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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Discurso e sentido

“Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro!”
DOSTOIÉVSKI - Crime e Castigo
A cada dia que passa, convenço-me mais e mais de que apenas “papagueamos” boa parte dos discursos que pronunciamos. Não porque sejam discursos já ditos e repetidos, mas porque no fundo, não fazem sentido verdadeiramente para nós. E eu digo “nós”, pois enxergo isso o tempo todo ao meu redor. Explicarei o que entendo deste recorte de idéias e de onde o retirei.
Sentido englobaria os conceitos  e apreensões discursivas que inerentemente se ligariam à nossa vida e às nossas experiências, a capacidade em entender algo e/ou se colocar na  situação dita entendida, ou ainda, no papel – social - dito entendido. Estaria então no âmbito dos enunciados e da sua consequente (ou seria inerente?) classificação de mundo. Seria assim, o que vai além das relações sêmanticas e pragmáticas: contemplaria o ideológico, o sentido em sua condição de sentimento, a literalidade de sentirmos os discursos que nos tocam.
Em minhas aulas de Metodologia de Lingüística, o professor Valdir Barzotto nos colocou a reflexão sobre a tão discutida e batida questão das variantes linguísticas. O que ele nos apontou foi o fato de que os sociolinguístas em boa parte de seus textos empenham discursos de “abaixo ao preconceito língüístico” ,  promovem a idéia de que todas as variantes são importantes, mesmo as mais desvalorizadas socialmente. Contudo,  ao mesmo tempo em que “papagueiam” esses discursos, fazem-no na mais rebuscada e complexa NORMA CULTA DA LINGUA. Alguns diriam que o fazem assim em razão das regras sociais que infligem ao gênero científico a utilização da norma culta como pressuposto de legitimidade. Okay. Mas que outra maneira de legitimar uma norma línguística senão pelo uso? 
Sexta-feira passada, em minha aula de Didática, a professora nos trouxe o documentário “Heliopólis, bairro educador”, do diretor André Ferezini, sobre a EMEF Presidente Campos Salles, na favela de Heliopolis. Nele, é retratado como a própria comunidade  ajudou e participa ativamente no desenvolvimento e realização do projeto pedagógico da escola.  A iniciativa começou com a mudança de postura e visão pedagogica em relação à cultuta escolar tradicional, do diretor Braz (ver dados do documentário no link). Para obter o sucesso que hoje tem o projeto e que é que me importa aqui, foi a necessidade de deslocamento de pressuposto das pessoas daquela escola e, como pude constatar àquele momento, nunca havia feito SENTIDO para mim realmente: a voz e contribuição daquela comunidade como conteúdo de caráter valorativo. O diretor junto com as lideranças locais e os pais das crianças construiram um projeto pedagógico JUNTOS. A postura que realmente me chamou atenção foi a de que o objetivo do ensino àquelas crianças não é que saiam da favela para “algo melhor”: e sim, que lá fiquem e modifiquem o seu local de origem, politicamente. Um movimento exatamente contrário ao que eu fiz: assim que passei a fazer parte do ambiente social privilegiado financeiramente ao de minha origem, construi um projeto de vida de mudança e negação da cultura e mesmo do local de onde eu vim. Para tanto, desenvolvi e, não serei hipócrita, desenvolvo os mais diferentes argumentos. Mas ao assistir o documentário, não pude calar uma pergunta incômoda que ainda agora me gera certo mal-estar: qual é a  cultura do local de onde vim?
Alguns mais sarcásticos poderiam responder: a cultura do churrasco de final de semana e da adolescente com cabelo molhado pingando a creme de tratamento capilar e calça jeans de lycra apertada. Talvez. Mas por algum motivo, também não consigo engolir o discurso polido e envernizado do “pessoalzinho do Espaço Unibanco”. Não que eu não frequente o lugar. Mas realmente não é essa a cultura que me apetece. É como se eu fosse uma “aculturada”, desajustada pela cultura que acolhi artificialmente e pela que também nego tão simuladamente quanto a tento recuperar.
A partir daí, desde livre associação até a rememoração dos acontecimentos que ando a verificar no lugar onde vivo, a USP, não pude deixar de associar essa minha posição demagoga à toda demagogia que desde que entrei à Academia presencio, tanto no discurso dos alunos, quanto dos docentes, e, inclusive, de maneira grosseira, embora, não sejam as aparições grosseiras o que anda a me incomodar.
De alguma maneira, supeito que tal demagogia é sustentada pela modalidade “sarcasmo desnecessário”, ou ainda “sarcasmo em cima do muro” que coloca fogo em tudo e, deste modo, esconde o que realmente veicula. Creio que posturas duramente críticas em nível de sarcasmo sejam necessárias. Por outro lado, o exagero com que muitas vezes é utilizado incomoda-me muito. Uma acidez desnessária que, sagasmente tenta dissimular o quê traz consigo:  uma posição confortável e hipócrita de "sei o que acontece, mas não tenho nada a ver com isso". Como se sob este patamar, pudessem manter-se em amoralidade. Porém, nunca revelar o que se pensa não é, no fundo, de um moralismo medonho? Direi o porque desse mote, inspiração deste texto.
Freqüentemente ando pela Faculdade de História da USP e o que eu vejo não é bonito. Eu vejo fascismo, eu vejo posturas legalistas alienadas, eu vejo machismo, eu vejo moralismo sexual, eu vejo os mais diversos totalitarismos ideológicos. Eu ando pela Faculdade de Letras da USP e vejo preconceito lingüístco, eu vejo despotismo, eu vejo deslumbramento barato, eu vejo fetichismos demagogos. Eu convivo com gente da filosofia e as descrições feitas por eles são de um ambiente de irresponsabilidade pedogógica por parte dos docentes, narcisismo e elitísmo que não faz o menor sentido em um país de terceiro mundo - para não dizer ridículo. Aliás, elitismo, eis o que eu vejo em toda a USP, sob as mais variadas nuances. Conforme o contexto, um tipo de discurso. Se o ambiente é a aula, o discurso do politicamente correto (seja lá o que isso for). Se o ambiente é o bar, o individuo saca seu melhor sarcasmo, o do politicamente incorreto (que não há como errar). Já nas relações familiares, o  discurso utilizado é o do senso comum ou, simplesmente, o SILÊNCIO. Aliás, “sentido” , definido nos moldes como descrevi  na abertura deste texto, para os enunciadores do “sarcasmo em cima do muro”, realmente, mora em seu silêncio.  O silêncio dos formadores de opinião, da “nata intelectual da sociedade”.
O engraçado é que há qualidade de silêncios. O silêncio da classe média geralmente é classificado com o rótulo da tolerância.Muito diferente do silêncio dos alienados e alienadas do suburbio. Aqueles cuja cultura é fazer churrasco e andar de calça jeans de lycra dita vulgar . De onde virão os futuros professores de humanas (curso fácil de passar no vestibular, ou ainda o mais barato de pagar) ressentidos.  Os futuros classe média resignados. Ou, “como sempre”, os “futuros bandidos”, serventes de pedreiro, atendentes, prostitutas... Os futuros “sem futuro” do país.  Muito diverso do “silêncio puro” de simulação da tolerancia, da ideologia do amoralismo,  da rigidez do politicamente correto e do politicamente incorreto: a ideologia do acolhimento axiologico. 
Por estes dias, eu discutia com uma amiga sobre a questão das minorias. Ela argumentava que não concordava com linhas teóricas multiculturalistas em que se exalta o “poder” político de movimentos de resistencia de minorias sociais. O que ela colocou, resumidamente, é que esses movimentos estão dentro do sistema capitalista e como tais, servem apenas para “alivio de consciencia” do discurso capitalista, atenuantes com o único propósito de calar esses agentes. Diante dos argumentos, questionei o que essas “minorias” farão “enquanto Seu Lobo não vem”? Mas ao final da discussão tive de admitir que do que ela colocava, havia algo realmente em que não apenas tinha razão, mas também preocupava a mim: nós não vivemos em uma época de acolhimento axiologico, mas de conceção axiologica. Um exemplo disso foi o que minha professora de Análise do Discurso descreveu de sua participação em uma banca sobre uma dissertação que tratava dos discursos de mães de homossexuais. A dissertação defendia que os discursos dessas mães era de acolhimento axiologico ao que Norma rebateu que não. Nos relatos análisados pela dissertação, as mães dizem que amam o filho APESAR de ele ser homossexual e não que o ama PORQUE ele é homossexual. Foi a utilização continua de concessivos a que Norma se apagou para rebater o argumento de acolhimento defendido pela dissertação.  O que se via nos relatos dessas mães eram relatos de conceção axiologica, nunca de acolhimento. Em meu caso as pessoas me amam APESAR de ter deficiencia física e APESAR ser mãe solteira. Poucas são as que me amam sem despadaçar a minha vida em compartimentos.   Poucas são as pessoas que me amam enquanto sujeito de minha própria existencia e não como a frustração resignada de suas idealizações. Cada um deve passar por situações semelhantes em maior ou menor grau, então, atualizem a questão suas vidas como quiserem. O resumo da ópera é um “papagueamento” de tolerância, de cultura, de senso crítico...
Não é de hoje que as questões “o que é sentido?” e “porque pessoas com tantas e tão boas leituras seriam tão demagogas? ” parecem estar intimamente ligadas. E nas últimas semanas para minha tranquilidade, vi que essa é uma discussão que já vem de muito nas discussões teóricas e é uma das principais pautas das discussões dos pedagogos e sociólogos que lidam com Educação. No texto de Adorno, Educação e Emancipação, texto pós-nazismo, a preocupação com uma educação essencialmente entrelaçada a um sentido, em caráter subjetivo é a direção central da reflexão.  Deleuze em o Anti-Édipo, também sob a sombra dos acontecimentos que ocorreram durante o nazismo,  ressalta a importância em estudármos os mecanismos e discursos que levaram um povo de cultura tida como predominante letrada e de apreciação da reflexão filosófica, como era a Alemã, a concepção de uma ideologia que desencadeou as práticas realizadas durante o Nazismo.  Bernard Charlot, filosofo da área de Educação, tem sua pesquisa exatamente sob a reflexão que iniciei aqui: a relação com o saber. O que ele coloca em sua pesquisa é a necessidade em se interpretar o saber como a manifestação, como modus operanti, de um sujeito desejante e não o objeto do desejo desse sujeito. Antonio Candido ao discutir o que seria “Compreensão” sob o ponto de vista da teoria hermenêutica nos traz que compreender algo é entender o que o discurso diz e ligar tal conhecimento à sua experiência de vida.  Nesta perspectiva, a abertura deste texto poderia ser apenas uma repetição vazia de algo já colocado por Antonio Candido. Mas a minha posição caminha ainda para o radicalismo da relação compreensão/história de vida do enunciatário. Com relação a Charlot, conheci o seu trabalho por força do destino quando já havia escrito mais da metade deste texto.Um outro autor o qual impregna as idéias desta minha materialização de “minhocações”  é Backtin, com as leituras que fiz de Marxismo e Filosofia da Linguagem, e, Dialogismo e Polifonia. Neles o autor me trouxe que temos como caráter inerente da linguagem as relações dialogicas que estabelece com outros textos e a ideologia como condição sine que non do signo lingüístico enquanto conceito que se refere ao que é constituído de SENTIDO.  Com base no que Backhtin e Antonio Candido dizem é que olho esses “ruidos de linguagem” e me convenço de que talvez,  sentido e senso crítico, como almejamos através da erudição de nossas leituras e aulas, estariam em relação de indissociação e o último só teria razão de ser enquanto apreensão profunda, completa, enquanto o que a hermeneutica classifica como “compreensão”,   e não apenas como prática técnica de reprodução do arquétipo discurso acadêmico.  Claudemir Belintane (2005), linguísta e professor da Faculdade de Educação,  tratou em seu texto, Matrizes e matizes do oral, na Revista Doxa, rapidamente em um dos trechos de seu artigo sobre o que de alguma forma eu tento apalpar nesta minha especulação:
Falar é falar-se, como diz Kristeva (1988 p.19) mas “falar-se” não apenas por que se domina um código e uma interlocução objetiva, da qual se pode deduzir um suposto conteúdo habitual e ali entrever um sujeito lógico especularizado. O “fala-se” que faz diferença suficiente é o que se enlaça às ambiguidades de uma herança primaria, desejante, que demanda do outro amor e sentidos – sentidos para além da compreensão objetiva, que ultrapassam a dimensão consensual da correlação significado/ significante. (BELINTANE, 2005)
O processo inverso do fetiche cientificista que passamos na Acadêmia.
E não é preciso ir longe para falar sobre fetiche cientificista. O  departamento de Linguística, por exemplo, se tornou o departamento de Gerativa. O que está fora disso é inclusive ironizado como “não-linguística”. “Análise do Discurso não é Linguística!” é o que sempre ouço  entre risos dos colegas da Gerativa. E isso porque não é considerado “cientifico”. Estamos no alge do tecnicismo. O que fugir a ideologia da argumentação dita lógica, cartesiana, legalista não terá legitimidade ou adquirirá qualidades pejorativas.
Dentro desse quadro, como falar em sentido como uma atualização dos discursos que temos contato, “do outro que nos atravessa” pela atualização subjetiva por deslocamentos e pulverizações de nossos arquedestinadores e arquedestinatários (imagens sociais de nós e de nossos interlocutores e que moram dentro de nós)? E se a história só fizesse sentido se for atualizada em nossa vida e,  para o resto, fossemos apenas uma espécie complexa de analfabetos funcionais?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Déjà vu?



*Hoje amanheceu nublado e fui até o aeroporto ver aviões decolando. Agora, ao entardecer, tenho sol nos cabelos e uma estúpida piedade daqueles que partiram cedo demais.

Chove lá fora e hoje poderia ser mais um daqueles dias chuvosos sem nenhuma grande importância. Mas a mim soou diferente...

Acordei ao milionésimo chamado do celular. Devo o ter colocado em opção soneca uma centena de vezes. Não lembro. Meu corpo já faz coisas por mim que às vezes me toma mesmo o leme das ações. As horas já se vestiam em seu costumeiro traje de atraso, mas as vértebras de minhas idéias ainda doíam do sono que exigia sua finalização. Talvez eu sonhe demais e por isso sinta tanto sono: sonhos gulosos que não se cansam de sonharem-se. Uma vitória: cheguei ao chuveiro e sem roupa ainda de olhos fechados. Ao voltar do banho, a mudança: num estalar do instante, meus sentimentos, embaralhados pelo sono interrompido, parece terem se perdido nos labirintos de minha memória e, confusos, retomaram o paladar de um mundo que já não é.

Por um balançar de realidade o cinza do dia, perdeu o lugar das horas.  Não sabia se era o entardecer, ou o amanhecer de horas antes, mesmo tendo conferido algumas vezes no celular. A iluminação do quarto, o cheiro das coisas. Sim, o mundo exala. Mesmo quando não mais percebemos. Há alguns anos atrás tive de fazer uma cirurgia e por complicações na recuperação me ausentei do CRUSP  por alguns meses a mais do que houvera previsto. Quando retornei da casa de minha mãe  ao meu apartamento na USP, a primeira coisa que reconheci ao abrir da porta foi o cheiro, o cheiro daquele lugar. À época do falecimento de meu pai, sentia seu cheiro em tudo. Como se não conseguisse descolar a apreensão do mundo ao gosto da perda daquela existência. Os talheres tinham seu cheiro. Até a água do chuveiro!  Por meses o quarto em que dormia me parecia infestado de sua presença. Ou de sua ausência...Ou de ambos...   

Assim, mesmo o mundo me pareceu transpirar em novo ritmo a partir de meu retorno ao quarto. Devo dizer que é realmente uma sensação que de tão estranha, descola-se de qualquer ensaio de real. A rememorização não de fatos passados, mas de sentimentos passados. Sentir o sentimento de dias que já se foram e que, embora tenham sidos meus, não mais me pertence. A estranha consciência de que mudei por uma súbita experimentação nostálgica de sentimentos e rotinas que já se foram. Acabei por vestir uma roupa que há muito não usava e em decorrência da chuva e do atraso, a me enfiar em táxi rumo a Berrine. Dentro do carro me lembrei de meu primeiro mês de trabalho na antiga empresa em que trabalhei, dias de chuva como o de hoje e em que costumava ir de táxi.

Uma pequena  pista finalmente!O paradeiro cronológico das  sensações retomadas. Hoje senti o mundo em duplicidade. Ao mesmo tempo sou a Yara de hoje e a nostalgia da Yara que já morreu, a Yara de cinco anos atrás.

Ontem, ao andar pelo shopping Eldorado, finalmente encontrei a lâmpada adequada à luminária de meu quarto. Faz uns cinco anos que a tenho. Mas há uns dois anos a sua lâmpada queimou e eu segui em deixar a troca deste item para depois. Para depois... Sempre para depois.

Talvez tenha sido a luminária. Talvez tenha sido a chuva. Talvez tenha sido o sono. Ou o entrelaçamento desses três.

Quem sabe um déjà vu anômalo, nostálgico? Às vezes desconfio de que o normal não me pertence...rsrsrs!    

Excerto retirado do blog Análise Publica: frase do dia. http://analisepublica.blogspot.com/2006/05/frase-do-dia_25.html    

Fonte da imagem: http://diarionaooficial.blogspot.com/2008_01_01_archive.html

Musica inspiradora (o que ouvia enquanto escrevia todos esses disparates):

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Crescer dói

Eu sei que não é a primeira vez que digo isso, mas como a maioria dos seres humanos, eu também sou repetitiva. Repito as piadas, dramatizo onde talvez nem haja tanto drama. Mas, sabe o que é? É que só tenho vinte e quatro anos e a impressão que tenho é a de que já tenho que escolher quase vida inteira. Daí os ombros pesam e o medo do passo em falso me faz sofrer de véspera. Ainda mais quando não se está só. Quando se atravessa a vida segurando a mão de alguém que tanto ama. Desculpa, mas hoje serei clichê.

Há alguns minutos atrás soube que terei de escolher entre a Academia ou o meu emprego. E isso é muito mais do que só isso. A vida acadêmica é algo muito além de meu Mestrado: é também a minha casa, a escola do meu filho, a minha independência... E o meu trabalho? O ganha pão, a chance de ter um salário decente e a segurança de não ter de depender da mesquinharia das retribuições da Universidade: a bolsa de estudos de fome (quando eles dão, né?), a intromissão da Coseas em nossa vida e a insegurança de um futuro sem dinheiro, sem convenio médico, sem INSS, sem casa, sem carro, sem escolha.

Citar o quesito dinheiro na Academia é pecado, não é? (risos secos!). E o aspirante a intelectual ou tem de nascer em berço de ouro, ou fazer fotossíntese (nem mesmo risos secos). Gritaria à parte, apenas para dizer que a vida, muitas vezes, nos coloca escolhas cujos critérios estão lá em baixo, na escolha do prato de comida, no teto para morar, no grau de dependência que se quer ter, ao res do chão. Bem mais feio do que o discurso de amor ao conhecimento que se divulga por aí. A escolha entre um modo de vida pautado pelo cinismo ou pela ironia. I don´t know... I don´t know...    

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Bora prosear?

Quando entrei no curso de Letras e iniciei os meus estudos em teoria literária, uma das primeiras coisas que aprendi é que o “como” eu digo um conteúdo já carrega em si o significado deste. A estrutura de uma idéia já é ela mesma uma idéia. Se isso fosse um texto acadêmico quem sabe eu tivesse de definir a partir desse ponto os pressupostos que abrem essa reflexão, como, qual é a minha concepção de idéia, de estrutura textual etc.

Mas para tanto, eu teria de fazer deste texto, um artigo acadêmico o que não é o meu propósito. O que aqui tentarei defender através do relato do que considero um grande defeito meu, e na cola do texto da Tiburi, “Conversar é uma forma de amar”, é o completo desleixo como estabeleço contato com as pessoas.   

Apesar de o conceito de “entrar na bolha” ter sido cunhado há pouco tempo por meus amigos da Lingüística, já não é de agora que moro em minha redoma de vidro. Há um tempo atrás, coloquei em um de meus relatos a minha terrível mania em esconder o que sinto e o que sei, me desqualificando em um “achismo” que enclausurava (ou ainda enclausura?) os meus quereres e, principalmente, os meus saberes, dentro do rótulo da mediocridade. Pois bem, desta vez partirei de uma outra perspectiva: quando eu esqueço de meu aprendizado de início de curso e irresponsavelmente faço uso de minhas palavras e de meu silêncio. O aborto do saber alheio por meio de minha intolerância.

O que dá a coerência e que conduzirá os argumentos nesse rascunho de reflexão é o destaque que faço ao modus operante de minha intolerância: o “como” materializo o incômodo das idéias alheias. Ora, ora! Colocado assim, parece uma contradição. Poderia pensar inclusive em um agravamento da idéia que já havia colocado em meu texto anterior: não digo o que sei, por pensar que nada sei e não ouço o que me dizem por também pensar que ninguém mais saiba! Mas veja: se eu subir só mais um grau na barra da discussão, quem sabe, não o seja. O que gostaria de apontar é a falta de reflexão e a intolerância como legitimo o conteúdo e o modo dos discursos “aceitáveis” e, consequentemente, as pessoas que produzem esses discursos. 

Houve dois fatos que me fizeram parar para pensar em minha “deslexia” em construir diálogos. O primeiro: observar pessoas que sabem conversar. Quais seriam? Irei apontar duas: minha tia Railda e meu amigo Renilson. Sabe por que os escolhi? Porque quando dialogam, prestam atenção no que o outro diz e mesmo que o seu interlocutor esteja a falar a maior das bobozeiras, sabem aproveitar o assunto para algo interessante. Por que sabem contar histórias e não precisam estar a todo o momento fazendo análises sociológicas, psicológicas e outros “ógicas” que existam por aí. Não defendo aqui a passividade como o caminho para a construção de boas relações e de bons diálogos. Não é isso. Mas partirei do seguinte principio: não temos mais paciência de conversar. Creio que aprendemos novas formas de conversa, mas, ou a restringimos ao exercício solitário e impessoal da leitura e da escrita, seja em blogs ou salas de bate-papo, ou a um exercício analítico em que exclusivamente postulamos valores ou exercitamos nossa vaidade retórica. O segundo fato e que foi decisivo: o teor combativo como TRAVO conversa (sim, porque minhas falas parecem as realizadas em uma guerra, ou uma arena) com algumas das pessoas que dialogo. É a impressão cada vez nítida da nossa (sim, pois percebo que não é uma característica que se restringe a mim!) falta de interesse com em ouvir e contribuir com o que as pessoas têm a nos contar o que me trouxe de volta a esse espaço.

E se eu começasse uma fala assim: quando eu era pequena, morava em um bairro da zona Leste de São Paulo, chamado São Miguel Paulista. Lá, estudei em uma escola pertinho de casa, o Carlos Gomes, há duas quadras de casa de mamãe. Àquela época, não havia tele transporte e tinha de ir a pé para a escola, com meu tênis all star azul e meu uniforme preto, com uma listra em vinho...? Como meu ouvinte reagiria? Provavelmente, com um “hum hum” bem educado e um enfastio enorme em seu interior. Mas é esse mesmo interlocutor quem vai a um blog ler por horas a rotina do primeiro estranho aparentemente interessante que o google o indique na internet. Isso porque nos relacionamos não com outras pessoas, volúveis, mutantes, defeituosas e cujas qualidades estão dissolvidas na rotina. Relacionamos-nos com pressupostos. Pressupostos fixos, o que é ainda pior. O outro é. E se gosta de mim, é como eu, ou o que eu gostaria que fosse. Se não, é o que é e sempre será: alguém que essencialmente por já ser o que eu não gosto que seja, obviamente, não poderá ter nada a dizer que não seja merda.  Ora! E ainda complemento o raciocínio: mas nem era preciso falar, era óbvio!!! Além disso, carrego na manga a desculpa para aqueles momentos em que a consciência resolve doer: eu gostaria de ter dado mais atenção, mas será que não entendem que EU não tinha tempo?! 

Ok, ok! Uma fala descontextualizada pode ser tão inútil quanto um noticiário de páginas da secção policial. E, além do que, poder-se-ia argumentar que vivemos na sociedade da fofoca. Mas não é a esse tipo de preenchimento de palavras a que me refiro. A minha reflexão visa criticar as obviedades não óbvias que pressupomos em nossa bolha de egoísmo, a preguiça em explicar, a impaciência em ouvir, o silêncio de corpos que foram feitos para se comunicarem, para DIALOGAREM, ou mesmo, aquelas conversas vazias, preenchimento inútil dos silêncios necessários, características que permeiam e emolduram diversas das relações afetivas que conheço, inclusive, as minhas relações.

Por apostar demais em uma certeza, ou pelo medo em invadir um espaço que, por infantilidade, atribuímos restritamente ao nosso interlocutor, abafamos de nossas idéias com uma agressividade que consideramos legitima a voz de muitas das pessoas que mantemos (ou deveríamos manter) DIálogo. Silencio o outro dentro de meu próprio silêncio, em minha desatenção e em meu esquecimento. Desqualifico opiniões que me desagradam e, nem ao menos, me dou ao trabalho de separar o joio do trigo.

A conseqüência (ou seria a causa?), creio, esteja no desrespeito à história de vida que cada um carrega no bojo de sua existência, da história de seus pressupostos, o desrespeito às pessoas que o influenciaram, muitas vezes por amor, a completa desqualificação do processo de formação de sua moral.

O que eu penso ser um grande defeito meu, mas não somente meu é a desatenção com que digerimos as experiências alheias e as nossas experiências. Quem sabe ainda precisemos aprender com os mais velhos, os da época de minha avó, que agachavam em frente à porta para trocar um dedinho de prosa. Simplesmente. Sem sublimação e teatralização teórica. Simplesmente uma boa prosa...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A crise do capitalismo e a importância atual de Marx

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Marcello Musto - Sin Permiso

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: "Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista".
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da Revolução: Europa 1789-1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas. Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro "Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later" (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).

Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do "marxismo-leninismo", não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: "O pensador do terceiro milênio?". Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de "relevância atual". Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título "Ein Gespenst Kehrt zurük" (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa "In Our Time" da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, "são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx" e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: "Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz". Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova "demanda de Marx", do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.
Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da "sociedade burguesa", cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.
A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados "novos movimentos sociais", como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o "proletariado", dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.
Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.
As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer "retorno a Marx" será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias "socialistas" foram organizadas sob o chamado "socialismo realmente existente". Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de "O Capital". Como mostram os "Grundrisse", aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os "Grundrisse". Escritos entre 1857 e 1858, os "Grundrisse" são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no "Capital", como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: "Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos "Grundrisse", menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev". Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os "Grundrisse" "trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na "Ideologia Alemã". Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos "Grundrisse" hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.


Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer

Recebi o texto por e-mail, mas a fonte é: Site da Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15253&boletim_id=461&componente_id=8222

Ver original em: http://www.sinpermiso.info/


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Por uma história da preguiça

A história do sonho ainda está por escrever-se.

Walter Benjamin

"Ai, que preguiça!".

Em Macunaíma, do Mario de Andrade.

Traria a felicidade, a esterilidade das palavras? E por essa dúvida finalmente as minhocas de minha cabeça se agitaram para a produção deste amontoado de idéias organizadas, ou ainda, texto. Racionalmente, eu responderia: não. Um ‘Não’ cujo respaldo é o ceticismo que carrego em relação ao conceito romântico de amor=dor, ou ainda, beleza=dor (dor que vem da vida e não a dor da incompreensão defendida por Kant, ao descrever o conceito de Sublime). Talvez por que realmente a vida possa ser tão melhor à ficção, eu não esteja conseguindo desamarrar as lembranças de quando a linguagem era a mim mais do que um intermédio. Vamos lá! Uma paráfrase do que ouvi por esses dias: eu havia ido morar nas palavras (filósofa Viviane Mosé). As feridas cicatrizaram devo dizer. Certos coágulos, porém, são irreversíveis. Agora que voltei, não consigo separar as idéias fruto dessa morada temporária, da outra: as idéias que carrego nas palavras que vivem em mim. Fora da linguagem, distraída com a vida (que é e deve ser o nosso fim último), me entreguei a uma preguiça, preguiça das idéias. Idéias que agora festejam; em silêncio... Mudas. Espere!  Espere um pouco. Antes de continuar, um aviso: eu comprei tudo isso. Sim, essa teoria de que o homem contemporâneo foi morar na linguagem e se esqueceu da vida, não é mais um deslumbramento das minhocas que por esta cabecinha se agitam. Até porque, não é pelo fato de eu ter aderido a essas idéias que elas sejam ruins. Apenas é que tenho necessidade de explicações. E por que o silêncio seja algo tão difícil de explicar e, paradoxalmente, grite tão alto, eu precisei de uma ajudinha... hum... extra. Mas vejamos...

Se eu fosse boa usuária da retórica, é bem provável que eu tivesse de ter começado este texto por seus contra-argumentos. Todavia, enquanto sofista e, das mais vagabundas, farei tudo a meu bel prazer. Prazer esse que, inclusive, me paralisa. O mundo continua uma droga, sinto dizer. Não é isso. Puritanos na Itália, corruptos no Brasil, xenófobos na Europa, machistas nos vizinhos, xeretas na portaria, vermelho na conta bancária. Mas é que, de repente, tudo isso passou e me desinteressar com grande força. Poderíamos levantar aqui também a questão do individual versus o coletivo. Ou que cansada de gritar a gente surda, desisti do mundo. Não de TODO o mundo. Porém, mantenho minha atenção apenas ao que me interessa. Um leitor mais atento, no entanto, perceberá que estou sendo contraditória. Saio da ficção para finalmente aportar na vida e ao mesmo tempo estou fora do mundo no qual essa mesma vida se faz vivência?! Eu sou um serzinho que seleciona. Aí, quem sabe, a contradição aí poderia ser resolvida: talvez seja mais fácil sermos críticos com aquilo que nos incomoda. Qual a necessidade em sermos críticos com aquilo que nos apraz? Eu sei que há, espere aí! Mas, em que medida, não reside exatamente aí, um de nossos pontos cegos? Seria a preguiça a dor de cabeça da felicidade? Ou apenas o medo de que ela acabe a qualquer momento?  Um efeito colateral de nosso desejo impossível em querer parar o tempo e congelar a vida, de modo a somente vivenciarmos os momentos de prazer! Morar em um pedaço de realidade e silenciar qualquer palavra que possa modificá-la. O silêncio da palavra que se confundiu com a morte da idéia. As idéias que, por saberem de sua força, têm medo de, em se corporificarem, modificarem a realidade. Como se o que fosse bom, necessariamente tivesse de ser estável. Uma vontade irresistível de suspensão do tempo. Oras! Mas o prazer também se manifesta (e talvez SÓ se manifeste) naquilo que é diverso! Até porque, como seria possível estar na vida e ao mesmo tempo querer pará-la? Seria a preguiça um erro conceitual?

Quem sabe, eu só precise argumentar isso com as minhas idéias. Bem... Bem... E como descrever com palavras à palavras as coisas que moram dentro de nosso silêncio? Ai... ai... Que preguiiiiiiiiiça... Parei!

 

Texto publicado também em www.locusdelokos.blogspot.com

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Sexo, poder e a política da identidade (Michael Foulcault)

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Você sugere em seus livros que a liberação sexual não está tanto em colocar em jogo as verdades secretas sobre si mesmo ou sobre seu desejo do que em um elemento do processo de definição e construção do desejo. Quais são as implicações práticas desta distinção?
O que eu gostaria de dizer é que, em minha opinião, o movimento homossexual tem mais necessidade hoje de uma arte de viver do que de uma ciência ou um conhecimento científico (ou pseudocientífico) do que é a sexualidade. A sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. A sexualidade é algo que nós mesmos criamos - ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa.

É, no fundo, a conclusão à qual você chega quando diz que devemos tentar tornar-nos gays e não nos contentar em reafirmar nossa identidade de gays.
Sim, é isto. Nós não devemos descobrir que somos homossexuais.

Nem descobrir o que isto queira dizer?
Exatamente, nós devemos, antes, criar um modo de vida gay. Um tornar-se gay.

E é algo sem limites?
Sim, claramente. Quando examinamos as diferentes maneiras pelas quais as pessoas têm vivenciado sua liberdade sexual - a maneira que elas têm criado suas obras de arte -, forçosamente constatamos que a sexualidade tal qual a conhecemos hoje torna-se uma das fontes mais produtivas de nossa sociedade e de nosso ser. Eu penso que deveríamos compreender a sexualidade em um outro sentido: o mundo considera que a sexualidade constitui o segredo da vida cultural criadora; ela é mais um processo que se inscreve, para nós hoje, na necessidade de criar uma nova vida cultural, sob a condução de nossas escolhas sexuais.

Na prática, uma das conseqüências dessa tentativa de colocar em jogo o segredo é que o movimento homossexual não foi mais longe do que a reivindicação de direitos civis ou humanos relativos à sexualidade. Isso quer dizer que a liberação sexual tem se limitado ao nível de uma exigência de tolerância sexual.
Sim, mas é um aspecto que é preciso afirmar. É importante, de início, para um indivíduo ter a possibilidade - e o direito - de escolher a sua sexualidade. Os direitos do indivíduo no que diz respeito à sexualidade são importantes, e mais ainda os lugares onde não são respeitados. É preciso, neste momento, não considerar como resolvidos estes problemas. Desde o início dos anos sessenta, se produziu um verdadeiro processo de liberação. Este processo foi muito benéfico no que diz respeito situações relativas às mentalidades, mas a situação não está definitivamente estabilizada. Nós devemos ainda dar um passo adiante, penso eu. Eu acredito que um dos fatores de estabilização será a criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais, éticas e políticas. Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.

Muitas coisas no que você diz lembram, por exemplo, as tentativas do movimento feminista, que deseja criar sua própria linguagem e sua própria cultura.
Sim, mas eu não estou seguro de que nós devamos criar nossa própria cultura. Nós devemos criar uma cultura. Devemos realizar criações culturais. Mas aí, devemos nos embater com o problema da identidade. Desconheço o que faríamos para produzir essas criações e desconheço quais formas essas criações tomariam. Por exemplo, eu não estou de todo certo de que a melhor forma de criação literária que possa atingir aos homossexuais sejam os romances homossexuais.

De fato, nós mesmos não concordaríamos em dizer isso. Seria partir de um essencialismo que nos devemos precisamente evitar.
É verdade. O que se entende, por exemplo, por "pintura gay"? E, entretanto, eu estou certo que a partir de nossas escolhas sexuais, a partir de nossas escolhas éticas podemos criar algo que tenha uma certa relação com a homossexualidade. Mas esta coisa não deve ser uma tradução da homossexualidade no domínio da música, da pintura - o que sei eu, novamente? - que penso não ser possível.

Como você vê a extraordinária proliferação, depois dos últimos dez ou quinze anos, das práticas homossexuais masculinas, a sensualização, se você prefere, de certas partes até então negligenciadas do corpo e a expressão de novos desejos? Eu penso, é claro, nas características mais surpreendentes daquilo que chamamos filmes gueto-pornôs, os clubes de S/M [sadomasoquismo] ou de fistfucking. É isto uma simples extensão, em uma outra esfera, da proliferação geral dos discursos sexuais depois do séc. XIX, ou antes se tratam de desenvolvimentos de outro tipo, próprios do contexto histórico atual?
De fato, o que gostaríamos de falar aqui é precisamente, penso, das inovações que implicam essas práticas. Consideramos, por exemplo, a "sub-cultura S/M", para retomar uma expressão cara a nossa amiga Gayle Rubin1. Eu não penso que o movimento das práticas sexuais tenha a ver com colocar em jogo a descoberta de tendências sado-masoquistas profundamente escondidas em nosso inconsciente. Eu penso que o S/M é muito mais que isso, é a criação real de novas possibilidades de prazer, que não se tinha imaginado anteriormente. A idéia de que o S/M é ligado com uma violência profunda e que essa prática é um meio de liberar essa violência, de dar vazão à agressão é uma idéia estúpida. Sabemos muito bem que essas pessoas não são agressivas; que elas inventam novas possibilidades de prazer utilizando certas partes estranhas do corpo - erotizando o corpo. Eu penso que temos uma forma de criação, de empreendimento de criatividade, dos quais a principal característica é o que chamo de dessexualização do prazer. A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso. O que essas práticas de S/M nos mostram é que nós podemos produzir prazer a partir dos objetos mais estranhos, utilizando certas partes estanhas do corpo, nas situações mais inabituais, etc.

A assimilação do prazer ao sexo é, então, ultrapassada.
É exatamente isso. A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É ai que se limita, me parece, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. O que me frustra, por exemplo, que se considere sempre o problema das drogas exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. Penso que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura.

Enquanto fonte de prazer?
Enquanto fonte de prazer. Devemos estudar as drogas. Devemos experimentar as drogas. Devemos fabricas boas drogas - capazes de produzir um prazer muito intenso. O puritanismo, que coloca o problema das drogas - um puritanismo que implica o que se deve estar contra ou a favor - é uma atitude errônea. As drogas já fazem parte de nossa cultura. Da mesma forma que há boa música e má música, há boas e más drogas. E então, da mesma forma que não podemos dizer somos "contra" a música, não podemos dizer que somos "contra" as drogas.

O objetivo é testar o prazer e suas possibilidades.
Sim. O prazer também deve fazer parte de nossa cultura. É muito interessante notar, por exemplo, que depois de séculos as pessoas em geral - mas também os médicos, os psiquiatras e mesmo os movimentos de liberação - têm sempre falado do desejo e nunca do prazer. "Nós devemos liberar o nosso desejo", dizem eles. Não! Devemos criar prazeres novos. Então, pode ser que o desejo surja.

É significativo que certas identidades se constituam em torno de novas práticas sexuais tais quais o S/M? Essas identidades favorecem a exploração dessas práticas; elas contribuem também para o direito do indivíduo de entregar-se. Mas elas também não restringem as possibilidades do indivíduo?
Veja bem, se a identidade é apenas um jogo, apenas um procedimento para favorecer relações, relações sociais e as relações de prazer sexual que criem novas amizades, então ela é útil. Mas se a identidade se torna o problema mais importante da existência sexual, se as pessoas pensam que elas devem "desvendar" sua "identidade própria" e que esta identidade deva tornar-se a lei, o princípio, o código de sua existência, se a questão que se coloca continuamente é: "Isso está de acordo com minha identidade?", então eu penso que fizeram um retorno a uma forma de ética muito próxima à da heterossexualidade tradicional. Se devemos nos posicionar em relação à questão da identidade, temos que partir do fato de que somos seres únicos. Mas as relações que devemos estabelecer conosco mesmos não são relações de identidade, elas devem ser antes relações de diferenciação, de criação, de inovação. É muito chato ser sempre o mesmo. Nós não devemos excluir a identidade se é pelo viés desta identidade que as pessoas encontram seu prazer, mas não devemos considerar essa identidade como uma regra ética universal.

Mas até agora a identidade sexual tem sido muito útil politicamente.
Sim, ela tem sido muito útil, mas é uma identidade que nos limita e, penso eu que temos (e podemos ter) o direito de ser livres.

Queremos que algumas de nossas práticas sexuais sejam práticas de resistência no sentido político ou social. Como isso é possível, sendo que a estimulação do prazer pode servir para exercer um controle? Podemos estar seguros de que não haverá exploração desses novos prazeres? Estou pensando na maneira pela qual a publicidade utiliza a estimulação do prazer como um instrumento de controle social.
Não se pode nunca estar seguro de que não haverá exploração. De fato podemos estar seguros de que haverá uma, e que tudo o que se tem criado ou adquirido, todo o terreno que se tem ganhado será, em um momento ou outro, utilizado desta maneira. Parece ser assim na vida, na luta e na história dos homens. E eu não penso que isso seja uma objeção a todos esses movimentos ou a todas essas situações. Porém, você tem razão em assinalar que devemos ser prudentes e conscientes do fato de que devemos seguir a diante, ter também outras necessidades. O gueto S/M de São Francisco é um bom exemplo de uma comunidade que fez a experiência do prazer e que constituiu uma identidade em torno deste prazer. Esta guetização, esta identificação, este processo de exclusão produz efeitos de retorno. Eu não ousaria usar a palavra "dialética", mas não está muito longe disso.

Você escreve que o poder não é somente uma força negativa, mas também uma força produtiva; que o poder está sempre presente; e que onde há poder, há resistência, e que a resistência não é nunca uma posição de exterioridade em relação ao poder. Mas se é assim, como não chegarmos à conclusão de que estamos presos no interior dessa relação e de que não podemos, de uma certa maneira, escapar?
Na realidade, eu não penso que a palavra "presos" seja a palavra justa. Trata-se de uma luta, mas o que quero dizer quando falo de relações de poder é que estamos, uns em relação aos outros, em uma situação estratégica. Por sermos homossexuais, por exemplo, estamos em luta com o governo e o governo em luta conosco. Quando temos negócios com o governo a luta, é claro, não é simétrica, a situação de poder não é a mesma, mas participamos ao mesmo tempo dessa luta. Basta que qualquer um de nós se eleve sobre o outro, e o prolongamento dessa situação pode determinar a conduta a seguir, influenciar a conduta ou a não-conduta de outro. Não somos presos, então. Acontece que estamos sempre de acordo com a situação. O que quero dizer é que temos a possibilidade de mudar a situação, que esta possibilidade existe sempre. Não podemos nos colocar fora da situação, em nenhum lugar estamos livres de toda relação de poder. Eu não quis dizer que somos sempre presos, pelo contrário, que somos sempre livres. Enfim, em poucas palavras, há sempre a possibilidade de mudar as coisas.

A resistência está, então, no interior dessa dinâmica da qual se pode retirá-la?
Sim. Veja que se não há resistência, não há relações de poder. Porque tudo seria simplesmente uma questão de obediência. A partir do momento que o indivíduo está em uma situação de não fazer o que quer, ele deve utilizar as relações de poder. A resistência vem em primeiro lugar, e ela permanece superior a todas as forças do processo, seu efeito obriga a mudarem as relações de poder. Eu penso que o termo "resistência" é a palavra mais importante, a palavra-chave dessa dinâmica.

Politicamente falando, o elemento mais importante pode ser, quando se examina o poder, o fato de que, segundo certas concepções anteriores, "resistir" significa simplesmente dizer não. É somente em termo de negação que se tem conceitualizado a resistência. Tal como você a compreende, entretanto, a resistência não é unicamente uma negação. Ela é um processo de criação. Criar e recriar, transformar a situação, participar ativamente do processo, isso é resistir.
Sim, assim eu definiria as coisas. Dizer não constitui a forma mínima de resistência. Mas, naturalmente, em alguns momentos é muito importante. É preciso dizer não e fazer deste não uma forma decisiva de resistência.

Isso suscita a questão de saber de qual maneira, e em qual medida, um sujeito - ou uma subjetividade - dominado pode criar seu próprio discurso. Na análise tradicional do poder, o elemento onipresente sobre o qual se funda a análise é o discurso dominante, as reações a este discurso ou, no interior desse discurso, apenas os elementos subsidiários. Entretanto, se por "resistência" no seio das relações de poder entendemos mais que uma simples negação, não se pode dizer que certas praticas - o S/M lesbiano, por exemplo - são de fato a maneira na qual sujeitos dominados formulam sua própria linguagem?
De fato. Eu penso que a resistência é um elemento das relações estratégicas nas quais se constitui o poder. A resistência se apóia, na realidade, sobre a situação à qual combate. No movimento homossexual, por exemplo, a definição médica de homossexualidade constituiu-se em um instrumento muito importante para combater a opressão da qual era vítima a homossexualidade no fim do século XIX e início do XX. Esta medicalização, que foi um meio de opressão, tem sido também um instrumento de resistência, já que as pessoas podem dizer: "se somos doentes, então por que nos condenam, nos menosprezam?", etc. É claro que este discurso nos parece hoje bastante ingênuo, mas para a época ele foi muito importante.
Eu diria também, no que diz respeito ao movimento lesbiano, em minha perspectiva, que o fato de que as mulheres tenham sido por séculos e séculos isoladas na sociedade, frustradas, desprezadas de várias maneiras lhes proporcionou uma possibilidade real de constituir uma sociedade, de criar um certo tipo de relação social entre elas, fora de um mundo dominado pelos homens. O livro de Lillian Faderman, Surpassing the Love of Men2, é, a este respeito, muito interessante. Ele levanta uma questão: Que tipo de experiência emocional, que tipo de relações podem ser estabelecidas num mundo onde as mulheres não têm poder social, legal ou político? E Faderman afirma que as mulheres utilizaram esse isolamento e essa ausência de poder.

Se a resistência é o processo que consiste em liberar-se das práticas discursivas, parece que o S/M lesbiano seja uma das práticas que, a uma primeira vista, pode-se declarar mais legitimamente praticas de resistência. Em que medida essas práticas e essas identidades podem ser percebidas como uma contestação ao discurso dominante?
O que me parece interessante, no que diz respeito ao S/M lesbiano é que ele permite se liberar de um certo número de estereótipos da feminilidade que são utilizados no movimento lesbiano - uma estratégia que o movimento lesbiano elaborou no passado. Essa estratégia se funda sobre a opressão de que foram vítimas as lésbicas, e o movimento a utilizou para lutar contra essa opressão. Mas é possível que hoje essas ferramentas, essas armas estejas ultrapassadas. É claro que o S/M lesbiano tenta se liberar de todos os velhos estereótipos da feminilidade, das atitudes de rejeição dos homens, etc.

Em sua opinião, o que se pode aprender a respeito do poder - e além do mais também, o prazer - com a prática do S/M que é no fundo uma erotização explicita do poder?
Pode-se dizer que o S/M é a erotização do poder, a erotização das relações estratégicas. O que me choca no S/M é a maneira como ele se difere do poder social. O poder se caracteriza pelo fato de que ele constitui uma relação estratégica que se estabeleceu nas instituições. No seio das relações de poder, a mobilidade é então limitada, e certas fortalezas são muito difíceis de derrubar por terem sido institucionalizadas, porque sua influência é sensível no curso da justiça, nos códigos. Isso significa que as relações estratégicas entre os indivíduos se caracterizam pela rigidez.
Dessa maneira, o jogo do S/M é muito interessante porque, enquanto relação estratégica, é sempre fluida. Há papeis, é claro, mas qualquer um sabe bem que esses papéis podem ser invertidos. Às vezes, quando o jogo começa, um é o mestre e, no fim, este que é escravo pode tornar-se mestre. Ou mesmo quando os papéis são estáveis, os protagonistas sabem muito bem que isso se trata de um jogo: ou as regras são transgredidas ou há um acordo, explícito ou tácito, que define certas fronteiras. Este jogo é muito interessante enquanto fonte de prazer físico. Mas eu não diria que ele reproduz, no interior da relação erótica, a estrutura do poder. É uma encenação de estruturas do poder em um jogo estratégico, capaz de procurar um prazer sexual ou físico.

Em que esse jogo estratégico é diferente na sexualidade e nas relações de poder?
A prática do S/M se abre a criação do prazer e existe uma identidade entre o que acontece e essa criação. É a razão pela qual o S/M é verdadeiramente uma sub-cultura. É um processo de invenção. O S/M é a utilização de uma relação estratégica como fonte de prazer (de prazer físico). Esta não é a primeira vez que as pessoas utilizam as relações estratégicas como fonte de prazer. Havia, na Idade Média, por exemplo, a tradição do amor cortesão, com o trovador, a maneira que se instaura as relações amorosas entre uma dama e seu amante, etc. Tratava-se, também, de um jogo estratégico. Este jogo é retomado, hoje, entre os garotos e garotas que vão dançar sábado à noite. Eles colocam em cena relações estratégicas. O interessante é que, na vida heterossexual, essas relações estratégicas precedem o sexo. Elas existem seguindo a finalidade de obter o sexo. No S/M, por outro lado, essas relações estratégicas fazem parte do sexo, como uma convenção de prazer no interior de uma relação particular.
Em um dos casos, as relações estratégicas são puramente sociais e é o ser social que é objetivado; enquanto que no outro caso, o corpo é implicado. E é essa transferência de relações estratégicas que passam do ritual da corte ao plano sexual, o que é particularmente interessante.

Em uma entrevista concedida há um ou dois anos à revista Gay Pied3, você dizia que o que mais perturbava às pessoas nas relações homossexuais não é tanto o ato sexual em si, mas a perspectiva de ver as relações afetivas se desenvolverem fora dos quadros normativos. Os lugares e as amizades que se atam são imprevisíveis. Você acha que é esse potencial desconhecido que as relações homossexuais portam, ou você diria que essas relações são percebidas como uma ameaça direta em oposição às instituições sociais?
Se há uma coisa que me interessa hoje é o problema da amizade. No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais - o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, viu-se desaparecer esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI, encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso.
O exército, a burocracia, a administração, as universidades, as escolas, etc. - no sentido que se tem essas palavras nos dias de hoje - não podiam funcionar diante de amizades tão intensas. Podemos ver em instituições um esforço considerável por diminuir ou minimizar as relações afetivas. Neste caso, em particular, nas escolas. Quando se inauguraram as escolas secundárias que acolheram alguns jovens rapazes, um dos problemas foi o de saber como se podia não somente impedir as relações sexuais, claramente, mas também em impedir as amizades. Sobre o tema da amizade, pode-se estudar, por exemplo, a estratégias das instituições jesuítas - eles estavam cientes da impossibilidade de supressão da amizade, eles tentaram então utilizar o papel que tinha o sexo, o amor, a amizade e de limitá-los. Deveríamos agora, depois de estudar a história da sexualidade, tentar compreender a história da amizade, ou das amizades. É uma história extremamente interessante.
E uma de minhas hipóteses - estou certo de que ela se verificaria se nos colocássemos esta tarefa - é que a homossexualidade (pelo que eu entendo a existência de relações sexuais entre os homens), torna-se um problema a partir do séc. XVIII. A vemos tornar-se um problema com a polícia, com o sistema jurídico. Penso que se ela tornou-se um problema, um problema social, nessa época, é porque a amizade desapareceu. Enquanto a amizade representou algo importante, enquanto ela era socialmente aceita, não era observado que os homens mantivessem entre eles relações sexuais. Não se poderia simplesmente dizer que eles não as tinham, mas que elas não tinham importância. Isso não tinha nenhuma implicação social, as coisas eram culturalmente aceitas. Que eles fizessem amor ou que eles se abraçassem não tinha a menor importância. Absolutamente nenhuma. Uma vez desaparecida a amizade enquanto relação culturalmente aceita, a questão é colocada: "o que fazem, então, dois homens juntos?" E neste momento o problema apareceu. Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou têm relações sexuais, isso é percebido como um problema. Estou seguro de ter razão: a desaparição da amizade enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser declarada como problema social, político e médico fazem parte do mesmo processo.

Se o que importa hoje é explorar as novas possibilidades da amizade, é preciso frisar que em um sentido largo, todas as instituições sociais são feitas para favorecer as amizades e as estruturas heterossexuais, com o menosprezo às amizades e estruturas homossexuais. O verdadeiro trabalho não é instaurar novas relações sociais, novos modelos de valores, novas estruturas familiares etc.? Todas as estruturas e as instituições que caminham juntas com a monogamia e com a família tradicional são uma das coisas que os homossexuais não tem facilmente acesso. Que tipo de instituições devemos começar a instaurar com a finalidade não somente de defender-nos, mas também de criar novas formas sociais que constituirão uma solução efetiva?
Quais instituições? Não tenho uma idéia precisa. Claramente, penso que seja totalmente contraditório aplicar para esse fim e esse tipo de amizade o modelo da vida familiar ou as instituições que caminham junto com a família. Mas é verdade que, em função de algumas relações que existem na sociedade são formas protegidas de vida familiar, se constata que algumas variantes não são protegidas, são ao mesmo tempo, mais ricas, mais interessantes e mais criativas do que essas relações. Mas, naturalmente, elas são também bem mais frágeis e vulneráveis. A questão de saber quais tipos de instituições devemos criar é uma questão capital, mas eu não posso trazer a resposta. Nosso trabalho, penso eu, é tentar elaborar uma solução.

Em que medida queremos ou temos necessidade de que o projeto de liberação dos homossexuais seja um projeto que, longe de se contentar em propor um percurso, pretenda abrir novos caminhos? Dito de outra forma, sua concepção de política sexual recusa a necessidade de um programa a ser seguido, em função preconizar a experimentação de novos tipos de relação?
Penso que uma das grandes constatações que temos feito desde a Primeira Guerra é essa do fracasso de todos os programas sociais e políticos. Percebemos que as coisas não se produzem nunca como os programas políticos querem descrever; e que os programas tem sempre, ou quase sempre, conduzido seja a abusos, seja a uma dominação política por parte de um grupo, quer sejam técnicos, burocratas ou outros. Mas uma das realizações dos anos sessenta e setenta - que considero como realizações benéficas - é que certos modelos institucionais têm sido experimentados sem programas. Sem programa não quer dizer cegamente - enquanto cegueira de pensamento. Na França, por exemplo, nos últimos tempos, se tem criticado bastante o fato de que os diferentes movimentos políticos em favor da liberdade sexual, das prisões, da ecologia, etc., não tenham programa. Mas, penso, não ter programa pode ser ao mesmo tempo, muito útil, muito original e muito criativo, se isso não quer dizer não ter reflexão real sobre o que acontece ou não se preocupar com o que é impossível.
Desde o século XIX, as grandes instituições políticas e os grandes partidos políticos confiscaram o processo de criação política, quero dizer com isso que eles têm tentado dar à criação política a forma de um programa político, com a finalidade de se apoderar do poder. Penso que é necessário preservar o que se produziu nos anos sessenta e no início dos anos setenta. Uma das coisas que é preciso preservar, creio, é a existência, fora dos grandes partidos políticos, e fora do programa normal ou comum, uma certa forma de inovação política, de criação política e de experimentação política. É um fato que a vida cotidiana das pessoas tem mudado entre o início dos anos sessenta e agora; minha própria vida é testemunho disso. Evidentemente, não devemos essas mudanças aos partidos políticos, mas aos numerosos movimentos. Esses movimentos têm verdadeiramente transformado nossas vidas, nossa mentalidade e nossas atitudes, assim como as atitudes e a mentalidade de outras pessoas - as pessoas que não pertencem a esses movimentos. E isso é algo de muito importante e muito positivo. Eu repito, não são essas velhas organizações políticas tradicionais e normais que permitem esse exame.


Michel Foucault, an Interview: Sex, Power and the Politics of Identity; entrevista com B. Gallagher e A. Wilson, Toronto, junho de 1982; The Advocate, n. 400, 7 de agosto de 1984, pp. 26-30 e 58. Esta entrevista estava destinada à revista canadense Body Politic. Tradução de wanderson flor do nascimento.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Boas maneiras & afins (I.L.Á.R.I.O!!!)

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O Brasil muda com velocidade espantosa. Quem era ontem um reles ladravaz hoje é um pilar da boa sociedade. A velhota patusca que anteontem desfiava rosários para converter a Rússia vermelha agora está cheia de botox e pilota uma ONG incrementadíssima, que incluiu excluídos de todos os modelitos. Como se repaginar com elegância diante dessas mutações todas? É de bom-tom cobrar a propina antes de sair a licitação? Como demonstrar consciência social sem abdicar do esqui em Aspen? É chique chamar o Exército para servir cocaína numa festa evangélica íntima? Como engravidar do roqueiro sexagenário de passagem pelo Rio e arrumar um programa na TV? É melhor chantagear ou extorquir? Comprar a prazo ou vender a juros? O que fazer com um quadro pintado por José Sarney?

São perguntas de difícil resposta, sobretudo para quem pensa que dá no mesmo falar "para mim fazer" ou "para eu fazer". Foi para orientar o gentil leitor na selva dos novos costumes desses tempos sombrios que The piauí Herald, infatigável na sua missão civilizatória, recorreu aos préstimos do renomado etiquetólogo Rovélson Whitebotton. Nascido no sertão do simpático estado que dá nome a este magazine, o próprio Whitebotton - ou simplesmente Rô, como ele prefere - é um exemplo do caráter semovente da sociedade brasileira, e do que ela pode ensinar a quem estiver disposto a aprender. "Eu achava que resolvia tudo com a peixeira, quando é muito mais ameno e chique fazer amigos e influenciar pessoas", ele conta.

O nosso irrequieto especialista em bons modos foi antes assessor parlamentar, mexeu com moda, lançou projetos, teve um escritório de gerência de crises, tornou-se acadêmico e hoje lidera uma bem-orquestrada consultoria fashion. Seu caminho foi longo. Os percalços, imensos. Mas ele não esquece quem o ajudou. "Devo muito a minha amiga Glorinha Kalil, que me ensinou que ser chique dá um dinheirão, desde que não se esqueça de botar o preço na etiqueta".

DINHEIRO VELHO & DINHEIRO NOVO

Rovélson, meu velho,
Estava pilotando meu iate, em Ilhabela, quando, subitamente, ao dar mais um golinho no meu brüt, senti um ligeiro solavanco. Um marinheiro veio contar que havíamos abalroado um homem não identificado e sem espírito esportivo, que reclama sem parar. Devo socorrê-lo ou deixo por isso mesmo?
LOBO DO MAR DISTRAÍDO

Convém dar uma olhada, Distraído: o preço da elegância é a eterna vigilância. Traga o estraga-prazeres a bordo e pergunte-lhe o nome. Se ele se chamar Kleôncio, Elcione, Neucymar, Ônyx ou correlatos, avise: "Assim que terminar o passeio, direi a meu motorista para levá-lo a um posto de saúde." Garanta que, se ele recobrar o uso da mão (perna, antebraço), você o empregará como marinheiro da lancha, mas sem carteira assinada porque a vida está difícil. Se o nome dele for duplo - Luiz Gustavo, Carlos Alberto etc. -, interrompa o passeio e leve-o você mesmo a uma clínica particular. Mande uma caixa de Cohiba para o pai/padrasto e outra de chocolates Godiva para a mãe/madrasta. Peça para a secretária ligar de dois em dois dias. Na eventualidade de ele responder dando nome e sobrenome - Antonio Pederneiras Bulhões, Luciano Castro e Braga -, vá diretamente ao heliponto e, mesmo que ele tenha sofrido apenas uma leve escoriação no mindinho, levo-o para o Einstein. Caso ele diga que não é necessário, seja firme: "Insisto, e já mandei o jatinho pegar o Pitanguy."

*

Róv,
Depois de uma noitada alegre, convidei todo mundo a dar uma esticada em Angra. Chegando ao heliponto, me dei conta de que estávamos em vinte, e o meu Sikorsky S-92 só tem lugar para 19 pessoas. Voar espremido é feio, não?
PERPLEXO NO HANGAR

Feíssimo, Perplexo, nada mais feio que um Sikorsky S-92 superlotado. Mas não é uma situação incomum, dado o afluxo de emergentes e agregados. Minha sugestão
é que, discretamente, você aplique a minha famosa e eficaz tabelinha de pontos, aquela que embaralha cifrões com aparições na mídia. Quem tiver a menor pontuação é dispensado com uma desculpa educada, do tipo "o piloto tem alergia a seu perfume". Eis a tabela, para você recortar e guardar na sua carteira de crocodilo do Nilo:

TABELINHA piauí Herald DE PONTUAÇÃO SOCIAL

* É letra de música de Caetano Veloso: 20 pontos
* Foi mencionado por Caetano Veloso em entrevista: 13 pontos
* É Caetano Veloso: menos 2 pontos
* Paulo Coelho o chama pelo primeiro nome: 12 pontos
* Sabe de cor o telefone de Arnaldo Jabor: 10 pontos
* É jogador e foi pego com travestis num motel barato: 50 pontos
* Foi mencionado favoravelmente na The Economist: 40 pontos
* Criou uma ONG para inserção social de excluídos: 17 pontos
* Conseguiu com que o Exército reforme o seu curral: 12 pontos
* O presidente o chama de "companheiro": 70 pontos
* O presidente o chama de "aloprado": 85 pontos
* O presidente o chama de José Dirceu: 100 pontos
* Apareceu no último Big Brother: 6 pontos
* Apareceu na Globo News: 5 pontos
* Apareceu na TV Record: menos 5 pontos
* Apareceu no SBT: menos 8 pontos
* Namorou Adriane Galisteu: menos 2 pontos
* Tem um quadro de José Sarney: menos 5 pontos

Caro Rovélson,
Todo dia, a caminho do escritório, paro num sinal e um mulatinho pendura um saco de balas toffee no retrovisor. Nunca comprei, mas já faz três anos que esse ritual se repete e estou ficando sem jeito. Há solução?
ATÔNITO NO SINAL

De fato, trata-se de uma situação muito embaraçosa, Atônito. Mesmo blindado, o seu carro pode ser riscado: esses pivetes não têm o mínimo cuidado. Além do que, o pardo não combina bem com o prateado reluzente do teu novo SUV. No tempo dos nossos pais, o adequado seria atropelar o garoto e seguir em frente - o que renderia boas risadas no clube ("Foi bala perdida pra todo lado!"). Mas agora, nesses tempos difíceis de culpabilidade social, é mais delicado. Em todo caso, evite ceder, pois do contrário o ambulante passará os próximos dez anos com o rosto colado a seu vidro. É de bom-tom, portanto, dialogar. Tente usar uma das seguintes desculpas: "Meu vidro é blindado, não abaixa", "Acabei de voltar de viagem e só tenho libras esterlinas na carteira", "Balas toffee? É que eu não gosto muito. Olha, se você passar a vender saquinhos de Rhum caramel do Chocolatier Manon, de Bruxelas, eu juro que compro", "Meu guru holístico de Vail só permite balas toffee com chá de carqueja orgânico. Você vende?"

*

Tudo bem, Rovélson?
Como você bem sabe, detesto política. De-tes-to. Mamãe sempre dizia que política é bom só para o zé povinho. Mas hoje não se pode nem dar uma recepção seleta para setenta casais que logo a política vem à baila, dividindo opiniões. Até a Casa Cor está politizada e cheia de comunistas. Não quero passar por desantenada, pois meu marido tem uma bonito canavial com 450 bóias-frias. Como fugir do assunto?
SOCIALITE SOCIALISTA

Não fuja da política, minha cara. Nada mais tendência que dizer que adora Barack Obama, elogiar-lhe os ternos e os modos - e lamentar o atraso brasileiro.

DECORO PARLAMENTAR

Caro Sr. Rovélson Whitebotton,
Fui nomeado relator da Comissão de Ética da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e encarregado de analisar o processo contra um dos nossos colegas. Devo dizer se ele deve ou não ser cassado. A peça acusatória consiste em uma gravação - de vídeo, diga-se, e magnificamente iluminada - em que ele aparece mandando assassinar um colega de contravenção. Pergunto: planejar um homicídio é ou não quebra de decoro parlamentar?
RELATOR JUDICIOSO

Depende, Judicioso, depende. Se o réu usou expressões vulgares ou palavras de baixo calão, decerto quebrou o decoro. "Vamos apagar aquele canalha", "Quero ver o safado virar presunto", "Dá uns pipocos nesse m..." são alguns exemplos do que não se deve tolerar num representante do povo. Terá igualmente quebrado o decoro se a reunião aconteceu num domingo ou dia santo. Também é necessário levar em conta o que ele estava vestindo. Deliberações desse jaez exigem, no mínimo, traje esporte fino. (Bermudas dispensam ida a plenário: é caso de cassação imediata.) Anéis, colares pesados e brilhantina devem ser anexados ao rol das provas incriminatórias. Idem se o deputado mexeu as pedras de gelo do seu uísque com o dedinho. E atenção: foulard é crime hediondo.

*

Estimado Rovélson Whitebotton,
Sou subassessor para Assuntos de Sardinha e Congêneres do Ministério da Pesca e amanhã pedirei meus primeiros 10% a uma empreiteira. Quais palavras devo usar?
EPAMINONDAS ROBALINHO

Jamais diga "Quero 10%", Robalinho de Águas Turvas. É simplesmente vulgar, além da praxe brasiliense, no momento, ser de 17%. Comece perguntando pela família do interlocutor e não se furte a olhar com interesse para as fotos do netinho ou netinha que ele certamente trará na carteira. Diga "É a cara do avô", se o bebê for bonito, o que é improvável. "Como se parece com o seu genro/nora!", caso não seja. Então, aos poucos, introduza o tema. Elogie-lhe a maleta com uma sutileza do tipo "Puxa, quantos dólares devem caber aí". Frases como "Eu gostaria tanto de levar minha família a Orlando, mas nunca pude", "Minha mulher /netinho/ compadre está indo para a hemodiálise, e rapaz, como custa...", "Desculpa o atraso, é que minha Brasília enguiçou... mas aqui estou, e essa é a barragem que estamos licitando" geralmente surtem bom efeito. Estabelecido o terreno, complemente com "O deputado manda abraços e diz que faz questão de lhe pagar um jantar no Piantela, com tudo incluído, inclusive os 17% do garçom". Enfatize o "17%" com uma piscadela.

*

Prezado R. Whitebótton,
Sou secretária de confiança do senador Abelardo Borduna e fui convidada por outro senador, cujo nome não posso revelar, para conversar sobre renda mínima no seu apartamento. Tenho receio de melindrar Bodurna, que é possessivo como o Cão, mas, recém-chegada e disposta a fazer carreira em Brasília, não quero me indispor com ninguém. Como devo proceder?
LUANA COCHUDA

Nada mais simples, Cochuda. Leve uma câmera de vídeo escondida, registre o encontro e bote a gravação na internet. Como a conversa será mesmo sobre renda mínima, Bodurna terá um prova adicional da sua fidelidade, Brasília inteira rirá à beça, o senador misterioso ficará satisfeito com a repercussão do caso na imprensa e, da noite para o dia, todo mundo saberá como você é espirituosa.

*

Caro senhor,
Sou deputado de primeiro mandato. Fui instruído a receber de bom grado todos os livros de José Sarney e mantê-los num lugar de destaque na estante da sala de meu apartamento funcional. Foi o que fiz. Mas agora, o nobre senador do Amapá me presenteou com uma de suas telas. Trata-se da imagem de um grande caramujo de tranças louras. Sei que José Dirceu mantém em sua casa o óleo de um peixe cabeludo, outra obra do ex-presidente, e talvez por isso tenha caído. Confesso que, toda noite, hesito em voltar para meu apartamento e dar de cara com o caramujo. Não sei o que fazer.
MIMOSEADO DE PRIMEIRA VIAGEM

Entendo e compartilho a sua angústia: também tenho uma paisagem marinha, repleta de monstros indefiníveis, de autoria do nosso insuperável ex-presidente. Mas não há outro remédio senão acostumar-se. Sarney sempre estará no poder, mandando e desmandando, não importa qual seja o governo. Se quiser ter futuro político, não retire o quadro da parede - o senador é dado a aparecer de surpresa para checar o estado geral de seus presentes. Vários deputados já perderam o mandato por terem desobedecido a essa regra de ouro do convívio parlamentar. Para atenuar a aflição, sugiro algumas alternativas simples e bem-educadas. Que você faça uma operação de miopia, não para corrigi-la, mas para acentuá-la. No apartamento, só ande de costas para a malsinada obra pictórica. Compre uma casa de campo, de preferência na Islândia, e leve o quadro para lá. É a solução mais indolor. Quando Sarney aparecer, diga: "A Islândia é meu pedacinho do paraíso. Achei apropriado levar o seu caramujo para lá." Em seguida, mostre fotos.

*

Whitebotton,
Quero apoiar meu sucessor na Prefeitura, mas o meu antecessor no governo estadual também é candidato. Como manter a posição sem desagradar ninguém e chegar à Presidência?
TUCANO INSONE

Uma viagenzinha ao Japão resolve.

*

Caro Whitebotton,
Soube que a Polícia Federal, nos quadros da Operação Roubalheira LXXIII, fará uma blitz no meu gabinete e pretende me levar à força para interrogatórios. O que faço para não perder a compostura?
APAVORADO EM FLAGRANTE

Nessas horas é que se percebe se a elegância é de berço. É a prova de fogo. Primeira providência: deixar a tela de Sarney (a maior, a Polvo Maneta e Perneta) em evidência. A boa arte maranhense costuma fazer a gentinha se acoelhar. Segunda: compre um paletó de número duas vezes maior, para poder esconder o rosto dos fotógrafos sem amassá-lo. Terceira: deixe uma nota pronta à imprensa, sustentando que seus inimigos políticos querem destruí-lo porque estão mancomunados com os poderosos. Sempre funciona.

*

Prezado Rovélson Whitebotton,
Minha jovem esposa quer levar a mãe para conhecer a Europa. Não tenho como recusar. É obrigatório pagar as despesas da jararaca?
GOVERNANTE SOGRADO

De jeito nenhum! Onde já se viu? O erário está aí para esses pequenos gestos de cortesia que azeitam as relações interfamiliares. Convide-a para presidir uma ONG de inserção social de excluídos e boa viagem aos pombinhos (não deixe de levar uns assessores para fazer companhia à jararaca).

*

Sr. Whitebotton,
Apareci numa gravação clandestina nos telejornais com uma enorme pilha de dinheiro no meu gabinete. Tenho saída?
PREFEITO MARANHENSE

Nessas situações, é melhor recorrer às soluções tradicionais: diga que a pilha era para esconder uma tela do seu líder, José Sarney, que mostrava uma piranha-da-caatinga com chapéu de couro.

*

Prezado Rovélson,
Como ir à Europa descansar um pouco (ninguém é de ferro) sem chamar a atenção da imprensa?
SERGINHO CABRAL

Convide uns dez jornalistas a irem junto, governador.

FESTAS, RECEPÇÕES E JANTARES DE GALA

Bonitinho,
Fui convidado para um jantarzinho na casa de um ex-banqueiro que acabou de deixar a prisão. Quais os assuntos apropriados para puxar conversa?
SEM ASSUNTA

Culinária sempre rende conversas animadas. Pergunte sobre o chef, o cardápio, a louça e o serviço no xadrez. O momento do banho de sol pode render também: qual era o protetor solar preferido? Nas conversas sérias, elogiar a morosidade da Justiça.

*

Botton,
A tua colega Glorinha Kalil publicou um livro de etiqueta em que ela aparece de luvas na capa. Luvas estão na moda nos trópicos?
PORTA-VOZ DOS SEM-LUVA

Ih, você não entendeu nada, nada mesmo. Claro que as pessoas de fino trato usam luvas. E tem mais: é uma peça de vestuário de primeira necessidade para os bem-educados. Exemplo prático: você está nos Jardins e um pobre te pede esmola. Como manda a etiqueta, você lhe dá umas moedinhas e o miserável, sem modos, aproxima os lábios da sua mão. Imaginou o horror? Luvas, portanto, luvas.

*

White,
Estou tão bêbado que entrei na festa andando de costas. Luciana Gimenez me pede uma explicação. O que devo dizer?
PELAS TABELAS

Informe-a de que você está aplicando o conceito feng shui de que o futuro é um poço de esperança, o presente uma prisão de loucura e o passado uma caixa de medos. E que ela precisa encarar seus medos para se tornar uma pessoa melhor.

*

Cara,
Em um happy hour, um de meus colegas de trabalho chega em companhia de uma morena sensacional. Acho que ela está me encarando. O que fazer?
GALANTEADOR EMBAÇADO

Antes de mais nada, Galanteador, atenção à hierarquia. Se o colega for seu subordinado, não demonstre qualquer interesse. Mas quando ele se levantar para ir ao banheiro, diga à moça: "Estou indo para uma boate em quinze minutos. Você pode me encontrar lá, a não ser que queira insistir em curar a homossexualidade do meu amigo - coisa que nem a mulher obesa e seus quatro filhos sabem."

*

Cara,
Não! O colega é meu chefe e percebeu que estou dando em cima dela!
GALANTEADOR EMBAÇADO

A presença de espírito é atributo essencial do verdadeiro cavalheiro: levante a voz e berre para a mulher: "Não quero nada com você, pervertida!" Enquanto o sujeito leva a mulher para um canto para tirar satisfações, saia à francesa. Mas antes comente com o mais fofoqueiro da turma: "Eu estava na minha, ela já chegou partindo para cima."

*

Senhor,
Fui convidado para uma festa na casa de um casal nouveau pauvre. Pensei em levar uma garrafa de Cheval Blanc 1972, mas acho que pode parecer ofensivo. Que tipo de bebida devo levar?
ENÓLOGO SENSÍVEL

Não é porque seus amigos perderam tudo que significa que perderam a classe. O uísque Natu Nobilis e o conhaque de alcatrão São João da Barra são produtos nacionais com excelente custo-benefício. Uma bela garrafa de Xiboquinha ou Contini Bianco também não decepcionam.

*

Homem,
Com o joelho recém-operado, bebi e acabei com três travestis num motel. Como me comportar agora?
MACHUCADO NA BARRA

Com o joelho machucado é difícil, mas com jeito tudo se resolve: fique de ladinho.

*

Caro grã-finólogo,
A anfitriã sai do banheiro com as narinas entupidas de pó branco. Como alertá-la sem ofendê-la?
CONVIVA ATENCIOSO

Você pode perguntar se ela acabou de beijar a bisavó ou a Rainha da Inglaterra, já que seu rosto ficou "cheio de pó de arroz".

*

Caro Rovélson,
O jantar é formal. Como devo saudar alguém que chega atrasado?
MÍMICO ELOQÜENTE

Com a mão esquerda, pegue o terceiro garfo da esquerda para a direita, levante-o até a altura da cabeça e sacuda-o em movimentos firmes e contínuos.

*

Prezado escriba,
Em uma recepção com lugares marcados, onde devo sentar a mulher, o marido e a amante dele?
ANFITRIÃ DIPLOMÁTICA

Numa mesa retangular, a mulher deve se sentar a duas cadeiras do marido, entre dois homens fortes, que possam contê-la, e próxima à amante para que possa vigiá-la. Amante e marido devem se sentar exatamente em frente um do outro para que possam se tocar com os pés por debaixo da mesa. Não é aplicável se o tampo for de vidro. A mulher também pode ser colocada de frente para um quadro de José Sarney: muda de espanto, ela não incomodará ninguém.

*

Rovélson Whitebotton,
Enquanto os convivas estavam distraídos, vomitei no chão. Ninguém percebeu, mas o garçom se aproxima. Como disfarçar o ocorrido?
BEBI MAL

O mais apropriado é derramar o resto de seu vinho sobre o líquido expelido, misturar tudo com o pé discretamente e chamar a atenção do serviçal: "Esse vinho que você me serviu parece vômito!"

*

Caro Whitebotton,
Estou no banheiro de um restaurante do Senado e sou tomado por um irrefreável desejo de fazer um desenho na porta. O que é chique pintar?
EX-PRESIDENTE

Não invente muito. Uma barracuda com chapéu de cangaceiro está bom.

NO REINO ENCANTADO DAS CELEBRIDADES

Bofe Botton,
As revistas de fofoca insistem em saber o que faço para manter a forma. Continuo dizendo que é só água de coco e yoga. O que fazer para reforçar a versão?
IVALO SANGUETE

Contrate um caminhão de água de coco para que fique estacionado em frente a sua portaria por dois dias. Saia à rua carregando o tapete de yoga pelo menos três vezes por semana. E continue entrando no consultório do cirurgião plástico pela porta dos fundos, sem jamais esquecer a peruca e os óculos escuros.

*

Fofo,
Sempre apareci na capa de revistas com meu mais novo namorado. Agora, descobri que gosto mesmo é de mulheres. Como alardear a novidade com fineza?
SAPATO NO ARMÁRIO

Por baixo de uma jaqueta Prada de couro castor, você pode usar uma camiseta básica preta, com letras douradas dizendo: "EU GOSTO É DE GENTE."

*

White,
Preciso avisar os paparazzi que vou a um bar com meu novo namorado, um ator famoso que adotou a linha low profile. Como fazer a convocatória sem estragar a estratégia do rapaz?
MARQUETEIRA CONFUSA

As regras de requinte recomendam aproveitar do fotógrafo alheio. Ligue para os assessores de imprensa de Caetano Veloso, Deborah Secco ou Preta Gil para descobrir os restaurantes, bares e casas de suco aonde eles irão naquela noite. Com a presença dos paparazzi garantida, é só posar ao som de: "Meu Deus, que coincidência!"

*

Meu assessor predileto,
Ao arrumar a mesa para um jantar de cerimônia, onde ponho os canudinhos?
XUXA MENEGHEL

Enfileirados, depois da seqüência de facas. Mas, atenção: os do tipo dobráveis são inadmissíveis.

*

Colega,
Sou um repórter investigativo que foi pego pela polícia com 200 gramas de cocaína. Como me explicar?
BOB WOODWARD

Nessas situações, não se trata nem de uma questão de etiqueta. É um problema ético, e como tal deve ser encarado, pois é a sua credibilidade que está em jogo. Convoque uma entrevista coletiva para esclarecer que foi tudo um mal-entendido, que você apurava uma reportagem sobre tráfico de drogas para exibir na televisão.

*

Rei da Etiqueta,
Há anos não me chamam para fazer nenhum trabalho. No máximo, sou convidada para inaugurações de óticas e pet shops. Não quero parecer rude, mas o que falar aos abutres que querem saber sobre minha rotina vazia?
FAMOSA INFAMOSA

Educadamente, com a voz firme e pausada, diga que está cheia de projetos e vislumbrando mais um desafio em sua carreira, mas que, infelizmente, ainda não pode revelar.

*

Caro Robervón (é assim que se escreve o seu nome?)
Estou no começo da carreira e ainda não sou considerada VIP. Como posso pedir roupas e convites de graça sem perder a categoria?
INFAMOSA INFAMOSA

Incorpore o sobrenome de alguma celebridade do mundo da moda. Você pode ser "Sicrana Pascolatto" ou "Beltrana Pascowitch" (quem quiser ser Fulana Bottonwhite procure meu agente). Roupas, ingressos e convites brotarão espontaneamente.

*

Companheiro excluído,
Levaram-me o Rolex num cruzamento. Dá para ser elegante numa hora dessas?
NARIZ EMPINADO

Claro que dá! É só escrever um libelo contra a injustiça social que todo mundo perceberá que você é bem-educado o bastante para se promover em qualquer situação.

*

Colunista Whitebotton,
Meu casamento

foi capa de todas as revistas, mas terminou depois de um mês e meio. Tenho que devolver os presentes?
LEBRE LÉPIDA

Claro que não, Lépida. Sinta-se na obrigação de mandar um cartão formal de agradecimento apenas para aqueles que ganham mais de 100 mil reais por mês ou tenham algum cargo de direção em uma emissora de tevê.

*

Moço,
Meu noivo foi flagrado em um motel com três travestis. Minha prima do interior fica me perguntando os detalhes do acontecido. Como desconversar sem parecer mal-educada?
INCONSOLÁVEL

Diga que ele ficou de ladinho e mude rápido de assunto.

*

Seu Uaitebótom,
Quero deixar a imagem de ex-BBB definitivamente para trás. O que devo vestir na minha primeira reunião com o gerente da empresa de marketing que se interessou em discutir meu projeto de releitura de Hamlet?
CCC

Use um coque, terninho preto, maquiagem e perfumes discretos. Lembre-se de que o correto é "para eu fazer", e não "para mim fazer".

*

Brasileiros e brasileiras,
Fui apresentado a uma senhorita bem torneada e apessoada (parece uma lagosta de peruca loira) que, segundo Roseana me disse, "está bombando". Penso em presenteá-la, mas não quero parecer intrusivo nem impessoal. O que me sugere?
JOSÉ SARNEY

Que tal um retrato da moça? É chique e original.

Fonte: Revista Piauí

http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=689&pag=5