
E nele:
memórias
mamilos
pelos
pés
pubis
assopros
cantos
penas sob a pele
silêncios
o tempo sempre infinito e em gotejo
labirintos inteiros
experimentados naquilo que têm de nervos
inesperados firmamentos
a nossa cor finalmente nomeada sob face das águas
liquido vermelho
E eu
de mãos dadas
com outras como eu
nós!
Saberemos
que nosso olhar
nesse dia
será direto e certeiro
pois
o medo não nos vigiará
e senhoras de nossa história
escreveremos
esse outro dia,
só que no passado,
o dia em que
limpamos a menstruação caida pelo chão
ainda com nojo e receio
pois ela nada representava
e nós doíamos
doíamos
doíamos
ai!
solitárias
rasuradas em vermelhos aguados à força
por roseados esbranquiamentos
e em que sangrar era sinal
de palavra dita
em abafada ressonância
caso não
apenas
“a de uma histérica
louca
exagerada!”
Não mais!
Nesse dia em diante
sempre
e sempre
re-citadas
somente entre aspas
E como verdades?
Não mais!
E escreveremos com essa mesma menstruação
por pura naturalidade
nossas canções, nossos cálculos
nossa sonoridade
o desenho curvo de nosso rosto
o macio exuberante de nosso cabelo crespo
e tudo aquilo o que por segundos
ainda se acumule estanque
por segundos…
por séculos?
Não mais!
E o que em nosso útero se animou
teso e suspenso
será
o inicio realmente de uma nova história
sempre nossa
NOSSA!
e ditas por nós
com potência e alcance
VOZ!!!
E eles conversarão com alguma de nós
como quem espera encontrar
uma novidade
e se eu, como uma nós, contar a um deles minhas histórias
ele as ouvirás
E se eu, como uma de nós, falar de dor
ele se calará
e se eu me calar, como uma de nós,
ele me questionará
preocupado
pois
o seu silêncio e abraço e questionamento
serão realmente sinceros
não haverá mais
intermediadores de afetos
E o leite que escorrer de meu seio, como uma de nós,
não será
indicio de desamparo ou abandono
ou o abafamento do meu choro no chuveiro
será apenas o que realmente é:
alimento.
e olharei às outras como eu, nós, e saberei que se o medo do passado ainda me afligir
posso buscar-lhes a força
pois ele
nem nenhum dos dele
nos terá
colocado em rixa ainda que nos saiba como iguais
Frida e sua irmã…
não mais!
galos de rinha
capitães do mato
bruxas que se incendeiam
inquisidoras de seu próprio gozo?
Não mais!
E nesse dia
eu sentarei com Outras como eu
fortes
ágeis
desfragmentadas
mosaicos finalmente perfeitos
e escreveremos
“não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão"*
citaremos OUTRAS
como nós
e o sangue que escorrer de nossas pernas
cairá na terra e nas folhas sobre a terra
e nascerá um poema
para ser lido de mãos dadas
com essa Outra eu, como nós.
para um sentido novo.
Esse dia será hoje
E tudo voltará a fazer
sentido
SENTINDO.
E de nossa própria menstruação
Renasceremos.
*poeta Anna Akhmátova


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

a Outra

Eu queria ser Aquela 
que não se rende pelo que se apega
E nem cede enquanto se entrega
Aquela que nunca se queira em comparação  com Esta
E que nunca mede o próprio corpo pelo que falta 
e sim pelo que reverbera
Inteira
a Outra
A que constrói sua jornada em moradas de tatuados azulejos
Inteiros
Lisos, ordenados e belos no que em exatos se fazem 
nos pequenos e delicados detalhes de seus traçados
Curvilíneos lisonjeiros
E não pelas rachaduras que destroem o desenho 
fissuras
esperança de redenção no Mosaico que um dia poderá se tornar
se desfragmentada 
pelo inteiriço de seus anseios
Se…
Mas por enquanto
ainda 
Eu queria ser a Outra
Aquela
que se culpa só pelas escolhas que forem dela
Se era a maternidade o sonho de seu parceiro
e a ele a recusa é coisa de de mulher que não serve
A mim nem chegará a formar opinião ou descontentamento
O meu corpo em si já responde ao que repudia ainda que deleite-se.
E minhas memórias
a ele
são apenas mote
para me tocar sem me entender
música cantada em língua que lhe é alheia
estrangeira de minha humanidade
então
ajoelho a Deus e peço
Oh, Senhor!
eu queria ser a Outra
Aquela que nada disso escreve
nem abre prerrogativas
Ou titubeia
Que sempre tem amores à altura
E nunca negocia com quem lhe rouba
Até a carne
Enquanto esganiceia 
Corro e aflita 
Procuro uma qualquer uma
apenas uma referência!
desço a mão ao centro do corpo e procuro

vanguarda de uma solidão 
sem deficiência
e ao meu próprio tesão vasculho
tensa
mas não
o que encontro é somente
monstro
corpo em compendio médico
frio
em maca
contorcido
desamparo
e ainda que saiba que olhares pedem algo
que eu não sei
quem sabe é Ela
que não esta
a Outra
sigo ainda em sonhar ser a Outra
E se em misericórdia me dizes
- eu já vi você ser a Outra
Aquela que vezes se põe com o mais lindo vestido de viscose
Os olhos pintados
Aparentemente alada
Saiba que o que escondo é que ainda sou Esta
a que cede 
Enquanto vê seu coração espremido de ciúmes e amor
a quem em migalhas
Aceita terna 
de apenas 
banalidades ditas na cama
"Senti saudades"
E eu sabia
e sei
que era ali 
a Outra
E a que eu queria ser
Aquela. 
A que não precisa se apegar no que se rende
a que ainda que ao seu corpo não compreenda
não cede
é forte
e se fecha
E só a si se apega
pelo que se sente forte e bela
Ela
a Outra
que não Esta.

***
O poema é um diálogo com Hilda Hilst
***

Aflição
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

sábado, 14 de novembro de 2015

Antes que.

Inscrever silêncios em água correnteza antes que os mimetizem em pedra.
Seria o fetiche o preço necessário para aceitação de um corpo-deformidade?
Ou apenas mais um mecanismo de cooptação daquilo que cresce com ameaçadora força já nas margens?
Segunda hipótese utopia?
Ou apenas daquilo que é INEGOCIÁVEL?
Átomo, vibração e intensidade são indissociáveis.
Inclusive da relação que mantém com o outro átomo.
Corpo-Espaço-Tempo são apenas em relação a tu - lugar acontecendo em mim.
São também o que instaura essa escrita - A.

Eu prometo como quem se funde funda água e olha NOS SEUS OLHOS.