sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Comercializando fantasias: a representação social da prostituição, dilemas da profissão e a construção da cidadania

http://www.scielo.br/pdf/ref/v13n3/a04v13n3.pdf
O presente artigo discute fatos, percepções e representações sociais do cotidiano das mulheres profissionais do sexo (MPS). Foram avaliados oito projetos de intervenção educativa sobre DST/Aids dirigidos a MPS, em cidades das regiões Sul, Nordeste e Sudeste. Foram realizadas entrevistas em profundidade e grupos focais. Os resultados revelaram que a representação da
mulher que vende o corpo vem sendo re-significada para a realização de fantasias eróticas. As perspectivas de maior autonomia da profissão contrastam com a discriminação e a pressão psicológica. Foi mencionada a violência, praticada por clientes e policiais. Foram evidentes a importância do preservativo na negociação dos programas e o não-uso do mesmo em relações
com envolvimento afetivo ou devido à concorrência. Conclui-se, sob a ótica da autonomia, que classe social, escolaridade, situação de crise econômica e estigma ocasionam discriminação, violência e risco de contágio de DST e HIV.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Imitação da Rosa. Do livro, Laços de família.

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Clarice Lispector
A Imitação da Rosa.


Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
Mas agora que ela estava de novo "bem", tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Ar¬mando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade — e vendo enfim Armando esquecido da própria mulher. E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando. As pessoas felizmente ajudavam a fazê-la sentir que agora estava "bem". Sem a fitarem, ajudavam-na ativamente a esquecer, fingindo elas próprias o esqueci¬mento como se tivessem lido a mesma bula do mesmo vidro de remédio. Ou tinham esquecido realmente, quem sabe. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com abandono, esquecido dela? E ela mesma?
Interrompendo a arrumação da penteadeira, Laura olhou-se ao espelho: e ela mesma, há quanto tempo? Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher. Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?
Com seu gosto minucioso pelo método — o mesmo que a fazia quando aluna copiar com letra perfeita os pon¬tos da aula sem compreendê-los — com seu gosto pelo mé¬todo, agora reassumido, planejava arrumar a casa antes que a empregada saísse de folga para que, uma vez Maria na rua, ela não precisasse fazer mais nada, senão 1º) calma¬mente vestir-se; 2º) esperar Armando já pronta; 3º) o ter¬ceiro o que era? Pois é. Era isso mesmo o que faria. E poria o vestido marrom com gola de renda creme. Com seu banho tomado. Já no tempo do Sacré Coeur ela fora arrumada e limpa, com um gosto pela higiene pessoal e um certo horror à confusão. O que não fizera nunca com que Carlota, já naquele tempo um pouco original, a admirasse. A reação das duas sempre fora diferente. Carlota ambiciosa e rindo com força: ela, Laura, um pouco lenta, e por assim dizer cuidando em se manter sempre lenta; Carlota não vendo perigo em nada. E ela cuidadosa. Quando lhe haviam dado para ler a "Imitação de Cristo", com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido — perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação. E Carlota nem ao menos quisera ler, mentira para a freira dizendo que tinha lido. Pois é. Poria o vestido marrom com gola de renda verdadeira.
Mas quando viu as horas lembrou-se, num sobressalto que a fez levar a mão ao peito, que se esquecera de tomar o copo de leite.
Encaminhou-se para a cozinha e, como se tivesse culposamente traído com seu descuido Armando e os amigos devotados, ainda junto da geladeira bebeu os primeiros goles com um devagar ansioso, concentrando-se em cada gole com fé como se estivesse indenizando a todos e se peniten¬ciando. Se o médico dissera: "Tome leite entre as refeições, nunca fique com o estômago vazio pois isso dá ansiedade" — então, mesmo sem ameaça de ansiedade, ela tomava sem discutir gole por gole, dia após dia, não falhara nunca, obe¬decendo de olhos fechados, com um ligeiro ardor para que não pudesse enxergar em si a menor incredulidade. O em¬baraçante é que o médico parecia contradizer-se quando, ao mesmo tempo que recomendava uma ordem precisa que ela queria seguir com o zelo de uma convertida, dissera tam¬bém: "Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir — esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade". E lhe dera uma palmada nas costas, o que a lisonjeara e a fizera corar de prazer. Mas na sua humilde opinião uma ordem parecia anular a outra, como se lhe pedissem para comer farinha e assobiar ao mes¬mo tempo. Para fundi-las numa só ela passara a usar um engenho: aquele copo de leite que terminara por ganhar um secreto poder, que tinha dentro de cada gole quase o gosto de uma palavra e renovava a forte palmada nas cos¬tas, aquele copo de leite ela o levava à sala, onde se sentava "com muita naturalidade", fingindo falta de interesse, "não se esforçando" — e assim cumprindo espertamente a se¬gunda ordem. "Não tem importância que eu engorde", pen¬sou, o principal nunca fora a beleza.
Sentou-se no sofá como se fosse uma visita na sua pró¬pria casa que, tão recentemente recuperada, arrumada e fria, lembrava a tranqüilidade de uma casa alheia. O que era tão satisfatório: ao contrário de Carlota, que fizera de seu lar algo parecido com ela própria, Laura tinha tal prazer em fazer de sua casa uma coisa impessoal; de certo modo per¬feita por ser impessoal.
Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorriu ela satisfeita. Segurando o copo quase vazio, fechou os olhos com um suspiro de cansaço bom. Passara a ferro as camisas de Armando, fizera listas metódicas para o dia seguinte, calculara minuciosamente o que gastara de manhã na feira, não parara na verdade um instante sequer. Oh como era bom estar de novo cansada.
Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.
E ela retornara enfim da perfeição do planeta Marte. Ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um ho¬mem, reencontrava grata sua parte diariamente falível. De olhos fechados suspirou reconhecida. Há quanto tempo não se cansava? Mas agora sentia-se todos os dias quase exausta e passara, por exemplo, as camisas de Armando, sempre gostara de passar a ferro e, sem modéstia, era uma passadeira de mão cheia. E depois ficava exausta como uma recom¬pensa. Não mais aquela falta alerta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir — nem de dia nem de noite — que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo. Ele, com aquele hálito que tinha quando estava mudo de preocupação, o que dava a ela uma piedade pun¬gente, sim, mesmo dentro de sua perfeição acordada, a pie¬dade e o amor, ela super-humana e tranqüila no seu isola¬mento brilhante, e ele, quando tímido, vinha visitá-la levan¬do maçãs e uvas que a enfermeira com um levantar de ombros comia, ele fazendo visita de cerimônia como um namorado, com o hálito infeliz e um sorriso fixo, esforçan¬do-se no seu heroísmo por compreender, ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranqüilo se empluma nas águas, se tornara super-humana. Agora, nada mais disso. Nunca mais. Oh, fora apenas uma fraqueza; o gênio era a pior tentação. Mas depois ela voltara tão completamente que até já começava de novo a precisar de tomar cuidado para não amolar os outros com seu velho gosto pelo detalhe. Ela bem se lembrava das cole¬gas do Sacré Coeur lhe dizendo: "Você já contou isso mil vezes!", ela se lembrava com um sorriso constrangido. Vol¬tara tão completamente: agora todos os dias ela se cansava, todos os dias seu rosto decaía ao entardecer, e a noite então tinha a sua antiga finalidade, não era apenas a perfeita noite estrelada. E tudo se completava harmonioso. E, como para todo o mundo, cada dia a fatigava; como todo o mundo, humana e perecível. Não mais aquela perfeição, não mais aquela juventude. Não mais aquela coisa que um dia se alas¬trara clara, como um câncer, a sua alma.
Abriu os olhos pesados de sono, sentindo o bom copo sólido nas mãos, mas fechou-os de novo com um sorriso confortável de cansaço, banhando-se como um novo-rico em todas as suas partículas, nessa água familiar e ligeira¬mente enjoativa. Sim, ligeiramente enjoativa; que impor¬tância tinha, pois se também ela era um pouco enjoativa, bem sabia. Mas o marido não achava, e então que impor¬tância tinha, pois se graças a Deus ela não vivia num am¬biente que exigisse que ela fosse mais arguta e interessante, e até do ginásio, que tão embaraçosamente exigira que ela fosse alerta, ela se livrara. Que importância tinha. No cansa¬ço — passara as camisas de Armando, sem contar que fora de manhã à feira e demorara tanto lá, com aquele gosto que tinha em fazer as coisas renderem — no cansaço havia um lugar bom para ela, o lugar discreto e apagado de onde, com tanto constrangimento para si e para os outros, saíra uma vez. Mas como ia dizendo, graças a Deus, voltara.
E se procurasse com mais crença e amor, encontra¬ria dentro do cansaço aquele lugar ainda melhor que seria o sono. Suspirou com prazer, por um momento de traves-sura maliciosa tentada a ir de encontro ao hálito morno que era sua respiração já sonolenta, por um instante tenta¬da a cochilar. "Um instante só, só um instantezinho!", pe¬diu-se lisonjeada por ter tanto sono, pedia cheia de manha, como se pedisse a um homem, o que sempre agradara muito Armando.
Mas não tinha verdadeiramente tempo de dormir agora, nem sequer de tirar um cochilo — pensou vaidosa e com falsa modéstia, ela era uma pessoa tão ocupada! sempre invejara as pessoas que diziam "não tive tempo" e agora ela era de novo uma pessoa tão ocupada: iam jantar com Carlota e tudo tinha que estar ordeiramente pronto, era o pri¬meiro jantar fora desde que voltara e ela não queria chegar atrasada, tinha que estar pronta quando... bem, eu já disse isso mil vezes, pensou encabulada. Bastaria dizer uma só vez: "não queria chegar atrasada" — pois isso era motivo suficiente: se nunca suportara sem enorme vexame ser um transtorno para alguém, agora então, mais que nunca, não deveria... Não, não havia a menor dúvida: não tinha tempo de dormir. O que devia fazer, mexendo-se com familiarida¬de naquela íntima riqueza da rotina — e magoava-a que Carlota desprezasse seu gosto pela rotina — o que devia fazer era 1º) esperar que a empregada estivesse pronta; 2º) dar-lhe o dinheiro para ela já trazer a carne de manhã, chã-de-dentro; como explicar que a dificuldade de achar carne boa era até um assunto bom, mas se Carlota soubesse a desprezaria; 3º) começar minuciosamente a se lavar e a se vestir, entregando-se sem reserva ao prazer de fazer o tempo render. O vestido marrom combinava com seus olhos e a golinha de renda creme dava-lhe alguma coisa de infantil, como um menino antigo. E, de volta à paz noturna da Tijuca — não mais aquela luz cega das enfermeiras penteadas e alegres saindo para as folgas depois de tê-la lançado como a uma galinha indefesa no abismo da insulina —, de volta à paz noturna da Tijuca, de volta à sua verdadeira vida: ela iria de braço dado com Armando, andando devagar para o ponto do ônibus, com aquelas coxas baixas e grossas que a cinta empacotava numa só fazendo dela uma "senhora dis¬tinta"; mas quando, sem jeito, ela dizia a Armando que isso vinha de insuficiência ovariana, ele, que se sentia lisonjeado com as coxas de sua mulher, respondia com muita audá¬cia: "De que me adiantava casar com uma bailarina?", era isso o que ele respondia. Ninguém diria, mas Armando po¬dia ser às vezes muito malicioso, ninguém diria. De vez em quando eles diziam a mesma coisa. Ela explicava que era por causa de insuficiência ovariana. Então ele falava assim: "De que é que me adiantava ser casado com uma bailarina?" Às vezes ele era muito sem-vergonha, ninguém diria. Car¬lota ficaria espantada se soubesse que eles também tinham vida íntima e coisas a não contar, mas ela não contaria, era uma pena não poder contar, Carlota na certa pensava que ela era apenas ordeira e comum e um pouco chata, e se ela era obrigada a tomar cuidado para não importunar os outros com detalhes, com Armando ela às vezes relaxava e era cha¬tinha, o que não tinha importância porque ele fingia que ouvia mas não ouvia tudo o que ela lhe contava, o que não a magoava, ela compreendia perfeitamente bem que suas conversas cansavam um pouquinho uma pessoa, mas era bom poder lhe contar que não encontrara carne mesmo que Armando balançasse a cabeça e não ouvisse, a empre¬gada e ela conversavam muito, na verdade mais ela mesma que a empregada, e ela também tomava cuidado para não cacetear a empregada que às vezes continha a impaciência e ficava um pouco malcriada, a culpa era mesmo sua porque nem sempre ela se fazia respeitar.
Mas, como ela ia dizendo, de braço dado, baixinha e ele alto e magro, mas ele tinha saúde graças a Deus, e ela castanha. Ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser. Ter cabelos pretos ou louros eram um ex¬cesso que, na sua vontade de acertar, ela nunca ambicionara. Então, em matéria de olhos verdes, parecia-lhe que se tivesse olhos verdes seria como se não dissesse tudo a seu marido. Não é que Carlota desse propriamente o que falar, mas ela, Laura — que se tivesse oportunidade a defenderia ardente¬mente, mas nunca tivera a oportunidade — ela, Laura, era obrigada a contragosto a concordar que a amiga tinha um modo esquisito e engraçado de tratar o marido, oh não por ser "de igual para igual", pois isso agora se usava, mas você sabe o que quero dizer. E Carlota era até um pouco original, isso até ela já comentara uma vez com Armando e Armando concordara mas não dera muita importância. Mas, como ela ia dizendo, de marrom com a golinha... — o devaneio enchia-a com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas, chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo.
Abriu os olhos, e como se fosse a sala que tivesse tira¬do um cochilo e não ela, a sala parecia renovada e repousada com suas poltronas escovadas e as cortinas que haviam enco¬lhido na última lavagem, com calças curtas demais e a pessoa olhando cômica para as próprias pernas. Oh como era bom rever tudo arrumado e sem poeira, tudo limpo pelas suas próprias mãos destras, e tão silencioso, e com um jarro de flores, como uma sala de espera. Sempre achara lindo uma sala de espera, tão respeitoso, tão impessoal. Como era rica a vida comum, ela que enfim voltara da extravagância. Até um jarro de flores. Olhou-o.
— Ah como são lindas, exclamou seu coração de repen¬te um pouco infantil. Eram miúdas rosas silvestres que ela comprara de manhã na feira, em parte porque o homem insistira tanto, em parte por ousadia. Arrumara-as no jarro de manhã mesmo, enquanto tomava o sagrado copo de leite das dez horas.
Mas à luz desta sala as rosas estavam em toda a sua completa e tranqüila beleza.Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade. E como se não tivesse acabado de pensar exatamente isso, vagamente consciente de que acabara de pensar exatamente isso e passando rápida por cima do embaraço em se reco¬nhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa: "sinceramente, nunca vi rosas tão bonitas". Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obri¬gada a interromper-se com a mesma exclamação de curio¬sidade submissa: como são lindas.
Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez umas sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranqüilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais! disse em surpresa. Poderiam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente aber¬tas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em botão, a cor se concentrava e, como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro delas. Como são lindas, pensou Laura surpreendida.
Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava.
Ouviu os passos da empregada no ladrilho da cozinha e pelo som oco reconheceu que ela estava de salto alto; devia pois estar pronta para sair. Então Laura teve uma idéia de certo modo muito original: por que não pedir a Maria para passar por Carlota e deixar-lhe as rosas de presente?
E também porque aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco. Oh, não, por que risco? apenas incomodava, eram uma advertência, oh não, por que adver¬tência? Maria daria as rosas a Carlota.
— D. Laura mandou, diria Maria.
Sorriu pensativa: Carlota estranharia que Laura, poden¬do trazer pessoalmente as rosas, já que desejava presenteá-las, mandasse-as antes do jantar pela empregada. Sem falar que acharia engraçado receber as rosas, acharia "refinado"...
— Essas coisas não são necessárias entre nós, Laura! diria a outra com aquela franqueza um pouco bruta, e Laura diria num abafado grito de arrebatamento:
— Oh não! não! não é por causa do convite para jantar! é que as rosas eram tão lindas que tive o impulso de dar a você!
Sim, se na hora desse jeito e ela tivesse coragem, era assim mesmo que diria. Como é mesmo que diria? precisava não esquecer: diria — Oh não! etc. E Carlota se surpreen¬deria com a delicadeza de sentimentos de Laura, ninguém imaginaria que Laura tivesse também suas ideiazinhas. Nesta cena imaginária e aprazível que a fazia sorrir beata, ela cha¬mava a si mesma de "Laura", como a uma terceira pessoa. Uma terceira pessoa cheia daquela fé suave e crepitante e grata e tranqüila, Laura, a da golinha de renda verdadeira, vestida com discrição, esposa de Armando, enfim um Ar¬mando que não precisava mais se forçar a prestar atenção em todas as suas conversas sobre empregada e carne, que não precisava mais pensar na sua mulher, como um homem que é feliz, como um homem que não é casado com uma bailarina.
— Não pude deixar de lhe mandar as rosas, diria Laura, essa terceira pessoa tão, mas tão... E dar as rosas era quase tão bonito como as próprias rosas.
E mesmo ela ficaria livre delas.E o que é mesmo que aconteceria então? Ah, sim: como ia dizendo, Carlota surpreendida com aquela Laura que não era inteligente nem boa mas que tinha também seus senti¬mentos secretos. E Armando? Armando a olharia com um pouco de bom espanto — pois é essencial não esquecer que de forma alguma ele está sabendo que a empregada levou de tarde as rosas! — Armando encararia com bene¬volência os impulsos de sua pequena mulher, e de noite eles dormiriam juntos.
E ela teria esquecido as rosas e a sua beleza.
Não, pensou de súbito vagamente avisada. Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era pre¬ciso nunca mais dar motivo para espanto, ainda mais com tudo ainda tão recente. E sobretudo poupar a todos o mí¬nimo sofrimento da dúvida. E que não houvesse nunca mais necessidade da atenção dos outros — nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a todos. Nada de impulsos.
Mas ao mesmo tempo viu o copo vazio na mão e pen¬sou também: "ele" disse que eu não me esforce por conse¬guir, que não pense em tomar atitudes apenas para provar que já estou...
— Maria, disse então ao ouvir de novo os passos da em¬pregada. E quando esta se aproximou, disse-lhe temerária e desafiadora: você poderia passar pela casa de d. Carlota e deixar estas rosas para ela? Você diz assim: "D. Carlota, d. Laura mandou". Você diz assim: "D. Carlota..."
— Sei, sei, disse a empregada paciente.
Laura foi buscar uma velha folha de papel de seda. Depois tirou com cuidado as rosas do jarro, tão lindas e tranqüilas, com os delicados e mortais espinhos. Queria fazer um ramo bem artístico. E ao mesmo tempo se livra-ria delas. E poderia se vestir e continuar seu dia. Quando reuniu as rosinhas úmidas em buquê, afastou a mão que as segurava, olhou-as a distância, entortando a cabeça e entrefechando os olhos para um julgamento imparcial e severo.
E quando olhou-as, viu as rosas.
E então, incoercível, suave, ela insinuou em si mesma: não dê as rosas, elas são lindas.
Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamen¬to ficou levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela.
Mas estas rosas eram. Rosadas, pequenas, perfeitas: eram. Olhou-as com incredulidade: eram lindas e eram suas. Se conseguisse pensar mais adiante, pensaria: suas como nada até agora tinha sido.
E mesmo podia ficar com elas pois já passara aquele primeiro desconforto que fizera com que vagamente ela tivesse evitado olhar demais as rosas.
Por que dá-las, então? lindas e dá-las? Pois quando você descobre uma coisa boa, então você vai e dá? Pois se eram suas, insinuava-se ela persuasiva sem encontrar outro argu¬mento além do mesmo que, repetido, lhe parecia cada vez mais convincente e simples. Não iam durar muito — por que então dá-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las não significava grande risco — enganou-se ela — pois, quisesse ou não quisesse, em breve seria forçada a se privar delas, e nunca mais então pensaria nelas pois elas teriam morrido — elas não iam durar muito, por que então dá-las? O fato de não durarem muito parecia tirar-lhe a culpa de ficar com elas, numa obscura lógica de mulher que peca. Pois via-se que iam durar pouco (ia ser rápido, sem perigo).E mesmo — argumentou numa última e vitoriosa rejeição de culpa — não fora de modo algum ela quem quisera com¬prar, o vendedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida quando a constrangiam, não fora ela quem quisera comprar, ela não tinha culpa nenhuma. Olhou-as com en¬levo, pensativa, profunda.
E, sinceramente, nunca vi na minha vida coisa mais perfeita.
Bem, mas agora ela já falara com Maria e não teria jeito de voltar atrás. Seria então tarde demais? assustou-se vendo as rosinhas que aguardavam impassíveis na sua própria mão. Se quisesse, não seria tarde demais... Poderia dizer a Maria: "ô Maria, resolvi que eu mesma levo as rosas quando for jantar!" E, é claro, não as levaria... E Maria nunca precisaria saber. E, antes de mudar de roupa, ela se sentaria no sofá por um instante, só por um instante, para olhá-las. E olhar aquela tranqüila isenção das rosas. Sim, porque, já tendo feito a coisa, mas valia aproveitar, não seria boba de ficar com a fama sem o proveito. Era isso mesmo o que faria.
Mas com as rosas desembrulhadas na mão ela esperava. Não as depunha no jarro, não chamava Maria. Ela sabia por quê. Porque devia dá-las. Oh ela sabia por quê.
E também porque uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter. E, sobretudo, nunca para se "ser". Sobretudo nunca se deveria ser a coisa bonita. A uma coisa bonita faltava o gesto de dar. Nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim, como que guardada dentro do silêncio perfeito do coração. (Embora, se ela não desse as rosas, nunca ninguém no mundo ia saber que ela pretendera dá-las, quem iria jamais descobrir? era horrivel¬mente fácil e ao alcance da mão ficar com elas, pois quem iria descobrir? e elas seriam suas, e as coisas ficariam por isso mesmo e não se fala mais nisso...)
Então? e então? indagou-se vagamente inquieta.
Então, não. O que devia fazer era embrulhá-las e man¬dá-las, sem nenhum prazer agora; embrulhá-las e, decep¬cionada, mandá-las; e espantada ficar livre delas. Também porque uma pessoa tinha que ter coerência, seus pensamen¬tos deviam ter congruência: se espontaneamente resolvera cedê-las a Carlota, deveria manter a resolução e dá-las. Pois ninguém mudava de idéia de um momento para outro.
Mas qualquer pessoa pode se arrepender! revoltou-se de súbito. Pois se só no momento de pegar as rosas é que notei quanto as achava lindas, pela primeira vez na verda¬de, ao pegá-las, notara que eram lindas. Ou um pouco antes? (E mesmo elas eram suas). E mesmo o próprio mé¬dico lhe dera a palmada nas costas e dissera: "não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem", e depois a palmada forte nas costas. Assim, pois, ela não era obrigada a ter coerência, não tinha que provar nada a ninguém e ficaria com as rosas. (E mesmo — e mesmo elas eram suas).
— Estão prontas? perguntou Maria.
— Estão, disse Laura surpreendida.
Olhou-as, tão mudas na sua mão. Impessoais na sua extrema beleza. Na sua extrema tranqüilidade perfeita de rosas. Aquela última instância: a flor. Aquele último aper¬feiçoamento: a luminosa tranqüilidade.
Como uma viciada, ela olhava ligeiramente ávida a perfeição tentadora das rosas, com a boca um pouco seca olhava-as.
Até que, devagar, austera, enrolou os talos e espinhos no papel de seda. Tão absorta estivera que só ao estender o ramo pronto notou que Maria não estava mais na sala — e ficou sozinha com seu heróico sacrifício. Vagamente dolo¬rosa, olhou-as, assim distantes como estavam na ponta do braço estendido — e a boca ficou ainda mais enxuta, aquela inveja, aquele desejo. Mas elas são minhas, disse com enor¬me timidez.
Quando Maria voltou e pegou o ramo, por um míni¬mo instante de avareza Laura encolheu a mão retendo as rosas um segundo mais consigo — elas são lindas e são minhas, é a primeira coisa linda e minha! e foi o homem que insistiu, não fui eu que procurei! foi o destino quem quis! oh só dessa vez! só essa vez e juro que nunca mais! (Ela poderia pelo menos tirar para si uma rosa, nada mais que isso: uma rosa para si. E só ela saberia, e depois nunca mais oh, ela se prometia que nunca mais se deixaria tentar pela perfeição, nunca mais!)
E no segundo seguinte, sem nenhuma transição, sem nenhum obstáculo — as rosas estavam na mão da empre¬gada, não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no correio! não se pode mais recuperar nem riscar os dizeres! não adianta gritar: não foi isso o que quis dizer! Ficou com as mãos vazias mas seu coração obstinado e rancoroso ainda dizia: "você pode pegar Maria nas escadas, você bem sabe que pode, e tirar as rosas de sua mão e roubá-las". Por que tirá-las agora seria roubar. Roubar o que era seu? Pois era assim que uma pessoa que não tivesse nenhuma pena dos outros faria: roubaria o que era seu por direito! Oh, tem piedade, meu Deus. Você pode recuperar tudo, insistia com cólera. E então a porta da rua bateu.
Então a porta da rua bateu.
Então devagar ela se sentou calma no sofá. Sem apoiar as costas. Só para descansar. Não, não estava zangada, oh nem um pouco. Mas o ponto ofendido no fundo dos olhos estava maior e pensativo. Olhou o jarro. "Cadê minhas rosas", disse então muito sossegada.
E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objeto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar nin¬guém no mundo, faltava. Como uma falta maior.
Na verdade, como a falta. Uma ausência que entrava nela como uma claridade. E também ao redor da marca das rosas a poeira ia desaparecendo. O centro da fadiga se abria em círculo que se alargava. Como se ela não tivesse passado nenhuma camisa de Armando. E na clareira as rosas faziam falta. "Cadê minhas rosas", queixou-se sem dor alisando as preguinhas da saia.
Como se pinga limão no chá escuro e o chá escuro vai se clareando todo. Seu cansaço ia gradativamente se cla¬reando. Sem cansaço nenhum, aliás. Assim como o vaga-lume acende. Já que não estava mais cansada, ia então se levantar e se vestir. Estava na hora de começar.
Mas, com os lábios secos, procurou um instante imi¬tar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil.
Até bom que não estava cansada. Assim iria até mais fresca para o jantar. Por que não pôr na golinha de renda verdadeira o camafeu? que o major trouxera da guerra na Itália. Arremataria bem o decote. Quando estivesse pronta ouviria o barulho da chave de Armando na porta. Precisa¬va se vestir. Mas ainda era cedo. Com a dificuldade de con¬dução ele demorava. Ainda era de tarde. Uma tarde muito bonita.Aliás já não era mais de tarde.
Era de noite. Da rua subiam os primeiros ruídos da escuridão e as primeiras luzes.
Aliás a chave penetrou com familiaridade no buraco da fechadura.
Armando abriria a porta. Apertaria o botão de luz. E de súbito no enquadramento da porta se desnudaria aquele rosto expectante que ele procurava disfarçar mas não podia conter. Depois sua respiração suspensa se transformaria enfim num sorriso de grande desopressão. Aquele sorriso embaraçado de alívio que ele nunca suspeitara que ela per¬cebia. Aquele alívio que provavelmente, com uma palmada nas costas, tinham aconselhado seu pobre marido a ocul¬tar. Mas que, para o coração tão cheio de culpa da mulher, tinha sido cada dia a recompensa por ter enfim dado de novo àquele homem a alegria possível e a paz, sagradas pela mão de um padre austero que permitia aos seres apenas a alegria humilde e não a imitação de Cristo.
A chave virou na fechadura, o vulto escuro e precipi¬tado entrou, a luz inundou violenta a sala.
E na porta mesmo ele estacou com aquele ar ofegante e de súbito paralisado como se tivesse corrido léguas para não chegar tarde demais. Ela ia sorrir. Para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de ter chegado a tem¬po de encontrá-la chatinha, boa e diligente, e mulher sua. Ela ia sorrir para que de novo ele soubesse que nunca mais haveria o perigo dele chegar tarde demais. Ia sorrir para ensinar-lhe docemente a confiar nela. Fora inútil recomen¬darem-lhes que nunca falassem no assunto: eles não fala¬vam mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e respostas e telegrafavam mudas. Ela ia sorrir. Estava demorando um pouco porém, ia sorrir.
Calma e suave, ela disse:
— Voltou, Armando. Voltou.
Como se nunca fosse entender, ele enviesou um rosto sorridente, desconfiado. Seu principal trabalho no momento era procurar reter o fôlego ofegante da corrida pelas esca¬das, já que triunfantemente não chegara atrasado, já que ela estava ali a sorrir-lhe. Como se nunca fosse entender.
— Voltou o quê, perguntou afinal num tom inex¬pressivo.
Mas, enquanto procurava não entender jamais, o ros¬to cada vez mais suspenso do homem já entendera, sem que um traço se tivesse alterado. Seu trabalho principal era ganhar tempo e se concentrar em reter a respiração. O que de repente já não era mais difícil. Pois inesperadamente ele percebia com horror que a sala e a mulher estavam cal¬mas e sem pressa. Mais desconfiado ainda, como quem fosse terminar enfim por dar uma gargalhada ao constatar o absurdo, ele no entanto teimava em manter o rosto envie¬sado, de onde a olhava em guarda, quase seu inimigo. E de onde começava a não poder se impedir de vê-la sentada com mãos cruzadas no colo, com a serenidade do vaga-lume que tem luz.
No olhar castanho e inocente o embaraço vaidoso de não ter podido resistir.
— Voltou o quê, disse ele de repente com dureza.
— Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava na sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir, repetiu entregando-lhe com alívio a piedade que ela com esforço conseguira guardar até que ele chegasse. Foi por causa das rosas, disse com modéstia.
Como se fosse para tirar o retrato daquele instante, ele manteve ainda o mesmo rosto isento, como se o fotógrafo lhe pedisse apenas um rosto e não a alma. Abriu a boca e involuntariamente a cara tomou por um instante a expres¬são de desprendimento cômico que ele usara para esconder o vexame quando pedira aumento ao chefe. No instante seguinte, desviou os olhos com vergonha pelo despudor de sua mulher que, desabrochada e serena, ali estava.
Mas de súbito a tensão caiu. Seus ombros se abaixa¬ram, os traços do rosto cederam e uma grande pesadez rela¬xou-o. Ele a olhou envelhecido, curioso.
Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Enve¬lhecido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer. Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranqüila como num trem. Que já partira.

Fonte: http://claricelispector.blogspot.com/2008/07/imitao-da-rosa.html

Arte: A mulher e as rosas, do artista Marc Chagall, 1929.
Fonte da obra: http://borboletapequeninanasuecia.blogspot.com/2007_12_01_archive.html

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Lugar comum

http://locusdelokos.blogspot.com/
As mesmas pessoas, falando as mesmas coisas, a partir do mesmo lugar para mudar tudo deixando tudo como está.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

[...]toda crítica de arte deve ser uma obra de arte...

Rating:★★★★★
Category:Other
Por Márcia Tiburi

Fui ver Para Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã de Pina Bausch. Os porto-alegrenses tiveram a mesma oportunidade no Porto Alegre em Cena há poucos dias. Assisti também Dínamo de Deborah Colker.

Por que escrever sobre o espetáculo de Bausch e Colker e não sobre artes plásticas? Para dar uma respirada, ora, qualquer um pode alegar. Depois a gente conversa sobre estas separações que levam apenas ao bem das disciplinas. Quem sabe um dia seja possível parar de usar o disciplinar – nome do controle - em nome da anarquia do pensamento. Anarquia pode ser algo bom, sobretudo quando se opõe à disciplina que nos enrijece e emudece os especialistas entre si. O especialista é alguém que se afoga solitário no seu conhecimento. Uma mãozinha viria bem.

O que me faz escrever não é a necessidade de uma exegese das artes (mais chatas – chatice é, às vezes, uma bem-vinda categoria filosófica - do que análises hiper especializadas são as nada-especializadas e, infelizmente, eu não sou especialista no assunto) que alguns sabem fazer muito bem (ainda precisamos de mais críticos neste país colonizado), mas a urgência do testemunho sobre a beleza das coisas. Aquilo que Walter Benjamin escreveu em seu texto sobre O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão e que é algo que ainda pode ser bem aceito: toda crítica de arte deve ser uma obra de arte (teoria como poesia sobre o poético que compõe a obra de arte?). Hoje me toca mais o que é belo (não digo bonito porque lembro de filósofos antigos fazendo a diferença entre o belo inaplicado e verdadeiro e o aplicado ou útil) do que o que é conceitual porque o que tem coragem de ser bonito nas artes em dias como os de hoje já passou pelo conceitual, já se elaborou e reelaborou. O que é útil é útil; outra conversa. O que é belo parece ter consciência (um saber representado na obra ou na pessoa) de seu fim, de que algo nele já passou e se encaminha para outras veredas. O belo nas coisas é uma certa consciência da passagem, um vislumbre dos limites e de que é possível encontrar verdades dentro deles. Como isso se representa nas coisas: quando elas rompem com a seriedade.

Além de belos (sim...) os espetáculos das coreógrafas são divertidos. Bons para rir, bons para alegrar os olhos. Colker é a alegria revolucionária do corpo em todas as suas mobilidades possíveis e os riscos desta mobilidade. Virtuosismo e coragem, habilidade e liberdade dão de sobra no seu cenário. A obra de Colker é incontestável até aqui. Tomara que, se ela realmente for ao Cirque du Soleil, possa embutir arte na pasteurização para a qual o circo se encaminha. De qualquer forma que a alegria seja permitida, possível, fomentada, é algo que todos devíamos aplaudir.

O espetáculo de Bausch é, além disso, gracioso. Há uma cena lembrada por minha filha de 9 anos que gostou muito das 3 horas diante dos bailarinos e suas peripécias: uma bailarina com os braços para trás finge usar os braços musculosos de outro bailarino que se oculta atrás de seu corpo. O efeito é o de uma mocinha de vestido vermelho com braços enormes se movimentando como em exibições de fisiculturismo. Ela se encarrega das caras e bocas. A platéia ri.

Talvez Bausch tenha conseguido mostrar o que é realmente infantil. Um espetáculo bem europeu, de uma Europa que já sente saudade de si, do que nela ainda há de diferente no resto do mundo: alegria, leveza, ludicidade. Confio que Bausch não quisesse mostrar a miséria e a fome de nossas crianças de hoje, ontem e amanhã porque espera que tenham melhor sorte.

Um riso bom, um riso sobre o muito bonito. Daqueles que lembram as trapalhadas das crianças. Riso que só os palhaços espertos sabem produzir. Um riso sobre as coisas que são delicadamente engraçadas e que, não sendo engraçadas, seriam ainda bem bonitas. Isentos de pornografia ou apelos aos sentidos. Não lembro da última vez que ri diante de algo que me fizesse rir por sua beleza, por sua delicadeza ou sofisticação. Raros são os que compreendem o riso como alegria, e esta como algo “elevado”. Elevado, entenda-se aqui como a depuração do simples (por favor, não confundam com a velha querela rançosa entre baixa e alta cultura, cultura de elite e de massa, indústria cultural). O riso, infelizmente, está cercado pelo humor da baixaria que é certamente um mau-humor. Mas nossa cultura não se dá conta disso.

A conquista da alegria é a maior que podemos ter em termos estéticos. A alegria é o grau máximo da beleza. O que é a beleza, entretanto, há que se responder ainda. Por enquanto só intuições nos fazem pensar.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Artista da Imagem: Maurits Cornelis ESCHE

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Magnólia (Trecho)

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Marcia Tiburi
Madrugada

Desossar horas entre dedos

Fato 1. Duas gavetas fechadas. Não sei o que fazer com elas. Vou esperar as lembranças que vêm quando paramos no tempo.
Fato 1.1. Mapas. Um relógio de ponteiros parados. A chaleira de esmalte lascada no canto. Fotografias das bicicletas. Uma bicicleta. Tudo o que não foi usado está guardado no porão. Não há porão, só o espaço oco antes ocupado por minha memória. As gavetas.
Fato 1.2. O oco ocupa um vasto espaço.
Fato 1.3. Dentro do oco voam muitos pássaros e outros bichos de asas em meio à vertigem tormentosa dos objetos.
Fato 1.4. O gato está entre eles.
Fato 1.5. Magnólia ao lado do gato.
Fato 1.6. E manchas.

Escuridão

Tudo não passa de imaginação. Então é preciso saber o que se pode fazer com o mundo que insiste em ser real.

Os objetos, sobretudo os inúteis, têm um sentido e um gozo que tornam o resto da vida algo entre a falha e o risco no vazio. Prefiro-os aos seres humanos, aos artifícios, aos ofícios, aos saberes. Entendo-me com a natureza. A natureza, que se perceba, não passa de coisa, ainda que a coisa das coisas que ao ser coisa é, por força, o fundamento do mundo composto das coisas não mais que coisas e das coisas em si, das coisas de muitos modos ditas e das certamente esquecidas, das com lados, ângulos, seções, elementos, categorias, cores, temperaturas. Coisas há para confundir a qualquer um.

A fortiori.

Entendo-me com as coisas e, por isso, preciso colocá-las no lugar.

Tudo está disposto à confusão. O nada se diz de muitos modos e tenho só duas gavetas para dar cabo da questão.

Porém, como o nada é sorrateiro, diante dos sistemas e classificações quase evidentes, basta perceber, deve haver em algum lugar o abismo de olhos rígidos a pulsar prestes ao bote. Em uma das gavetas, é certo, mais que certo, um axioma, uma verdade das que tornam inerte a vida toda. É dele que vou falar mesmo sabendo que deveria calar.

Então, primeiro calo-me, mas não sei por quanto tempo. Um minuto, um segundo, um dia, um ano. Talvez o tempo exato do talvez que me alucina. E como há muitos modos de dizer o nada, e as duas gavetas e o sorrateiro abismo de olhos para o nada, existem os vários mundos e os modos de dizê-los, mas o que interessa aqui são os modos de não dizer e desdizer. Interessa amenizar a imaginação até que fique morta, pois tem me causado muita dor de cabeça. Direi para qualquer efeito de apenas dois dos mundos, o que se diz e o que se desdiz, a opção pela facilidade é sempre a mais sábia. E prestarei atenção em mim, antes do inventário dos feitos. Talvez em pouco tempo eu mude de idéia, pois a classificação tem um início, mas jamais tem limite.

Eu, pois e eu? Vivo sobre esta cadeira sem rodas. Já deixei de ser humana e virei coisa. Igualei-me ao ambiente. Não é difícil confundir o imóvel e o objeto. Mas classificar-me cansa como seguir Sócrates e seu conhece-te a ti mesmo.

Ninguém conhece a si mesmo.

Assim desosso as horas, ou, para evitar metáforas, espero.

Fato 2. Abro a primeira gaveta. Há um pacote de cartas amarelas.

Fato 2.1. As cartas são amarradas com um barbante sujo.
Fato 2.2. Penso duas vezes se abro ou não o pacote.
Fato 2.3. Não há endereço de remessa, nem remetente.
Fato 2.4. Não parece haver o que ler.
Fato 2.5. Aqui tudo pertencia a Magnólia. Agora talvez tudo me pertença.
Fato 2.6. Pena não haver tempo além das manchas.

Escuridão

Podemos empilhar o mundo no chão e tirar-lhe o pó de anos. Ora, não podemos saber se o pó é de anos, semanas, dias, não é possível interpretar os sinais, o a priori das conclusões sempre vem cheio de empáfia, por azar sempre existem cartas remetendo o tempo em letras. É preciso parar para ver.

Ou esquecer de vez, mas é impossível quando não houve lembrança.

É das cartas que vêm toda a dúvida sobre conhecer a si mesmo. Eu, porém, não tenho mais nenhuma dúvida, ainda que existam cartas e, como estas, tão incógnitas.

Se ninguém se conhece a si mesmo, pois esse é nosso maior problema, oportuno é procurar o próprio nada que sempre faz desistir de toda explicação. O nada é sempre guardado entre gavetas ou no fundo das xícaras onde se bebeu chá, café, nos cestos onde se deixou cair as folhas desusadas, os restos sujos de papel de bala. O nada reside nas coisas e somente elas podem oferecer o real desenho que faz de cada um ninguém.

Guardemos o nada para a hora inválida em que o todo inevitável fizer a verdade das verdades subir à tona decantando os avessos.

Quando houver tempo.

Para saber o nada basta olhar para minha cadeira sem rodas, o copo vazio, ouvir o miado do gato longe. Basta olhar-me. Não lembro dele. Lembrar jamais é fácil. Embora esquecer não passe tantas vezes de uma boa desculpa. Onde estou lembro apenas do cansaço como uma sensação que não se apaga e não diz mais do que o tempo indo em ondas camufladas.

Fonte: http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT1062738-4240,00.html
Fonte da imagem: http://croagfilliu.wordpress.com/2006/10/17/

terça-feira, 29 de julho de 2008

Boas maneiras & afins (I.L.Á.R.I.O!!!)

Rating:★★★★★
Category:Other
O Brasil muda com velocidade espantosa. Quem era ontem um reles ladravaz hoje é um pilar da boa sociedade. A velhota patusca que anteontem desfiava rosários para converter a Rússia vermelha agora está cheia de botox e pilota uma ONG incrementadíssima, que incluiu excluídos de todos os modelitos. Como se repaginar com elegância diante dessas mutações todas? É de bom-tom cobrar a propina antes de sair a licitação? Como demonstrar consciência social sem abdicar do esqui em Aspen? É chique chamar o Exército para servir cocaína numa festa evangélica íntima? Como engravidar do roqueiro sexagenário de passagem pelo Rio e arrumar um programa na TV? É melhor chantagear ou extorquir? Comprar a prazo ou vender a juros? O que fazer com um quadro pintado por José Sarney?

São perguntas de difícil resposta, sobretudo para quem pensa que dá no mesmo falar "para mim fazer" ou "para eu fazer". Foi para orientar o gentil leitor na selva dos novos costumes desses tempos sombrios que The piauí Herald, infatigável na sua missão civilizatória, recorreu aos préstimos do renomado etiquetólogo Rovélson Whitebotton. Nascido no sertão do simpático estado que dá nome a este magazine, o próprio Whitebotton - ou simplesmente Rô, como ele prefere - é um exemplo do caráter semovente da sociedade brasileira, e do que ela pode ensinar a quem estiver disposto a aprender. "Eu achava que resolvia tudo com a peixeira, quando é muito mais ameno e chique fazer amigos e influenciar pessoas", ele conta.

O nosso irrequieto especialista em bons modos foi antes assessor parlamentar, mexeu com moda, lançou projetos, teve um escritório de gerência de crises, tornou-se acadêmico e hoje lidera uma bem-orquestrada consultoria fashion. Seu caminho foi longo. Os percalços, imensos. Mas ele não esquece quem o ajudou. "Devo muito a minha amiga Glorinha Kalil, que me ensinou que ser chique dá um dinheirão, desde que não se esqueça de botar o preço na etiqueta".

DINHEIRO VELHO & DINHEIRO NOVO

Rovélson, meu velho,
Estava pilotando meu iate, em Ilhabela, quando, subitamente, ao dar mais um golinho no meu brüt, senti um ligeiro solavanco. Um marinheiro veio contar que havíamos abalroado um homem não identificado e sem espírito esportivo, que reclama sem parar. Devo socorrê-lo ou deixo por isso mesmo?
LOBO DO MAR DISTRAÍDO

Convém dar uma olhada, Distraído: o preço da elegância é a eterna vigilância. Traga o estraga-prazeres a bordo e pergunte-lhe o nome. Se ele se chamar Kleôncio, Elcione, Neucymar, Ônyx ou correlatos, avise: "Assim que terminar o passeio, direi a meu motorista para levá-lo a um posto de saúde." Garanta que, se ele recobrar o uso da mão (perna, antebraço), você o empregará como marinheiro da lancha, mas sem carteira assinada porque a vida está difícil. Se o nome dele for duplo - Luiz Gustavo, Carlos Alberto etc. -, interrompa o passeio e leve-o você mesmo a uma clínica particular. Mande uma caixa de Cohiba para o pai/padrasto e outra de chocolates Godiva para a mãe/madrasta. Peça para a secretária ligar de dois em dois dias. Na eventualidade de ele responder dando nome e sobrenome - Antonio Pederneiras Bulhões, Luciano Castro e Braga -, vá diretamente ao heliponto e, mesmo que ele tenha sofrido apenas uma leve escoriação no mindinho, levo-o para o Einstein. Caso ele diga que não é necessário, seja firme: "Insisto, e já mandei o jatinho pegar o Pitanguy."

*

Róv,
Depois de uma noitada alegre, convidei todo mundo a dar uma esticada em Angra. Chegando ao heliponto, me dei conta de que estávamos em vinte, e o meu Sikorsky S-92 só tem lugar para 19 pessoas. Voar espremido é feio, não?
PERPLEXO NO HANGAR

Feíssimo, Perplexo, nada mais feio que um Sikorsky S-92 superlotado. Mas não é uma situação incomum, dado o afluxo de emergentes e agregados. Minha sugestão
é que, discretamente, você aplique a minha famosa e eficaz tabelinha de pontos, aquela que embaralha cifrões com aparições na mídia. Quem tiver a menor pontuação é dispensado com uma desculpa educada, do tipo "o piloto tem alergia a seu perfume". Eis a tabela, para você recortar e guardar na sua carteira de crocodilo do Nilo:

TABELINHA piauí Herald DE PONTUAÇÃO SOCIAL

* É letra de música de Caetano Veloso: 20 pontos
* Foi mencionado por Caetano Veloso em entrevista: 13 pontos
* É Caetano Veloso: menos 2 pontos
* Paulo Coelho o chama pelo primeiro nome: 12 pontos
* Sabe de cor o telefone de Arnaldo Jabor: 10 pontos
* É jogador e foi pego com travestis num motel barato: 50 pontos
* Foi mencionado favoravelmente na The Economist: 40 pontos
* Criou uma ONG para inserção social de excluídos: 17 pontos
* Conseguiu com que o Exército reforme o seu curral: 12 pontos
* O presidente o chama de "companheiro": 70 pontos
* O presidente o chama de "aloprado": 85 pontos
* O presidente o chama de José Dirceu: 100 pontos
* Apareceu no último Big Brother: 6 pontos
* Apareceu na Globo News: 5 pontos
* Apareceu na TV Record: menos 5 pontos
* Apareceu no SBT: menos 8 pontos
* Namorou Adriane Galisteu: menos 2 pontos
* Tem um quadro de José Sarney: menos 5 pontos

Caro Rovélson,
Todo dia, a caminho do escritório, paro num sinal e um mulatinho pendura um saco de balas toffee no retrovisor. Nunca comprei, mas já faz três anos que esse ritual se repete e estou ficando sem jeito. Há solução?
ATÔNITO NO SINAL

De fato, trata-se de uma situação muito embaraçosa, Atônito. Mesmo blindado, o seu carro pode ser riscado: esses pivetes não têm o mínimo cuidado. Além do que, o pardo não combina bem com o prateado reluzente do teu novo SUV. No tempo dos nossos pais, o adequado seria atropelar o garoto e seguir em frente - o que renderia boas risadas no clube ("Foi bala perdida pra todo lado!"). Mas agora, nesses tempos difíceis de culpabilidade social, é mais delicado. Em todo caso, evite ceder, pois do contrário o ambulante passará os próximos dez anos com o rosto colado a seu vidro. É de bom-tom, portanto, dialogar. Tente usar uma das seguintes desculpas: "Meu vidro é blindado, não abaixa", "Acabei de voltar de viagem e só tenho libras esterlinas na carteira", "Balas toffee? É que eu não gosto muito. Olha, se você passar a vender saquinhos de Rhum caramel do Chocolatier Manon, de Bruxelas, eu juro que compro", "Meu guru holístico de Vail só permite balas toffee com chá de carqueja orgânico. Você vende?"

*

Tudo bem, Rovélson?
Como você bem sabe, detesto política. De-tes-to. Mamãe sempre dizia que política é bom só para o zé povinho. Mas hoje não se pode nem dar uma recepção seleta para setenta casais que logo a política vem à baila, dividindo opiniões. Até a Casa Cor está politizada e cheia de comunistas. Não quero passar por desantenada, pois meu marido tem uma bonito canavial com 450 bóias-frias. Como fugir do assunto?
SOCIALITE SOCIALISTA

Não fuja da política, minha cara. Nada mais tendência que dizer que adora Barack Obama, elogiar-lhe os ternos e os modos - e lamentar o atraso brasileiro.

DECORO PARLAMENTAR

Caro Sr. Rovélson Whitebotton,
Fui nomeado relator da Comissão de Ética da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e encarregado de analisar o processo contra um dos nossos colegas. Devo dizer se ele deve ou não ser cassado. A peça acusatória consiste em uma gravação - de vídeo, diga-se, e magnificamente iluminada - em que ele aparece mandando assassinar um colega de contravenção. Pergunto: planejar um homicídio é ou não quebra de decoro parlamentar?
RELATOR JUDICIOSO

Depende, Judicioso, depende. Se o réu usou expressões vulgares ou palavras de baixo calão, decerto quebrou o decoro. "Vamos apagar aquele canalha", "Quero ver o safado virar presunto", "Dá uns pipocos nesse m..." são alguns exemplos do que não se deve tolerar num representante do povo. Terá igualmente quebrado o decoro se a reunião aconteceu num domingo ou dia santo. Também é necessário levar em conta o que ele estava vestindo. Deliberações desse jaez exigem, no mínimo, traje esporte fino. (Bermudas dispensam ida a plenário: é caso de cassação imediata.) Anéis, colares pesados e brilhantina devem ser anexados ao rol das provas incriminatórias. Idem se o deputado mexeu as pedras de gelo do seu uísque com o dedinho. E atenção: foulard é crime hediondo.

*

Estimado Rovélson Whitebotton,
Sou subassessor para Assuntos de Sardinha e Congêneres do Ministério da Pesca e amanhã pedirei meus primeiros 10% a uma empreiteira. Quais palavras devo usar?
EPAMINONDAS ROBALINHO

Jamais diga "Quero 10%", Robalinho de Águas Turvas. É simplesmente vulgar, além da praxe brasiliense, no momento, ser de 17%. Comece perguntando pela família do interlocutor e não se furte a olhar com interesse para as fotos do netinho ou netinha que ele certamente trará na carteira. Diga "É a cara do avô", se o bebê for bonito, o que é improvável. "Como se parece com o seu genro/nora!", caso não seja. Então, aos poucos, introduza o tema. Elogie-lhe a maleta com uma sutileza do tipo "Puxa, quantos dólares devem caber aí". Frases como "Eu gostaria tanto de levar minha família a Orlando, mas nunca pude", "Minha mulher /netinho/ compadre está indo para a hemodiálise, e rapaz, como custa...", "Desculpa o atraso, é que minha Brasília enguiçou... mas aqui estou, e essa é a barragem que estamos licitando" geralmente surtem bom efeito. Estabelecido o terreno, complemente com "O deputado manda abraços e diz que faz questão de lhe pagar um jantar no Piantela, com tudo incluído, inclusive os 17% do garçom". Enfatize o "17%" com uma piscadela.

*

Prezado R. Whitebótton,
Sou secretária de confiança do senador Abelardo Borduna e fui convidada por outro senador, cujo nome não posso revelar, para conversar sobre renda mínima no seu apartamento. Tenho receio de melindrar Bodurna, que é possessivo como o Cão, mas, recém-chegada e disposta a fazer carreira em Brasília, não quero me indispor com ninguém. Como devo proceder?
LUANA COCHUDA

Nada mais simples, Cochuda. Leve uma câmera de vídeo escondida, registre o encontro e bote a gravação na internet. Como a conversa será mesmo sobre renda mínima, Bodurna terá um prova adicional da sua fidelidade, Brasília inteira rirá à beça, o senador misterioso ficará satisfeito com a repercussão do caso na imprensa e, da noite para o dia, todo mundo saberá como você é espirituosa.

*

Caro senhor,
Sou deputado de primeiro mandato. Fui instruído a receber de bom grado todos os livros de José Sarney e mantê-los num lugar de destaque na estante da sala de meu apartamento funcional. Foi o que fiz. Mas agora, o nobre senador do Amapá me presenteou com uma de suas telas. Trata-se da imagem de um grande caramujo de tranças louras. Sei que José Dirceu mantém em sua casa o óleo de um peixe cabeludo, outra obra do ex-presidente, e talvez por isso tenha caído. Confesso que, toda noite, hesito em voltar para meu apartamento e dar de cara com o caramujo. Não sei o que fazer.
MIMOSEADO DE PRIMEIRA VIAGEM

Entendo e compartilho a sua angústia: também tenho uma paisagem marinha, repleta de monstros indefiníveis, de autoria do nosso insuperável ex-presidente. Mas não há outro remédio senão acostumar-se. Sarney sempre estará no poder, mandando e desmandando, não importa qual seja o governo. Se quiser ter futuro político, não retire o quadro da parede - o senador é dado a aparecer de surpresa para checar o estado geral de seus presentes. Vários deputados já perderam o mandato por terem desobedecido a essa regra de ouro do convívio parlamentar. Para atenuar a aflição, sugiro algumas alternativas simples e bem-educadas. Que você faça uma operação de miopia, não para corrigi-la, mas para acentuá-la. No apartamento, só ande de costas para a malsinada obra pictórica. Compre uma casa de campo, de preferência na Islândia, e leve o quadro para lá. É a solução mais indolor. Quando Sarney aparecer, diga: "A Islândia é meu pedacinho do paraíso. Achei apropriado levar o seu caramujo para lá." Em seguida, mostre fotos.

*

Whitebotton,
Quero apoiar meu sucessor na Prefeitura, mas o meu antecessor no governo estadual também é candidato. Como manter a posição sem desagradar ninguém e chegar à Presidência?
TUCANO INSONE

Uma viagenzinha ao Japão resolve.

*

Caro Whitebotton,
Soube que a Polícia Federal, nos quadros da Operação Roubalheira LXXIII, fará uma blitz no meu gabinete e pretende me levar à força para interrogatórios. O que faço para não perder a compostura?
APAVORADO EM FLAGRANTE

Nessas horas é que se percebe se a elegância é de berço. É a prova de fogo. Primeira providência: deixar a tela de Sarney (a maior, a Polvo Maneta e Perneta) em evidência. A boa arte maranhense costuma fazer a gentinha se acoelhar. Segunda: compre um paletó de número duas vezes maior, para poder esconder o rosto dos fotógrafos sem amassá-lo. Terceira: deixe uma nota pronta à imprensa, sustentando que seus inimigos políticos querem destruí-lo porque estão mancomunados com os poderosos. Sempre funciona.

*

Prezado Rovélson Whitebotton,
Minha jovem esposa quer levar a mãe para conhecer a Europa. Não tenho como recusar. É obrigatório pagar as despesas da jararaca?
GOVERNANTE SOGRADO

De jeito nenhum! Onde já se viu? O erário está aí para esses pequenos gestos de cortesia que azeitam as relações interfamiliares. Convide-a para presidir uma ONG de inserção social de excluídos e boa viagem aos pombinhos (não deixe de levar uns assessores para fazer companhia à jararaca).

*

Sr. Whitebotton,
Apareci numa gravação clandestina nos telejornais com uma enorme pilha de dinheiro no meu gabinete. Tenho saída?
PREFEITO MARANHENSE

Nessas situações, é melhor recorrer às soluções tradicionais: diga que a pilha era para esconder uma tela do seu líder, José Sarney, que mostrava uma piranha-da-caatinga com chapéu de couro.

*

Prezado Rovélson,
Como ir à Europa descansar um pouco (ninguém é de ferro) sem chamar a atenção da imprensa?
SERGINHO CABRAL

Convide uns dez jornalistas a irem junto, governador.

FESTAS, RECEPÇÕES E JANTARES DE GALA

Bonitinho,
Fui convidado para um jantarzinho na casa de um ex-banqueiro que acabou de deixar a prisão. Quais os assuntos apropriados para puxar conversa?
SEM ASSUNTA

Culinária sempre rende conversas animadas. Pergunte sobre o chef, o cardápio, a louça e o serviço no xadrez. O momento do banho de sol pode render também: qual era o protetor solar preferido? Nas conversas sérias, elogiar a morosidade da Justiça.

*

Botton,
A tua colega Glorinha Kalil publicou um livro de etiqueta em que ela aparece de luvas na capa. Luvas estão na moda nos trópicos?
PORTA-VOZ DOS SEM-LUVA

Ih, você não entendeu nada, nada mesmo. Claro que as pessoas de fino trato usam luvas. E tem mais: é uma peça de vestuário de primeira necessidade para os bem-educados. Exemplo prático: você está nos Jardins e um pobre te pede esmola. Como manda a etiqueta, você lhe dá umas moedinhas e o miserável, sem modos, aproxima os lábios da sua mão. Imaginou o horror? Luvas, portanto, luvas.

*

White,
Estou tão bêbado que entrei na festa andando de costas. Luciana Gimenez me pede uma explicação. O que devo dizer?
PELAS TABELAS

Informe-a de que você está aplicando o conceito feng shui de que o futuro é um poço de esperança, o presente uma prisão de loucura e o passado uma caixa de medos. E que ela precisa encarar seus medos para se tornar uma pessoa melhor.

*

Cara,
Em um happy hour, um de meus colegas de trabalho chega em companhia de uma morena sensacional. Acho que ela está me encarando. O que fazer?
GALANTEADOR EMBAÇADO

Antes de mais nada, Galanteador, atenção à hierarquia. Se o colega for seu subordinado, não demonstre qualquer interesse. Mas quando ele se levantar para ir ao banheiro, diga à moça: "Estou indo para uma boate em quinze minutos. Você pode me encontrar lá, a não ser que queira insistir em curar a homossexualidade do meu amigo - coisa que nem a mulher obesa e seus quatro filhos sabem."

*

Cara,
Não! O colega é meu chefe e percebeu que estou dando em cima dela!
GALANTEADOR EMBAÇADO

A presença de espírito é atributo essencial do verdadeiro cavalheiro: levante a voz e berre para a mulher: "Não quero nada com você, pervertida!" Enquanto o sujeito leva a mulher para um canto para tirar satisfações, saia à francesa. Mas antes comente com o mais fofoqueiro da turma: "Eu estava na minha, ela já chegou partindo para cima."

*

Senhor,
Fui convidado para uma festa na casa de um casal nouveau pauvre. Pensei em levar uma garrafa de Cheval Blanc 1972, mas acho que pode parecer ofensivo. Que tipo de bebida devo levar?
ENÓLOGO SENSÍVEL

Não é porque seus amigos perderam tudo que significa que perderam a classe. O uísque Natu Nobilis e o conhaque de alcatrão São João da Barra são produtos nacionais com excelente custo-benefício. Uma bela garrafa de Xiboquinha ou Contini Bianco também não decepcionam.

*

Homem,
Com o joelho recém-operado, bebi e acabei com três travestis num motel. Como me comportar agora?
MACHUCADO NA BARRA

Com o joelho machucado é difícil, mas com jeito tudo se resolve: fique de ladinho.

*

Caro grã-finólogo,
A anfitriã sai do banheiro com as narinas entupidas de pó branco. Como alertá-la sem ofendê-la?
CONVIVA ATENCIOSO

Você pode perguntar se ela acabou de beijar a bisavó ou a Rainha da Inglaterra, já que seu rosto ficou "cheio de pó de arroz".

*

Caro Rovélson,
O jantar é formal. Como devo saudar alguém que chega atrasado?
MÍMICO ELOQÜENTE

Com a mão esquerda, pegue o terceiro garfo da esquerda para a direita, levante-o até a altura da cabeça e sacuda-o em movimentos firmes e contínuos.

*

Prezado escriba,
Em uma recepção com lugares marcados, onde devo sentar a mulher, o marido e a amante dele?
ANFITRIÃ DIPLOMÁTICA

Numa mesa retangular, a mulher deve se sentar a duas cadeiras do marido, entre dois homens fortes, que possam contê-la, e próxima à amante para que possa vigiá-la. Amante e marido devem se sentar exatamente em frente um do outro para que possam se tocar com os pés por debaixo da mesa. Não é aplicável se o tampo for de vidro. A mulher também pode ser colocada de frente para um quadro de José Sarney: muda de espanto, ela não incomodará ninguém.

*

Rovélson Whitebotton,
Enquanto os convivas estavam distraídos, vomitei no chão. Ninguém percebeu, mas o garçom se aproxima. Como disfarçar o ocorrido?
BEBI MAL

O mais apropriado é derramar o resto de seu vinho sobre o líquido expelido, misturar tudo com o pé discretamente e chamar a atenção do serviçal: "Esse vinho que você me serviu parece vômito!"

*

Caro Whitebotton,
Estou no banheiro de um restaurante do Senado e sou tomado por um irrefreável desejo de fazer um desenho na porta. O que é chique pintar?
EX-PRESIDENTE

Não invente muito. Uma barracuda com chapéu de cangaceiro está bom.

NO REINO ENCANTADO DAS CELEBRIDADES

Bofe Botton,
As revistas de fofoca insistem em saber o que faço para manter a forma. Continuo dizendo que é só água de coco e yoga. O que fazer para reforçar a versão?
IVALO SANGUETE

Contrate um caminhão de água de coco para que fique estacionado em frente a sua portaria por dois dias. Saia à rua carregando o tapete de yoga pelo menos três vezes por semana. E continue entrando no consultório do cirurgião plástico pela porta dos fundos, sem jamais esquecer a peruca e os óculos escuros.

*

Fofo,
Sempre apareci na capa de revistas com meu mais novo namorado. Agora, descobri que gosto mesmo é de mulheres. Como alardear a novidade com fineza?
SAPATO NO ARMÁRIO

Por baixo de uma jaqueta Prada de couro castor, você pode usar uma camiseta básica preta, com letras douradas dizendo: "EU GOSTO É DE GENTE."

*

White,
Preciso avisar os paparazzi que vou a um bar com meu novo namorado, um ator famoso que adotou a linha low profile. Como fazer a convocatória sem estragar a estratégia do rapaz?
MARQUETEIRA CONFUSA

As regras de requinte recomendam aproveitar do fotógrafo alheio. Ligue para os assessores de imprensa de Caetano Veloso, Deborah Secco ou Preta Gil para descobrir os restaurantes, bares e casas de suco aonde eles irão naquela noite. Com a presença dos paparazzi garantida, é só posar ao som de: "Meu Deus, que coincidência!"

*

Meu assessor predileto,
Ao arrumar a mesa para um jantar de cerimônia, onde ponho os canudinhos?
XUXA MENEGHEL

Enfileirados, depois da seqüência de facas. Mas, atenção: os do tipo dobráveis são inadmissíveis.

*

Colega,
Sou um repórter investigativo que foi pego pela polícia com 200 gramas de cocaína. Como me explicar?
BOB WOODWARD

Nessas situações, não se trata nem de uma questão de etiqueta. É um problema ético, e como tal deve ser encarado, pois é a sua credibilidade que está em jogo. Convoque uma entrevista coletiva para esclarecer que foi tudo um mal-entendido, que você apurava uma reportagem sobre tráfico de drogas para exibir na televisão.

*

Rei da Etiqueta,
Há anos não me chamam para fazer nenhum trabalho. No máximo, sou convidada para inaugurações de óticas e pet shops. Não quero parecer rude, mas o que falar aos abutres que querem saber sobre minha rotina vazia?
FAMOSA INFAMOSA

Educadamente, com a voz firme e pausada, diga que está cheia de projetos e vislumbrando mais um desafio em sua carreira, mas que, infelizmente, ainda não pode revelar.

*

Caro Robervón (é assim que se escreve o seu nome?)
Estou no começo da carreira e ainda não sou considerada VIP. Como posso pedir roupas e convites de graça sem perder a categoria?
INFAMOSA INFAMOSA

Incorpore o sobrenome de alguma celebridade do mundo da moda. Você pode ser "Sicrana Pascolatto" ou "Beltrana Pascowitch" (quem quiser ser Fulana Bottonwhite procure meu agente). Roupas, ingressos e convites brotarão espontaneamente.

*

Companheiro excluído,
Levaram-me o Rolex num cruzamento. Dá para ser elegante numa hora dessas?
NARIZ EMPINADO

Claro que dá! É só escrever um libelo contra a injustiça social que todo mundo perceberá que você é bem-educado o bastante para se promover em qualquer situação.

*

Colunista Whitebotton,
Meu casamento

foi capa de todas as revistas, mas terminou depois de um mês e meio. Tenho que devolver os presentes?
LEBRE LÉPIDA

Claro que não, Lépida. Sinta-se na obrigação de mandar um cartão formal de agradecimento apenas para aqueles que ganham mais de 100 mil reais por mês ou tenham algum cargo de direção em uma emissora de tevê.

*

Moço,
Meu noivo foi flagrado em um motel com três travestis. Minha prima do interior fica me perguntando os detalhes do acontecido. Como desconversar sem parecer mal-educada?
INCONSOLÁVEL

Diga que ele ficou de ladinho e mude rápido de assunto.

*

Seu Uaitebótom,
Quero deixar a imagem de ex-BBB definitivamente para trás. O que devo vestir na minha primeira reunião com o gerente da empresa de marketing que se interessou em discutir meu projeto de releitura de Hamlet?
CCC

Use um coque, terninho preto, maquiagem e perfumes discretos. Lembre-se de que o correto é "para eu fazer", e não "para mim fazer".

*

Brasileiros e brasileiras,
Fui apresentado a uma senhorita bem torneada e apessoada (parece uma lagosta de peruca loira) que, segundo Roseana me disse, "está bombando". Penso em presenteá-la, mas não quero parecer intrusivo nem impessoal. O que me sugere?
JOSÉ SARNEY

Que tal um retrato da moça? É chique e original.

Fonte: Revista Piauí

http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=689&pag=5

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Lições do século XX

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O que aprendemos com o século XX, se é que aprendemos alguma coisa?

TONY JUDT

REVISTA PIAUÍ

O século XX mal acabou e suas disputas e realizações, ideais e medos já se perderam nas sombras do esquecimento. No Ocidente, sempre que possível tivemos grande pressa em desconsiderar a bagagem econômica, intelectual e institucional do século passado, e encorajamos os outros a fazer o mesmo. A partir de 1989, com uma confiança ilimitada e uma reflexão insuficiente, deixamos o século XX para trás. Enveredamos sem medo no seu sucessor, imersos em meias verdades a serviço do que desejamos crer: o triunfo do Ocidente, o fim da História, o momento unipolar americano, a marcha inelutável da globalização e da liberdade de mercado.

A crença de que aquele tempo ficou para trás e agora tudo é diferente nos afeta bem mais do que os finados dogmas e instituições comunistas dos tempos da Guerra Fria. Durante os anos 90, e novamente em seguida ao 11 de Setembro de 2001, mais de uma vez me choquei com a perversa insistência contemporânea em não compreender o contexto dos dilemas de hoje; em não dar ouvidos a algumas das cabeças mais sensatas das últimas décadas. Com a insistência em procurar ativamente esquecer, em vez de lembrar; em negar a continuidade e proclamar o ineditismo em todas as ocasiões possíveis. Adquirimos uma estridente insistência em reafirmar que o passado pouco tem de interessante a ensinar. O nosso mundo, asseguramos, é novo; seus riscos e oportunidades não têm precedentes.

Depois de 1918, enquanto todos concordavam que as coisas nunca voltariam a ser como antes, a forma que o mundo do pós-guerra deveria assumir foi idealizada e contestada em toda parte, sob a longa sombra da experiência e do pensamento do século XIX. A economia neoclássica, o liberalismo, o marxismo (e seu enteado, o comunismo), a "revolução", a burguesia e o proletariado, o imperialismo e o "industrialismo" - os blocos usados na constituição do mundo político do século XX - eram todos artefatos do século XIX. Mesmo aqueles que, a exemplo de Virginia Woolf, acreditavam que "por volta de dezembro de 1910 o caráter humano mudou" - que as profundas mudanças culturais do fin de siècle europeu tinham transformado completamente os termos da troca intelectual - ainda assim dedicavam uma quantidade surpreendente de energia travando uma luta inglória com a sombra dos seus predecessores. O peso do passado se fazia sentir no presente.

Hoje, em contraste, tratamos o século passado com grande ligeireza. Claro que lhe erguemos memoriais em toda parte: santuários, placas, locais de visitação. Até mesmo parques temáticos de fundo histórico são monumentos públicos ao "passado". Mas o século XX que celebramos é apresentado curiosamente fora de foco. A esmagadora maioria dos sítios oficialmente dedicados à conservação da memória do século XX é ou confessadamente nostálgico-triunfalista (louvando homens famosos e celebrando grandes vitórias) ou então, e cada vez mais, oportunidade para a rememoração de um sofrimento seletivo.

O século XX, assim, está a caminho de ser transformado num palácio de memória moral: uma câmara de horrores históricos, com usos pedagógicos, cujas várias estações atendem pelos rótulos de "Munique", "Pearl Harbor", "Auschwitz", "Gulag", "Armênia", "Bósnia" ou "Ruanda". Com o 11 de Setembro figurando como uma espécie de coda suplementar, um sangrento pós-escrito é dirigido àqueles que quiseram esquecer as lições do século, ou deixaram de aprendê-las. O problema dessa representação lapidar do século passado como uma era singularmente horrenda, da qual hoje, felizmente, já emergimos, é que não é uma boa descrição. De muitas maneiras, foi de fato uma época terrível, um tempo de brutalidade e sofrimento em massa talvez sem igual em toda a história conhecida. O problema é a mensagem: que deixamos tudo isso para trás, que o significado do passado é claro e que agora podemos avançar - desembaraçados dos erros anteriores - rumo a tempos melhores e diferentes.

Essa rememoração oficial não contribui para a nossa avaliação ou consciência do passado. Funciona como um substituto, um sucedâneo. Em vez de ensinarmos história, levamos as crianças a percorrer museus e memoriais e, o que é pior, as estimulamos a ver o passado - e as suas lições - através do vetor do sofrimento dos seus antecessores. Hoje, a interpretação "comum" do passado recente compõe-se, assim, de fragmentos múltiplos de vários passados, cada um deles (judeu, polonês, sérvio, armênio, alemão, asiático-americano, palestino, irlandês, homossexual) marcado pela condição ostensiva de vitimado.

O mosaico resultante, em vez de nos ligar a um passado comum, separa-nos dele. Por maiores que fossem os defeitos das narrativas nacionais que nos eram ensinadas, por mais que o seu foco fosse seletivo e a sua mensagem instrumental, pelo menos elas tinham a vantagem de fornecer à nação referências passadas para a experiência do presente. A história tradicional, da maneira como foi ensinada a gerações de escolares e universitários, dava um sentido ao presente por meio da referência ao passado: nomes, lugares, inscrições, idéias e alusões podiam ser organizados numa narrativa memorizada do dia de ontem. Atualmente, esse processo se inverteu. O passado só adquire sentido através da referência às nossas múltiplas, e muitas vezes contrastantes, atribulações atuais.

Esse caráter estrangeiro e desconcertante do passado deve-se, em parte, à mera velocidade das mudanças contemporâneas. A "globalização" realmente revirou a vida das pessoas de tal forma que seus pais ou avós teriam grande dificuldade em imaginar. Muito do que, por décadas e mesmo por séculos, nos parecia familiar e permanente vem caindo cada vez mais rápido no esquecimento. O passado, ao que tudo indica, é realmente um outro país: nele, as coisas eram feitas de outra maneira.

A expansão das comunicações é um caso exemplar. Até as últimas décadas do século XX, a maioria das pessoas tinha um acesso limitado à informação. Graças à educação nacional, à rádio e televisão controladas pelo Estado e a uma cultura impressa comum, todos passaram a ter a mesma probabilidade de saber praticamente as mesmas coisas dentro de um Estado, nação ou comunidade. Hoje, ocorre o contrário. A maioria das pessoas fora da África subsaariana tem acesso a uma quantidade quase infinita de dados. Na falta, porém, de uma cultura comum, as informações e idéias fragmentadas que as pessoas escolhem ou encontram são determinadas por uma multiplicidade de preferências, afinidades e interesses. Com o passar dos anos, cada um de nós tem menos pontos em comum com os mundos em rápida multiplicação dos nossos próprios contemporâneos, sem falar do mundo dos que vieram antes de nós.

Qual é a conseqüência mais funesta da nossa pressa em deixar para trás o século XX? Nos Estados Unidos, pelo menos, é termos esquecido do que a guerra significa. E por um motivo particular. Em boa parte do continente europeu, da Ásia e da África, o século XX foi vivido como uma sucessão de guerras. A guerra representou invasão, ocupação, deslocamento, privação, destruição e assassinatos em massa. Os países que perdiam as guerras muitas vezes também perderam habitantes, território, recursos naturais, segurança e independência. Mesmo os países que emergiam formalmente vitoriosos tinham experiências comparáveis, e rememoravam a guerra com uma feição semelhante à dos derrotados.

A Itália depois da I Guerra Mundial, a China depois da II Guerra e a França depois de ambas podem ser mencionadas nesse caso: todas saíram "vencedoras", mas devastadas. E houve ainda as nações que venceram uma guerra, mas "perderam a paz", desperdiçando as oportunidades proporcionadas pela vitória. Os aliados ocidentais em Versalhes, assim como Israel, nas décadas que se seguiram à sua vitória de junho de 1967, são os exemplos mais flagrantes.

Além disso, no século XX, guerra quase sempre significou guerra civil: muitas vezes encoberta pelo rótulo de ocupação ou "libertação". A guerra civil desempenhou um papel significativo na "limpeza étnica", e provocou alguns dos grandes deslocamentos forçados de populações no século XX, tanto na Índia e na Turquia como na Espanha e na Iugoslávia. Da mesma forma que a ocupação estrangeira, a guerra civil é uma das terríveis memórias "comuns" dos últimos 100 anos. Em vários países, a "superação do passado" - isto é, um acordo para ultrapassar ou esquecer (ou negar) a memória recente de conflitos entre comunidades - transformou-se em objetivo primário de governos do pós-guerra, às vezes alcançado, às vezes causador de excessos.

A guerra não era apenas uma calamidade em si mesma. Ela trazia outros horrores em seu rastro. A I Guerra Mundial levou à militarização sem precedentes da sociedade, à adoração da violência e a um culto de morte que durou muito mais que a guerra propriamente dita e preparou o terreno para as catástrofes políticas que se seguiram. Os Estados e as sociedades tomados durante e depois da II Guerra Mundial, por Hitler ou Stálin (ou pelos dois, em seqüência), viveram não só a ocupação e a exploração, como também a degradação e a corrosão das leis e das normas da sociedade civil. As próprias estruturas da vida civilizada - as regras, as leis, os professores, os policiais, os juízes - desapareceram ou assumiram um significado sinistro: longe de garantir a segurança, o próprio Estado transformou-se na maior fonte de insegurança.

A reciprocidade e a confiança, seja entre vizinhos, colegas, dirigentes ou comunidade, entraram em colapso. Comportamentos que seriam aberrantes em circunstâncias habituais - roubo, desonestidade, dissimulação, indiferença para com o infortúnio alheio e exploração oportunista do seu sofrimento - tornaram-se não apenas normais como, às vezes, os únicos meios de alguém salvar a família e se salvar. A divergência ou a oposição eram sufocadas pelo medo universal.

A guerra, em suma, desencadeava um comportamento que seria inconcebível, além de aberrante, em tempos de paz. É a guerra, e não o racismo, o antagonismo étnico ou o fervor religioso, que leva à atrocidade. A guerra - a guerra total - sempre foi a condição prévia crucial para a criminalidade em massa na era moderna. Os primeiros campos de concentração foram criados pelos britânicos durante a Guerra dos Bôeres, entre 1899 e 1902. Sem a I Guerra Mundial, não haveria o genocídio dos armênios e seria altamente improvável que tanto o comunismo quanto o fascismo se apoderassem de Estados modernos. Sem a II Guerra Mundial não haveria o Holocausto. Não houvesse o envolvimento forçado do Camboja na Guerra do Vietnã, jamais teríamos ouvido falar de Pol Pot. Quanto ao efeito brutalizante da guerra sobre os próprios soldados comuns, ele foi copiosamente documentado.

Os Estados Unidos conseguiram passar ao largo de quase tudo isso. Os americanos talvez sejam o único povo que viveu o século XX sob uma luz muito mais benfazeja. Os Estados Unidos nunca foram invadidos. Não perderam vastas quantidades de cidadãos, nem grandes parcelas de território. Embora humilhados em distantes guerras neocoloniais (no Vietnã e, agora, no Iraque), jamais sofreram as plenas conseqüências de uma derrota. A despeito da sua ambivalência em relação às iniciativas mais recentes, a maioria dos americanos ainda acha que as guerras travadas pelo seu país foram, em sua maioria, "guerras boas".

Os Estados Unidos aumentaram bastante seu papel entre as nações após as duas guerras mundiais - uma situação bem diferente do que aconteceu com a Grã-Bretanha, também indiscutivelmente vitoriosa nesses conflitos, mas ao preço da quase-bancarrota e da perda de um império. Além disso, em comparação com os outros principais poderes litigantes do século XX, os Estados Unidos perderam relativamente poucos soldados nos campos de batalha, e praticamente não tiveram baixas civis.

Esse contraste merece uma ênfase estatística. Na I Guerra Mundial, os Estados Unidos sofreram pouco menos de 120 mil mortes em combate. Para o Reino Unido, a França e a Alemanha, as cifras são, respectivamente, de 885 mil, 1,4 milhão e mais de 2 milhões. Na II Guerra Mundial, quando os Estados Unidos perderam cerca de 420 mil homens em combate, as perdas do Japão foram de 2,1 milhões, as da China de 3,8 milhões, as da Alemanha de 5,5 milhões e as da União Soviética estimadas em 10,7 milhões. O Memorial dos Veteranos do Vietnã, em Washington, registra a morte de 58 195 americanos ao longo de uma guerra que se estendeu por quinze anos. Já o exército francês perdeu o dobro disso em apenas seis semanas de combates, entre maio e junho de 1940.

Na batalha mais custosa travada pelo exército americano em todo o século - a Ofensiva das Ardenas, entre dezembro de 1944 e janeiro de 1945 -, morreram 19 300 soldados. Nas 24 horas iniciais da Batalha do Somme (1º de julho de 1916), o exército britânico teve mais de 20 mil baixas fatais. Na Batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho perdeu 750 mil homens e a Wehrmacht um número quase igual de combatentes.

Com isso, à exceção da geração que lutou na II Guerra Mundial, os Estados Unidos não têm memória de combate ou perda nem de longe comparável à das forças armadas de outros países. Mas são as baixas civis que deixam a marca mais duradoura na memória nacional, e aqui o contraste é ainda mais chocante. Apenas na II Guerra Mundial, os britânicos sofreram 67 mil mortes de civis. Na Europa continental, a França perdeu 270 mil civis. A Iugoslávia registrou a morte de mais de meio milhão de civis. A Alemanha, de 1,8 milhão. A Polônia, de 5,5 milhões. E se estima que a União Soviética tenha tido 11,4 milhões de mortes de civis. Essas cifras agregadas incluem cerca de 5,8 milhões de judeus mortos. Mais longe, na China, a contagem de mortos excedeu os 16 milhões. As perdas de civis americanos (excluindo a Marinha Mercante), nas duas guerras mundiais, somam menos de 2 mil mortos.

Conseqüentemente, os Estados Unidos são hoje a única democracia avançada em que figuras públicas glorificam e exaltam os militares, um sentimento comum na Europa antes de 1945, mas praticamente desconhecido nos dias de hoje. Os políticos americanos cercam-se dos símbolos e adornos da competência armada. Ainda em 2008, analistas americanos fustigam os aliados que hesitam em se envolver em conflitos armados. Acredito que seja essa disparidade nas lembranças da guerra e do seu impacto, mais que qualquer diferença estrutural entre os Estados Unidos e os países que lhe são comparáveis em outros aspectos, a responsável pelas suas distintas reações às crises internacionais de hoje.

A afirmação complacente dos neoconservadores, de que a guerra e o conflito são coisas que os americanos compreendem - em contraste com os europeus ingênuos, às voltas com suas fantasias pacifistas -, me parece totalmente equivocada: são os europeus (juntamente com os asiáticos e os africanos) que melhor entendem o que é a guerra. A maioria dos americanos tem a sorte de viver numa bem-aventurada ignorância do que ela realmente significa.

Esse mesmo contraste pode explicar a qualidade que caracteriza boa parte do que se escreve nos Estados Unidos sobre a Guerra Fria e as suas conseqüências. Nos relatos europeus sobre o fim do comunismo, dos dois lados da dita Cortina de Ferro, o sentimento predominante é de alívio diante do final de um capítulo longo e infeliz. Nos Estados Unidos, porém, essa história é normalmente registrada de forma triunfalista. E - por que não? - para muitos comentaristas e analistas políticos americanos, a mensagem do século XX é de que a guerra funciona. Daí o entusiasmo amplamente difundido pela guerra contra o Iraque. Para Washington, a guerra continua a ser uma opção - e, naquela ocasião, foi a primeira delas. Para o resto do mundo desenvolvido, ela é pensada como o último recurso.

A ignorância da história do século XX não contribui apenas para um deplorável entusiasmo pelo conflito armado. Também leva à identificação errônea do inimigo. Temos bons motivos para nos preocuparmos com o terrorismo e o desafio que ele representa. Mas antes de nos lançarmos a uma guerra de 100 anos para erradicar os terroristas da face da terra, é preciso considerar o seguinte: os terroristas nada têm de novo. Mesmo que sejam excluídos os assassinatos ou as tentativas de assassinato de presidentes e monarcas, e nos limitemos aos homens e mulheres que matam civis desarmados em busca de um objetivo político, os terroristas estão em atividade há bem mais de um século.

Já vimos terroristas inspirados pelo anarquismo, terroristas russos, terroristas indianos, terroristas árabes, terroristas bascos, terroristas malaios, terroristas tâmiles e dúzias de outros. Existiram, e ainda existem, terroristas cristãos, terroristas judeus e terroristas muçulmanos. Houve terroristas iugoslavos (os partisans) acertando contas na II Guerra Mundial; terroristas sionistas explodindo mercados árabes na Palestina antes de 1948; terroristas irlandeses financiados por americanos na Londres de Margaret Thatcher; terroristas mujahedin armados pelos Estados Unidos no Afeganistão dos anos 80; e assim por diante.

Ninguém que tenha vivido na Espanha, Itália, Alemanha, Turquia, Japão, Reino Unido ou França, para não falar de países usualmente mais violentos, pode ter deixado de perceber a onipresença de terroristas ao longo do século XX - usando armas de fogo, bombas, armas químicas, carros, trens, aviões e muitas outras coisas. O único fato que mudou nos últimos anos foi a manifestação, em setembro de 2001, do terrorismo homicida dentro dos Estados Unidos. E mesmo isso não era totalmente sem precedentes: os meios foram novos e a carnificina incomparável, mas o terrorismo em solo americano se manifestou ao longo do século XX.

O que dizer do argumento de que o terrorismo de hoje é diferente, um "choque de culturas" inspirado por uma tóxica mistura de religião e autoritarismo, o "islamofascismo"? Também essa interpretação tem amplo apoio numa leitura errônea da história do século XX. E existe aqui uma tripla confusão. A primeira consiste em identificar grosseiramente os diversos fascismos nacionais da Europa entre-guerras com os ressentimentos, as demandas e as estratégias muito diferentes dos (igualmente heterogêneos) movimentos e insurreições muçulmanos do nosso tempo - e querer atribuir a credibilidade das lutas antifascistas do passado às aventuras militares de motivação bem mais dúbia.

Uma segunda confusão advém de igualar um punhado de assassinos apátridas, impelidos por motivação religiosa, à ameaça representada no século XX pelos Estados prósperos e modernos que eram controlados por partidos políticos totalitários, comprometidos com a agressão externa e o extermínio em massa. O nazismo era uma ameaça à nossa própria existência, e a União Soviética chegou a ocupar metade da Europa. Mas e a Al-Qaeda? A comparação é um insulto à nossa inteligência - para não falar da memória daqueles que lutaram contra os ditadores. Mesmo os que defendem essas semelhanças não parecem acreditar nelas. Afinal, se Osama bin Laden fosse realmente comparável a Hitler ou Stálin, teríamos realmente respondido ao 11 de Setembro com a invasão de... Bagdá?

Mas o erro mais grave consiste em confundir forma e conteúdo: a definição dos vários terroristas e terrorismos do nosso tempo apenas pelos seus atos, mesmo tendo objetivos contrastantes e por vezes conflitantes. Seria como pôr no mesmo saco as Brigadas Vermelhas italianas, o grupo alemão Baader-Meinhof, o IRA Provisório irlandês, o ETA basco, os separatistas do Jura suíço e a Frente Nacional de Libertação da Córsega. E, então, afirmar que as diferenças entre eles são insignificantes, rotular o amálgama resultante da combinação de militantes ideológicos que desferem tiros no joelho dos adversários, atiradores de bombas e assassinos políticos de "extremismo europeu" (ou "cristofascismo", talvez?), e em seguida declarar contra esse modelo uma guerra armada, sem quartel e sem meta definida.

A simplificação de inimigos e ameaças, essa facilidade em acreditar que estamos em guerra contra os "islamofascistas", "extremistas" de uma cultura estranha, de algum "Islamistão" distante, que nos odeiam por sermos quem somos, e se dedicam à destruição do nosso "modo de vida", essa simplificação é um sinal seguro de que esquecemos a grande lição do século XX: a facilidade com que a guerra, o medo e o dogma podem nos levar a demonizar os outros, negando-lhes uma humanidade como a nossa ou a proteção das nossas leis, para submetê-los a coisas indizíveis.

De que outra maneira podemos explicar nossa indulgência atual para com a tortura? Porque não há dúvida de que a toleramos. O século XX começou com a Convenção de Haia sobre as leis da guerra. Ainda em 2008, o século XXI tem em seu passivo o campo de prisioneiros de Guantánamo. Ali, e em outras prisões secretas, os Estados Unidos submetem terroristas ou suspeitos de terrorismo a torturas rotineiras. Existem muitos precedentes para isso no século XX, claro, e não apenas em ditaduras. Os britânicos torturavam os terroristas em suas colônias da África oriental até a década de 50. Os franceses torturavam terroristas argelinos que capturavam na "guerra suja" para manter seu domínio sobre o país.

No auge da Guerra da Argélia, Raymond Aron publicou dois ensaios vigorosos, instando a França a sair da colônia e a conceder-lhe a independência. Aquela guerra, insistia ele, não tinha sentido, e a França não tinha como vencê-la. Anos mais tarde, perguntaram a Aron por que também não se juntou aos que combatiam o uso da tortura, ao mesmo tempo que se opunha ao domínio da França sobre a Argélia. "Mas o que eu teria obtido, proclamando a minha oposição à tortura?", respondeu ele. "Nunca encontrei ninguém que fosse a seu favor."

Pois os tempos mudaram. Nos Estados de hoje, existem muitas pessoas racionais e respeitáveis que defendem a tortura - nas circunstâncias corretas e quando aplicadas por quem tem méritos. O professor Alan Dershowitz, da Faculdade de Direito de Harvard, escreve que "a mera análise da relação custo-benefício do emprego dessas torturas não-letais [para extrair a tempo informações perecíveis de um prisioneiro] parece mais que convincente". A professora Jean Bethke Elshtain, da Faculdade de Teologia da Universidade de Chicago, admite que a tortura continua a ser um horror e é "em geral [sic]... interdita". Entretanto, no caso do interrogatório de "prisioneiros no contexto de uma guerra letal e perigosa contra inimigos que não conhecem limites, há momentos em que essa regra pode ser desobedecida".

Essas afirmações terríveis são ecoadas pelo senador Charles Schumer (democrata de Nova York), que, numa audiência de 2004 no Senado, afirmou que "deve haver poucas pessoas nesta sala ou nos Estados Unidos que digam que a tortura nunca deva ser usada". Certamente não o juiz da Suprema Corte Antonin Scalia, que declarou, em fevereiro de 2008, que seria um absurdo dizer que a tortura não pode ser usada. Nas palavras dele: "Depois que isto é reconhecido, o jogo muda de figura. E o quanto a ameaça precisa ser iminente? E o quanto pode ser intensa a dor infligida? Acho que essas questões não são nem um pouco fáceis. Mas sei que ninguém pode se apresentar em toda confiança, satisfeito consigo mesmo, e dizer: 'Ah, é tortura, e portanto é uma coisa ruim.'"

Foi precisamente por essa decisão, de que "é tortura e, portanto, uma coisa ruim", que até pouco tempo atrás se distinguia a democracia das ditaduras. Nós nos orgulhamos de ter derrotado o "Império do Mal" dos soviéticos. De fato. Mas talvez devamos ler de novo as memórias dos que sofreram nas mãos desse império - as memórias de Eugen Loebl, Artur London, Jo Langer, Lena Constante e incontáveis outros - e então comparar os tormentos degradantes que sofreram com os tratamentos aprovados e autorizados pelo presidente Bush e o Congresso. Serão tão diferentes assim?

Escorregamos ladeira abaixo. As distinções mais sofisticadas que fazemos hoje na guerra contra o terror - entre o império da lei e circunstâncias "excepcionais", entre cidadãos e não-cidadãos, aos quais tudo pode ser feito; entre as pessoas normais e os "terroristas"; entre "nós" e "eles" - não são novas. Todas foram invocadas ao longo do século XX. São as mesmíssimas distinções que autorizaram os piores horrores do passado recente: campos de internação, deportação, tortura e assassínio - os crimes em resposta aos quais sempre murmuramos "nunca mais". Então, o que julgamos ter aprendido com o passado? De que serve o nosso culto moralista da memória e dos memoriais?

FONTE: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=687&pag=5