quinta-feira, 27 de março de 2008
No, I don´t wanna dance!
Pontas Dúbias...
Acordei atrasada hoje. Mesmo assim tinha de tomar banho para lavar os cabelos que estavam sujos. Enquanto sentia a água quente me despertar do sono que não fora embora mesmo com o susto do atraso, aproveitava o prazer enorme em sentir o xampu ensaboar os fios de minha cabeça, agora curtos. Passei o condicionador e me senti muito macia, cada vez mais, até parecer que aquela sedosidade toda me penetrava também por dentro. Fiquei com o coração de manteiga. Enlaçaram-me repentinamente lembranças em fios, cheias de babosa ...e a água do chuveiro caiu mais forte no meu rosto. Ficou tudo embaçado. Os cabelos aos poucos me apertavam a garganta, estreitando-a em cada fio.
Há três anos esses fios me enroscam o pescoço. Cortei o cabelo na esperança de que não mais me sufocassem no banho. Pelo tamanho que ficou não há comprimento para que dêem a volta no pescoço. Mais ainda me entram pela boca e continuo a sentir os mesmos nós.
A vista estava embaçada, mas ainda sim o vi perfeitamente passando pelos corredores da Letras (ou das Letras?) enquanto desenhava a mesma cara de quem finge que não viu. Para quê? Só havia eu no banheiro! Passei condicionador mais uma vez para que os fios ficassem bem macios e para que não fizessem nenhum nó. Talvez fosse melhor beber o condicionador!
terça-feira, 25 de março de 2008
Site da Mallu Magalhães
Considerada uma das revelações da música produto de divulgação pela net. Muito boa!
terça-feira, 11 de março de 2008
Ao desdia da mulher...
O texto abaixo, embora tenha o estilo de escrita daqui foi publicado na Gironda primeiramente. Isto porque, a demanda veio de lá. Mas deixo abaixo pelo tom confessional dos escritos. Ele também é um diálogo com textos anteriores.
Inicio este texto sem a certeza de que será concluído, visto que a reflexão que ele propõe é fruto de uma demanda “de fora para dentro” – o dia internacional da mulher – que foi “comemorado” no dia 8, sábado. Por isso, as idéias aqui podem aparecer soltas e disparatadas.
Bom, acho que não será necessário explicar que não é uma data que mais simbolize qualquer coisa que seja. Mas, de qualquer modo, tem, a seu modo, repercussão, na medida em que estou aqui escrevendo esse texto. Mesmo que para negar sua importância no movimento feminista atual, ainda por alguns instantes me vi inclinada a pensar sobre O que é ser mulher?. No sábado, tive pouco acesso a internet , mas os poucos momentos em que entrei para ver os meus e-mails, tive o ímpeto de postar sob o titulo “Dia Internacional da Mulher” qualquer conteúdo desconexo, em forma de protesto, assim como foi feito na época da ditadura, em que se publicavam poesias nos editoriais em que havia tido interceptação da censura. Mas não o fiz. Por preguiça mesmo. Quem sabe, por destino.
Eu sei que muitos dos leitores que habitam este blog odeiam aquelas mulheres feministas que, de forma estereotipada, parecem militar 24 horas por dia. Acabam por ser categorizadas pelo caráter assexualizante de seus discursos. Esses dias eu mesma me peguei a perguntar : O que é mulher objeto? Pergunta a que minha amiga Sonia respondeu: “é aquela que não se preocupa com o próprio prazer, mas apenas com o papel que tem a cumprir e, isso, não tem nada a ver com dar ou não dar na primeira vez”. Porém, veja bem: ela parou para pensar nessa resposta. Não foi de imediato.
Eu sou uma feminista. Quem quiser de parar este texto por aqui, fique à vontade. Mas explico. Sou uma feminista na medida em que vivo em um país machista. Do contrário, bastaria que eu fosse feminina. O que creio que tem de ser defendido, é que não se deve abolir a feminilidade em prol de uma igualdade (de direitos) entre gêneros. Por outro lado o Feminino que tenho em mente não é aquele caráter de delicadeza ou ainda obscurantista a que algumas pessoas se referem. É outra coisa. É o que tem em uma escrita de Clarice Lispector e que não conseguimos descrever com certeza, mas que genialmente a autora capturou. Talvez o que disse agora seja outra ideologia de “o bom crioulo”. Se o for, esta não é uma questão fechada e, portanto, deixo em aberto para outros tipos de argumentação. O que me fez chegar até tais apreensões (não são conclusões) foram especulações a partir de sentimentos meus e de coisas que vejo freqüentemente da realidade de outras mulheres que me rodeiam. Será que após tantos séculos em silêncio, em que a valorização deste foi uma regra imposta como qualidade inerente ao sexo (e aqui falo em sexo, caráter biológico) feminino não restou nada que em conjunção com o aspecto biológico refletem e refratam da imagem que temos do que seja ser mulher? As idéias passam de geração a geração e não precisa ser historiador para saber isso, mas talvez o precise ser para se afirmar com mais argumentos. Pensemos mesmo no que está na base da idéia de inconsciente coletivo. Pois bem, após tanto tempo de silêncio e de clausura de palavras e dos sentimentos que nelas ganham forma, será não há nada que more dentro deste não dito, que foi comum a todas e que ainda paire em nosso inconsciente?
Não penso apenas sob o aspecto pejorativo. Não é isso! Será que quando me olho no espelho nua, e vejo um corpo que parece que, a qualquer momento, pode se quebrar, com todas as suas peculiaridades, peculiaridades estas que estão talvez mais na minha cabeça do que em mim realmente, será que não há nada de feminino no modo como organizo, categorizo e recorto a minha interpretação de mundo, o MEU mundo, do meu corpo e do modo como esse corpo se faz presente nesse mundo? Não houve nada desse silêncio em comum que ainda nos perpasse em uma “quarta dimensão da palavra”, com as palavras de Clarice? O quanto há de feminino e o quanto há de masculino nesse olhar? Aliás, o quanto há da idéia masculina de feminino e o quanto há realmente de feminino nesse olhar? Creio que não dá para se posicionar como mulher, mulher que não se objetualiza, ou que pelo menos, que tenta uma auto crítica neste sentido sem passar primeiramente por estas questões.
Quando dei inicio ao curso de Letras na Universidade de São Paulo, acreditava que conhecimento tinha antes de tudo de me trazer tolerância. Porque, em meus estudos, constantemente eu tenho oportunidade de acesso a pontos de vista que gradativamente refinam o meu olhar. Tal refinamento só poderia levar a um número maior de contato com outras realidades, de outros pontos partida e consequentemente tal prática me levaria a uma maior capacidade em me colocar no lugar do outro e assim tolerá-lo. Isso seria senso-crítico. Mas o que a duras custas eu aprendi é que senso crítico não é ser tolerante a tudo, mas antes, saber a que eu tenho de ser tolerante e de que modo devo manifestar a minha intolerância. Infelizmente, eu ainda sou punida por ter um útero. Punida por homens e também por MULHERES. Punida por idéias. Idéias que beneficiam a alguém, senão não haveria punição. Quem é esse alguém, deixo ao leitor que preencha a lacuna como bem desejar. Eu preenchi assim: às mulheres que se enquadram nos padrões e usam isso para se afirmarem diante das outras e, aos homens que se afirmam com o vaso bonito que exibem ao seu lado.
Mas não adianta eu vir aqui e dizer “olha, mulher feia não é descartável!”. Não existe um ensino “aprenda a gostar de jiló em duas lições”. Pensar no que há está nas profundezas do que colocamos na sacolinha do Feio e do Belo, talvez, bem talvez, esteja mais próximo de um começo.
O que me incomoda de verdade é ouvir relatos como os da minha faxineira que depois de vinte anos de casamento foi agredida pelo marido porque envelheceu. Sim, porque envelheceu. Ele a apelidou “carinhosamente” de “monstra”. Em contrapartida, ela me relatava que estava ali limpando minha casa para arrecadar dinheiro e mudar de casa e assim deixá-lo. Outra coisa que também me incomoda é ver o olhar de felicidade de muitos homens quando digo que tenho um filho. Não é porque gostam de criança, não! É porque na categoria de mãe solteira eu, na cabeça deles, seria uma mulher mais “fácil” de levar na cama. Infelizmente, isso é mais comum do que parece. No começo, achei que fosse coisa de minha cabeça e tentei mesmo ignorar. Mas era tão indisfarçável como expressavam tal reação que não havia como não me incomodar.
Sabe o que é engraçado? É que homem que fica com mulher porque também é bonita, é normal, mas mulher que fica com um rapaz porque ele também tem dinheiro ou porque também é bonito é vagabunda ou fútil. Não sei se pegaram o quis dizer com o TAMBÉM. Não vejo nada de errado em ficar-se com alguém também por estética. Quem seleciona todo mundo não seleciona ninguém. Mas para quem é essa estética e que estética é essa? Nesse ponto, eu continuo a enxergar novamente o silêncio. O silêncio que dá voz a esta feminilidade indissociável ao caráter biológico do que é ser mulher, mas que pode ser dito sim. Quem sabe, a Maetê não tenha razão: “Mas como eles não sabem lidar com a mulher substantivo, eles nos retalhem em pequenos adjetivos”. Não quero ser punida por ter um útero, mas também não preciso (embora eu possa querer) negá-lo. Não quero que se torne clichê o milagre de ter gerado um ser dentro de mim a partir de uma “gosminha” e de uma coisinha microscopia que estava o tempo todo dentro de mim, mas que de repente se fez presente de maneira tão fantástica, que “clichelizar” em nome de um discurso igualitário, seria apagar da minha vida uma das únicas experiências em que vivi a poesia que se materializou.
Creio que ser mulher seja estar atenta e critica às contradições que nos são impostas (as vezes por nós mesmas) e ainda sim não apagar a beleza dos paradoxos que reside nessa condição.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
CHAUÍ: VIOLÊNCIA, RACISMO E DEMOCRACIA
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A professora Chauí tratou da questão da violência, do racismo e da democracia no Brasil.
O texto que serviu de base à palestra da professora Chauí já foi publicado no site do PT: http://www.pt.org.br/portalpt/index.php?option=com_content&task=view&id=5816&Itemid=239
A professora Chauí autorizou o Conversa Afiada a reproduzi-lo:
Contra a violência
1. Ética, violência e racismo
Numa perspectiva geral, podemos dizer que a ética procura definir, antes de mais nada, a figura do agente ético e de suas ações e o conjunto de noções (ou valores) que balizam o campo de uma ação que se considere ética. O agente ético é pensado como sujeito ético, isto é, como um ser racional e consciente que sabe o que faz, como um ser livre que decide e escolhe o que faz, e como um ser responsável que responde pelo que faz. A ação ética é balizada pelas idéias de bom e mau, justo e injusto, virtude e vício, isto é, por valores cujo conteúdo pode variar de uma sociedade para outra ou na história de uma mesma sociedade, mas que propõem sempre uma diferença intrínseca entre condutas, segundo o bem, o justo e o virtuoso. Assim, uma ação só será ética se for consciente, livre e responsável e só será virtuosa se for realizada em conformidade com o bom e o justo. A ação ética só é virtuosa se for livre e só será livre se for autônoma, isto é, se resultar de uma decisão interior ao próprio agente e não vier da obediência a uma ordem, a um comando ou a uma pressão externos. Enfim, a ação só é ética se realizar a natureza racional, livre e responsável do agente e se o agente respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é uma intersubjetividade. A ética não é um estoque de condutas e sim uma práxis que só existe pela e na ação dos sujeitos individuais e sociais, definidos por formas de sociabilidade instituídos pela ação humana em condições históricas determinadas.
A ética se opõe à violência, palavra que vem do latim e significa: 1) tudo o que age usando a força para ir contra a natureza de algum ser (é desnaturar);2) todo ato de força contra a espontaneidade, a vontade e a liberdade de alguém (é coagir, constranger, torturar, brutalizar);3) todo ato de violação da natureza de alguém ou de alguma coisa valorizada positivamente por uma sociedade (é violar);4) todo ato de transgressão contra aquelas coisas e ações que alguém ou uma sociedade define como justas e como um direito;5) conseqüentemente, violência é um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão, intimidação, pelo medo e pelo terror.
A violência se opõe à ética porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade como se fossem coisas, isto é, irracionais, insensíveis, mudos, inertes ou passivos. Na medida em que a ética é inseparável da figura do sujeito racional, voluntário, livre e responsável, tratá-lo como se fosse desprovido de razão, vontade, liberdade e responsabilidade é tratá-lo não como humano e sim como coisa, fazendo-lhe violência nos cinco sentidos em que demos a esta palavra.
É sob este aspecto (entre outros, evidentemente), que o racismo é definido como violência. Não é demais lembrar quando essa idéia aparece.
De fato, não se sabe muito bem qual é a origem da palavra “raça” - os antigos gregos falavam em etnia e genos, os antigos hebreus, em povo, os romanos, em nação;e essas três palavras significavam o grupo de pessoas descendentes dos mesmos pais originários. Alguns dicionários indicam que, no século XII, usava-se a palavra francesa “haras” para se referir à criação de cavalos especiais e pode-se supor que seu emprego se generalizou para outros animais e para vegetais, estendendo-se depois aos humanos, dando origem à palavra “raça”. Outros julgam que a palavra se deriva de um vocábulo italiano, usado a partir do século XV, “razza”, significando espécie animal e vegetal e, posteriormente, estendendo-se para as famílias humanas, conforme sua geração e a continuidade de suas características físicas e psíquicas (ou seja, ganhando o sentido das antigas palavras etnia, genos e nação). Quando, no século XVI, para seqüestrar as fortunas das famílias judaicas da Península Ibérica, a fim de erguer um poderio náutico para criar impérios ultramarinos, a Inquisição inventou a expressão “limpeza de sangue”, significando a conversão dos judeus ao cristianismo. Com isso, a distinção religiosa, que separava judeus e cristãos, recebeu pela primeira vez um conteúdo étnico.
É interessante observar, porém, que a palavra “racial” surge apenas no século XIX, particularmente com a obra do francês Gobineau, que, inspirando-se na obra de Darwin, introduziu formalmente o termo “raça” para combater todas formas de miscigenação, estabelecendo distinções entre raças inferiores e superiores, a partir de características supostamente naturais. E, finalmente, foi apenas no século XX que surgiu a palavra “racismo”, que, conforme Houaiss, é uma crença fundada numa hierarquia entre raças, uma doutrina ou sistema político baseado no direito de uma raça, tida como pura e superior, de dominar as demais. Com isso, o racismo se torna preconceito contra pessoas julgadas inferiores e alimenta atitudes de extrema hostilidade contra elas, como a separação ou o apartamento total - o apartheid - e a destruição física do genos, isto é, o genocídio.
Seja no caso ibérico, seja no da colonização das Américas, seja no de Gobineau, seja no do apartheid, no do genocídio praticado pelo nazismo contra judeus, ciganos, poloneses e tchecos, ou o genocídio atual praticado pelos dirigentes do Estado de Israel contra os palestinos, a violência racista está determinada historicamente por condições materiais, isto é, econômicas e políticas. Em outras palavras, o racismo é uma ideologia das classes dominantes e dirigentes, interiorizada pelo restante da sociedade.
Ora, o fato de que no Brasil não tenha havido uma legislação apartheid, nem formas de discriminação como as existentes nos Estados Unidos, e que tenha havido miscigenação em larga escala, faz supor que, entre nós, não há racismo. O fato de que tenha sido necessária a promulgação da Lei Afonso Arinos e que o racismo tenha sido incluído pela Constituição de 1988 entre os crimes hediondos, deve levar-nos a tratar a suposição da inexistência do racismo num contexto mais amplo, qual seja, no de um mito poderoso, o da não-violência brasileira. Trata-se da imagem de um povo ordeiro, pacífico, generoso, alegre, sensual, solidário que desconhece o racismo, o sexismo, o machismo e o preconceito de classe, que respeita as diferenças étnicas, religiosas e políticas, não discrimina as pessoas por sua posição econômico-social nem por suas escolhas sexuais, etc.
2. O mito da não-violência brasileira
Por que mito? Porque:
a) um mito opera com antinomias, tensões e contradições que não podem ser resolvidas sem uma profunda transformação da sociedade no seu todo e que por isso são transferidas para uma solução imaginária, que torna suportável e justificável a realidade. Em suma, o mito nega e justifica a realidade negada por ele;
b) um mito cristaliza-se em crenças que são interiorizadas num grau tal que não são percebidas como crenças e sim tidas não só como uma explicação da realidade, mas como a própria realidade. Em suma, o mito substitui a realidade pela crença na realidade narrada por ele e torna invisível a realidade existente;
c) um mito resulta de ações sociais e produz como resultado outras ações sociais que o confirmam, isto é, um mito produz valores, idéias, comportamentos e práticas que o reiteram na e pela ação dos membros da sociedade. Em suma, o mito não é um simples pensamento, mas formas de ação;
d) um mito tem uma função apaziguadora e repetidora, assegurando à sociedade sua auto-conservação sob as transformações históricas. Isto significa que um mito é o suporte de ideologias: ele as fabrica para que possa, simultaneamente, enfrentar as mudanças históricas e negá-las, pois cada forma ideológica está encarregada de manter a matriz mítica inicial. No nosso caso, o mito fundador é exatamente o da não-violência essencial da sociedade brasileira.
Muitos indagarão como o mito da não-violência brasileira pode persistir sob o impacto da violência real, cotidiana, conhecida de todos e que, nos últimos tempos, é também ampliada por sua divulgação e difusão pelos meios de comunicação de massa. Ora, é justamente no modo de interpretação da violência que o mito encontra meios para conservar-se. Se fixarmos nossa atenção ao vocabulário empregado pelos mass media, observaremos que os vocábulos se distribuem de maneira sistemática:
- fala-se em chacina e massacre para referir-se ao assassinato em massa de pessoas indefesas, como crianças, favelados, encarcerados, sem-terra;
- fala-se em indistinção entre crime e polícia para referir-se à participação de forças policiais no crime organizado, particularmente o jogo do bicho, o narcotráfico e os seqüestros;
- fala-se em guerra civil tácita para referir-se ao movimento dos sem-terra, aos embates entre garimpeiros e índios, policiais e narcotraficantes, aos homicídios e furtos praticados em pequena e larga escala, mas também para referir-se ao aumento do contingente de desempregados e habitantes das ruas, aos assaltos coletivos a supermercados e mercados, e para falar dos acidentes de trânsito;
- fala-se em fraqueza da sociedade civil para referir-se à ausência de entidades e organizações sociais que articulem demandas, reivindicações, críticas e fiscalização dos poderes públicos;
- fala-se em debilidade das instituições políticas para referir-se à corrupção nos três poderes da república, à lentidão do poder judiciário, à falta de modernidade política;
- fala-se, por fim, em crise ética.
Essas imagens têm a função de oferecer uma imagem unificada da violência. Chacina, massacre, guerra civil tácita e indistinção entre polícia e crime pretendem ser o lugar onde a violência se situa e se realiza;fraqueza da sociedade civil, debilidade das instituições e crise ética são apresentadas como impotentes para coibir a violência. As imagens indicam a divisão entre dois grupos: de um lado, estão os grupos portadores de violência, e de outro, os grupos impotentes para combatê-la.
Essas imagens baseiam-se em alguns mecanismos ideológicos por meio dos quais se dá a conservação da mitologia.
O primeiro mecanismo é o da exclusão: afirma-se que a nação brasileira é não-violenta e que, se houver violência, esta é praticada por gente que não faz parte da nação (mesmo que tenha nascido e viva no Brasil). O mecanismo da exclusão produz a diferença entre um nós-brasileiros-não-violentos e um eles-não-brasileiros-violentos. "Eles" não fazem parte do "nós".
O segundo é o da distinção: distingue-se o essencial e o acidental, isto é, por essência, os brasileiros não são violentos e, portanto, a violência é acidental, um acontecimento efêmero, passageiro, uma "epidemia" ou um "surto" localizado na superfície de um tempo e de um espaço definidos, superável e que deixa intacta nossa essência não-violenta.
O terceiro é jurídico: a violência fica circunscrita ao campo da delinquência e da criminalidade, o crime sendo definido como ataque à propriedade privada (furto, roubo e latrocínio). Esse mecanismo permite, por um lado, determinar quem são os "agentes violentos" (de modo geral, os pobres e, entre estes, os negros) e legitimar a ação da polícia contra a população pobre, os negros, as crianças de rua e os favelados. A ação policial pode ser, às vezes, considerada violenta, recebendo o nome de "chacina" ou "massacre" quando, de uma só vez e sem motivo, o número de assassinados é muito elevado. No restante das vezes, porém, o assassinato policial é considerado normal e natural, uma vez que se trata da proteger o "nós" contra o "eles".
Finalmente, o último mecanismo é o da inversão do real, graças à produção de máscaras que permitem dissimular comportamentos, idéias e valores violentos como se fossem não-violentos. Assim, por exemplo, o machismo é colocado como proteção à natural fragilidade feminina, proteção inclui a idéia de que as mulheres precisam ser protegidas de si próprias, pois, como todos sabem, o estupro é um ato feminino de provocação e sedução;o paternalismo branco é visto como proteção para auxiliar a natural inferioridade dos negros, os quais, como todos sabem, são indolentes e safados;a repressão contra os homossexuais é considerada proteção natural aos valores sagrados da família e, agora, da saúde e da vida de todo o gênero humano ameaçado pela Aids, trazida pelos degenerados, etc..
No caso desse mecanismo de inversão, foi sintomática a reação de uma parte da classe média diante do Prouni. De fato, muitos disseram, pasmem!, que se tratava de “opressão racial contra os brancos”, no momento da entrada na universidade, e de “estímulo ao ódio contra os negros”, durante a permanência universitária. Em suma, o Prouni seria a criação do racismo no Brasil!
Mais clara e ainda mais paradigmática do mecanismo da inversão é o que acaba de ocorrer com a Ministra Matilde Ribeiro pela entrevista concedida à BBC: para puni-la por todas as políticas de ações afirmativas e de criação democrática de direitos sociais, econômicos e culturais, para puni-la por sua luta contra a violência racial, os meios de comunicação de massa tentam transformá-la em agente da violência. Ora, ao isolar suas palavras do contexto, os defensores da “não-violência” praticam uma ato de violência psíquica, intelectual e política, pois deformam e traem o que ela disse. Usando essa violência, declaram que não há racismo no Brasil, a não ser este que, segundo eles, ela teria instituído. E, suprema ironia, um dos jornais atacantes e pretensamente não racista costumava referir-se a FHC como “presidente mulatre”!
Em resumo, no Brasil, a violência não é percebida ali mesmo onde se origina e ali mesmo onde se define como violência propriamente dita, isto é, como toda prática e toda idéia que reduz um sujeito à condição de coisa, que viola interior e exteriormente o ser de alguém, que perpetua relações sociais de profunda desigualdade econômica, social e cultural. Mais do que isto, a sociedade não percebe que as próprias explicações oferecidas são violentas porque está cega ao lugar efetivo de produção da violência, isto é, a estrutura da sociedade brasileira, que, em sua violência cotidiana, reitera, alimenta e repete o mito da não-violência.
3. Uma sociedade violenta
Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é determinada pelo predomínio do espaço privado (ou os interesses econômicos) sobre o público e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades, que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações, entre os que julgam iguais, são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade;e, entre os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. Há, assim, a naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas (consideradas desigualdades raciais entre superiores e inferiores), religiosas e de gênero, bem como naturalização de todas formas visíveis e invisíveis de violência.
A violência está de tal modo interiorizada nos corações e mentes que alguém pode usar a frase "um negro de alma branca" e não ser considerado racista. Pode referir-se aos serviçais domésticos com a frase "uma empregada ótima: conhece seu lugar” e considerar-se isento de preconceito de classe. Pode dizer, como disse certa vez Paulo Maluf, “a professorinha não deve gritar por salário, mas achar um marido mais eficiente” e não ser considerado machista.
Podemos resumir, simplificadamente, os principais traços de nossa violência social considerando a sociedade brasileira oligárquica, autoritária, vertical, hierárquica, polarizada entre a carência e o privilégio e com bloqueios e resistências à instituição dos direitos civis, econômicos, sociais e culturais.
Nossa sociedade conheceu a cidadania através de uma figura inédita: o senhor (de escravos)-cidadão, e concebe a cidadania com privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes retirada quando os dominantes assim o decidirem. O caso da mídia contra a Ministra Matilde exprime exatamente essa idéia de cidadania concedida e retirada ao sabor dos interesses dos dominantes. Pelo mesmo motivo, no caso das camadas populares, os direitos, em lugar de aparecerem como conquistas dos movimentos sociais organizados, são sempre apresentados como concessão e outorga feitas pelo Estado, dependendo da vontade pessoal ou do arbítrio do governante.
Em nossa sociedade, as diferenças e assimetrias sociais e pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades, e estas, em relação de hierarquia, mando e obediência. Os indivíduos se distribuem imediatamente em superiores e inferiores, ainda que alguém superior numa relação possa tornar-se inferior em outras, dependendo dos códigos de hierarquização que regem as relações sociais e pessoais. Todas as relações tomam a forma da dependência, da tutela, da concessão e do favor. Isso significa que as pessoas não são vistas, de um lado, como sujeitos autônomos e iguais, e, de outro, como cidadãs e, portanto, como portadoras de direitos. É exatamente isso que faz a violência ser a regra da vida social e cultural. Violência tanto maior porque invisível sob o paternalismo e o clientelismo, considerados naturais e, por vezes, exaltados como qualidades positivas do "caráter nacional".
Nela, as leis sempre foram armas para preservar privilégios e o melhor instrumento para a repressão e a opressão, jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. Essa situação é claramente reconhecida pelos trabalhadores quando afirmam que "a justiça só existe para os ricos". O Poder Judiciário é claramente percebido como distante, secreto, representante dos privilégios das oligarquias e não dos direitos da generalidade social. Para os grandes, a lei é privilégio;para as camadas populares, repressão. A lei não figura o pólo público do poder e da regulação dos conflitos, nunca define direitos e deveres dos cidadãos porque, em nosso país, a tarefa da lei é a conservação de privilégios e o exercício da repressão. Por este motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não para serem transformadas - situação violenta que é miticamente transformada num traço positivo, quando a transgressão é elogiada como “o jeitinho brasileiro”.
Em nossa sociedade, não existem nem a idéia nem a prática da representação política autêntica. Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na qual a relação é de tutela e de favor. É uma sociedade, conseqüentemente, na qual a esfera pública nunca chega a constituir-se como pública, pois é definida sempre e imediatamente pelas exigências do espaço privado (isto é, dos interesses econômicos dos dominantes). A indistinção entre o público e o privado não é uma falha acidental que podemos corrigir, pois é a estrutura do campo social e do campo político que se encontra determinada por essa indistinção.
É uma sociedade que por isso bloqueia a esfera pública da opinião como expressão dos interesses e dos direitos de grupos e classes sociais diferenciados eou antagônicos. Esse bloqueio não é um vazio ou uma ausência, mas um conjunto de ações determinadas que se traduzem numa maneira determinada de lidar com a esfera da opinião: os mass media monopolizam a informação, e o consenso é confundido com a unanimidade, de sorte que a discordância é posta como ignorância ou atraso.
As disputas pela posse da terra cultivada ou cultivável são resolvidas pelas armas e pelos assassinatos clandestinos. As desigualdades econômicas atingem a proporção do genocídio. Os negros são considerados infantis, ignorantes, safados, indolentes, raça inferior e perigosa, tanto assim, que numa inscrição gravada até há pouco tempo na entrada da Escola de Polícia de São Paulo dizia: "Um negro parado é suspeito;correndo, é culpado". Os índios, em fase final de extermínio, são considerados irresponsáveis (isto é, incapazes de cidadania), preguiçosos (isto é, mal-adaptáveis ao mercado de trabalho capitalista), perigosos, devendo ser exterminados ou, então, "civilizados" (isto é, entregues à sanha do mercado de compra e venda de mão-de-obra, mas sem garantias trabalhistas porque "irresponsáveis"). Os trabalhadores rurais e urbanos são considerados ignorantes, atrasados e perigosos, estando a polícia autorizada a parar qualquer trabalhador nas ruas, exigir a carteira de trabalho e prendê-lo "para averiguação", caso não esteja carregando identificação profissional (se for negro, além de carteira de trabalho, a polícia está autorizada a examinar-lhe as mãos para verificar se apresentam "sinais de trabalho" e a prendê-lo caso não encontre os supostos "sinais"). Há casos de mulheres que recorrem à Justiça por espancamento ou estupro, e são violentadas nas delegacias de polícia, sendo ali novamente espancadas e estupradas pelas “forças da ordem". Isto para não falarmos da tortura, nas prisões, de homossexuais, prostitutas e pequenos criminosos. Numa palavra, as classes populares carregam os estigmas da suspeita, da culpa e da incriminação permanentes. Essa situação é ainda mais aterradora quando nos lembramos de que os instrumentos criados durante a ditadura (1964-1975) para repressão e tortura dos prisioneiros políticos foram transferidos para o tratamento diário da população trabalhadora e que impera uma ideologia segundo a qual a miséria é causa de violência, as classes ditas "desfavorecidas" sendo consideradas potencialmente violentas e criminosas.
É uma sociedade na qual a estrutura da terra e a implantação da agroindústria criaram não só o fenômeno da migração, mas figuras novas na paisagem dos campos: os sem-terra, volantes, bóias-frias, diaristas sem contrato de trabalho e sem as mínimas garantias trabalhistas. Bóias-frias porque sua única refeição - entre as três da manhã e as sete da noite - consta de uma ração de arroz, ovo e banana, já frios, pois preparados nas primeiras horas do dia. E nem sempre o trabalhador pode trazer a bóia-fria, e os que não trazem se escondem dos demais, no momento da refeição, humilhados e envergonhados.
É uma sociedade na qual a população das grandes cidades se divide entre um "centro" e uma "periferia", o termo periferia sendo usado não apenas no sentido espacial-geográfico, mas social, designando bairros afastados nos quais estão ausentes todos os serviços básicos (luz, água, esgoto, calçamento, transporte, escola, posto de atendimento médico). Condição, aliás, encontrada no "centro", isto é, nos bolsões de pobreza, os cortiços e as favelas. População cuja jornada de trabalho, incluindo o tempo gasto em transportes, dura de 14 a 15 horas, e, no caso das mulheres casadas, inclui o serviço doméstico e o cuidado com os filhos.
É uma sociedade que não pode tolerar a manifestação explícita das contradições, justamente porque leva as divisões e desigualdades sociais ao limite e não pode aceitá-las de volta, sequer através da rotinização dos "conflitos de interesses" (à maneira das democracias liberais). Pelo contrário, a classe dominante exorciza o horror às contradições produzindo uma ideologia da indivisão e da união nacionais, a qualquer preço. Por isso recusa perceber e trabalhar os conflitos e contradições sociais, econômicas e políticas enquanto tais, uma vez que conflitos e contradições negam a imagem mítica da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. Contradições e conflitos não são ignorados e sim recebem uma significação precisa: são considerados sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se oferece uma única resposta: a repressão policial e militar.
Nela vigora o fascínio pelos signos de prestígio e de poder, como se observa no uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível pertinência de sua atribuição, o caso mais corrente sendo o uso de "Doutor" quando, na relação social, o outro se sente ou é visto como superior ("doutor" é o substituto imaginário para os antigos títulos de nobreza);ou como se observa na importância dada à manutenção de criadagem doméstica, cujo número indica aumento de prestígio e de status, etc..
A desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos são consideradas normais. A existência dos sem-terra, dos sem-teto, dos desempregados é atribuída à ignorância, à preguiça e à incompetência dos "miseráveis". A existência de crianças de rua é vista como "tendência natural dos pobres à criminalidade". Os acidentes de trabalho são imputados à incompetência e ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham (se não forem professoras, enfermeiras ou assistentes sociais) são consideradas prostitutas em potencial e as prostitutas são tidas como degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a santidade da família.
A sociedade brasileira está polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e a consolidação da democracia.
4. Democracia: criação de direitos
De fato, uma sociedade é democrática quando institui algo profundo, que é condição do próprio regime político, ou seja, quando institui direitos. Essa instituição é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática realiza-se socialmente como luta social e, politicamente, como um contra-poder social que determina, dirige, controla, limita e modifica a ação estatal e o poder dos governantes. Fundada na noção de direitos, a democracia está apta a diferenciá-los de privilégios e carências.
Um privilégio é, por definição, algo particular que não pode generalizar-se nem universalizar-se sem deixar de ser privilégio. Uma carência é uma falta também particular ou específica que desemboca numa demanda também particular ou específica, não conseguindo generalizar-se nem universalizar-se. Um direito, ao contrário de carências e privilégios, não é particular e específico, mas geral e universal, seja porque é o mesmo e válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais, seja porque embora diferenciado é reconhecido por todos (como é caso dos chamados direitos das minorias).
Uma das práticas mais importantes da política democrática consiste justamente em propiciar ações capazes de unificar a dispersão e a particularidade das carências em interesses comuns e, graças a essa generalidade, fazê-las alcançar a esfera universal dos direitos. Em outras palavras, privilégios e carências determinam a desigualdade econômica, social e política, contrariando o princípio democrático da igualdade, de sorte que a passagem das carências dispersas em interesse comuns e destes aos direitos é a luta pela igualdade. Avaliamos o alcance da cidadania popular quando tem força para desfazer privilégios, seja porque os faz passar a interesses comuns, seja porque os faz perder a legitimidade diante dos direitos e também quando tem força para fazer carências passarem à condição de interesses comuns e, destes, a direitos universais.
É neste contexto que a práxis da ministra Matilde precisa ser percebida e compreendida. É inconcebível que seu papel na instituição da democracia no Brasil possa ser diminuído ou contestado seja lá por quem for e muito menos pelos agentes da violência institucionalizada neste país.
Marilena Chauí é filósofa e professora da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH)
Fonte: Site do Conversa Afiada - http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/470501-471000/470689/470689_1.html
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
TPM. Assim mesmo, bem clichê!
É inescapável. Um dia eu teria de escrever sobre isso: TPM. Puta que pariu!!! Não é para “causar” ou fazer firulas de retórica enchendo o texto de palavrões, mas é que esse momento de existir em algumas de nós mulheres tem conseqüências surreais.
Como que a contração de um órgãozinho desse naipe, em exercício saudável de sua existência, pode reverberar de maneira tão incisiva não somente em nosso corpo, como também em nosso sentimento de mundo?! Como diria a Sonia, cadê o botão de liga/desliga? E o inferno são os outros!
As pessoas respiram perto de mim. Que I-RRI-TAN-TE!!! AHAHAHAHAHAHA!!!
A desse mês está ainda pior: tudo me comove. A mãe que perdeu a filha de quatro anos assassinada, o mendigo da rua, a novela, o sol, o mar (ou a falta dele!), o cocô do cachorro, o respirar das pessoas...Ontem foi sem motivo mesmo!
O pior é que estou sem meu filho, sem dinheiro para sair a algum lugar que me faça esquecer isso e com trezentos textos da Berbel para a prova de sexta. Eureca! Devem ser aqueles textos que me fazem chorar...rsrsrs. Não são. Odeio dipirona!
Sabe o que é engraçado? É que durante o dia, exceto pelas cólicas e pela ansiedade, fica tudo bem. Quando chego ao meu apartamento, mesmo vazio, também continuo bem. Mas quando apago a luz para dormir, eis que a maldita TPM, igual ao monstro do armário dos temores de quando criança, sobe devagarzinho, pelos dedos dos pés, até alcançar o cangote. E em um arrepio de lembranças já geladas, o travesseiro fica molhado. Aí, como não tem dipirona que resolva dor de melancolia, fico lá, deitada, puta da vida pelas horas de sono desperdiçadas, a espera do fim da tempestade.
É estranho demais quando não entendemos tão descaradamente a nós mesmos. Dá um quê de sentimento de vulnerabilidade. Dá vontade de que tenha alguém ali, junto, para ficar acordado comigo também, compartilhando do meu emputecimento em traços de Alvarez de Azevedo (egoísta né? Eu sei!). Alguém de quem eu não tivesse vergonha de chorar em sua frente. Uma vontade do alguém impossível (já que só choro à vontade agarrada ao meu ursinho!). Alguém com paciência para ouvir a tristeza de minhas obviedades...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Esconde e mostra
Inicio esta conversinha comigo mesma neste desdiário – sim, porque se a idéia do diário é a de esconder confidências e aqui às revelo, não poderia ter outra denominação senão esta – a fim de, não como prometido ( a mim mesma!), rebater alguns pontos do texto anterior, mas desviar o nível da conversa e falar sobre coisas mais amenas...trivialidades.
Após um longo período de sapateamentos e chiliques dos mais diferentes espécimes, eis um momento anestésico em que o prazer e a ociosidade finalmente se fazem presentes (mesmo que rapidamente!) nesta vidinha de meu Deus. E assim, como em o diário íntimo de Laura, da Clarice Lispector, cantarei este monólogo em tom menor, com as notas de meus “sentimentozinhos”, de minhas “ideiazinhas”. Venho, digo, seguirei pela dinâmica sanguínea que só o álcool emprega às idéias dilatadas em prazer de perversão.
E foi após uma frustrada tentativa de passeio cultural a uma apresentação de Choro no CCBB, centro de São Paulo, que seguimos viajem rumo a, como diria um colega, taberna de Satanás. Fizemos pouso na Prainha Paulistana. Estávamos em quatro: três mulheres e um rapaz, um grupinho de amigos já consolidado da turma de lingüística.
Demos inicio a peleja e quando já encharcados por alguns gramas de álcool, observei que assim como nossos corpos, a conversa também ganhava leveza, proporcionalidade medida em quantidade e qualidade das risadas.
Havia alguns segredos. Alguns doces segredos...e a parcimônia empregou a estes guardados saberes a doçura de guloseimas ainda mais refinadas. Neste patamar da conversa foi percebi a realização de um jogo de esconde e mostra que naquele momento se colocava a mim de maneira evidente. Quando o nosso querer se contrapõe ao nosso dever de forma que se rompermos contrato com o segundo sejamos levianos consigo mesmos, então articulamos formas de satisfazer este querer de outras maneiras. Contextualizarei já que não quero que seja uma regra universal.
Em certo momento da conversa, queríamos, levados pelos efeitos cremosos dos blaks que tomamos, revelar acontecimentos, impressões, curiosidades, etc que não poderiam ser reveladas por qualquer motivo de origem aleatória. Ou por restrições de ordem moral, ou por envolver pessoas que não devessem ser envolvidas, ou por expor além da medida detalhes de nossa intimidade. Tudo se tornava ainda mais interessante, pelo caráter dos participantes da roda, quatro lingüistas: uma analista de discurso (quer dizer, futura, já que minha pós tem inicio apenas no meio deste ano), uma filósofa da linguagem, dois sintaxicistas. Aos poucos revelávamos muito (senão tudo) o que tínhamos vontade. Até porque, o próprio movimento de esconder já quer demonstrar alguma coisa. E todos ali sabíamos disso. E usávamos. E sabíamos que estávamos a usar.
Todas as vezes que quero convidar certo amigo a ir a minha casa, início um assunto qualquer, banal, por msn. Como ele é uma pessoa, como se diz popularmente, direta, acaba por desmascarar a minha empreitada. Quando dou inicio a conversa já sei que ele vai fazer isso. Sempre o faz. E ainda sim sempre levo a conversa do mesmo modo. E ele sabe que farei isso sempre e se diverte à custa da minha polidez extremada. E eu à custa da forma direta com que me revela.
O mecanismo inverso, embora semelhante, era operado por nós naquela mesa de bar. Um strepptease conversacional.
E quem sabe, um strepptease como o que talvez esteja sendo realizado agora...