terça-feira, 21 de julho de 2026

Textos escondidos

 Eu não sei se já disse publicamente, mas tenho textos “escondidos”. São textos em que abro passagem a toda minha crueldade. Escrevo, abandono, volto só depois de passado o momento de fúria ou dramatização excessiva. E o porquê os escrevo? 


Porque após vomitados, percebo que se eu me permitir, se eu realmente tiver coragem, coloco as luvas e vou em direção ao outro para esquartejá-lo. Assim que chego perto, contudo, a linguagem me hipnotiza e o outro, que se apresentava tão monstruoso e merecedor dos mais racionalizados castigos, se sublima em reflexo no espelho. A imagem dissolve o outro? Não. 


Dissolve-me, como um boneco de cera ao sol. Nisso, consigo descobrir novos lugares e o prazer em apanhar se torna um momento de movimento, ao contrário do engessamento que me fazia inteira, mas apenas boneco de cera.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Um 2024 para cometer erros em paz.

Quando você é um corpo que não é considerado o adequado para exercer poder, as pessoas manifestarão o preconceito delas não de maneira direta ou consciente.

O preconceito tem a ver com as expectativas que as pessoas têm do que é adequado ou inadequado a determinados corpos. Também tem a ver com o direcionamento do olhar, a seletividade com que te olham. Vou exemplificar. 


Para pessoas com deficiência é esperado que sempre estejamos prontos a superar as expectativas em nossas realizações, ao mesmo tempo em que isso não exceda o nosso lugar infantilizado. Eu já fui chamada atenção algumas vezes por ter feito exatamente a mesma coisa que o meu colega de trabalho. Eu lembro de uma reunião em que o não cumprir uma tarefa foi chamado pela gestora como demanda da equipe e exatamente a mesma tarefa não cumprida por mim no mês anterior e nas mesmas condições foi chamada de desorganização da minha parte. 

O meu falar em reunião foi visto como arrogância e o silêncio do colega de estratégia e inteligência. 

Percebem? É praticamente exaustivo estar o tempo todo sob a mira do olhar invasivo do mundo. O direito à invisibilidade dos erros não é para qualquer um. 


Alguns vão chamar essa minha observação de vitimista. 

Acredito que seria vítimista apontar  essas nuances da realidade se eu me acreditasse nesse lugar. Ou se eu  conseguisse mapear tão bem os meus "deslizes" que pudesse tirar proveito disso. 

Mas bola de cristal não é um "privilégio" PCD ou feminino, então infelizmente não é possível me aproveitar de nada. 


Um outro exemplo vindo diretamente da realidade. 

Quem em uma reunião de equipe teria discutido o direito de ir em outra sala pegar um objeto pessoal ou não? Eu tive essa escolha realizada por outros em uma reunião. Eu não tenho como adivinhar que escolher se tenho o direito a pegar um objeto ou não será o modo que vão me tratar numa reunião de trabalho. Obviamente que alguém se achar no direito de impor isso a um colega de trabalho deixa transparente o poder que a pessoa acredita que tem sob seu corpo. E nos detalhes - DETALHES - como te marcará para que SAIBA qual é o seu lugar. 


Eu sou um corpo que tem de se impor o tempo todo, pois se eu for dócil, sou vista como permissiva. Se me imponho, como arrogante. E em ambos os casos, podada de oportunidades. Oportunidades reais e materiais que impactam na minha segurança e na minha ascensão social. 


Esse ano eu entro com compromisso comigo mesma de ser mediana em tudo que não me recompensar com reconhecimento. 

Isso porque a minha tendência é a de quando colocada em questão querer mostrar o quanto eu sou boa e tratar quem me desprezou ou me atrapalhou com mais amor ainda. Dessa vez não. 


Também não irei para uma chave de vingança, que rouba minha energia das minhas próprias pautas e demandas. 

Ser mediana ao que não nos recompensa é um privilégio que talvez pessoas com corpos dissidentes devam aprender a usufruir e talvez eu queira experimentar isso este ano. 


E se o silêncio não me protegeu e nem me protegerá (Audre Lorde), exercitarei ao máximo a minha arrogância.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Em defesa das histórias tristes

 


A vida é cheia de histórias tristes, mas contar histórias tristes publicamente tem sido cada vez mais difícil. 


A cada dia que passa, falar sobre algo triste é sinônimo de fracasso. E, bom, gente fracassada, ninguém quer por perto, é como uma doença contagiosa. 


Há muito aprendizado em acontecimentos tristes. Esse aprendizado tem deixado de circular. Ninguém quer ser visto como o pássaro do mau agouro.  


Mas há mais do que aprendizado…


É da condição humana viver acontecimentos tristes. Só que viver esses acontecimentos sozinhos não. Por isso, a depressão parece ter se tornado uma epidemia. Se achar o único no mundo a se sentir triste e, principalmente, fracassado é um peso que pode ser insustentável se carregado por muito tempo sozinho.


Eu vou contar uma história triste. Uma das minhas fotos prediletas é na piscina é do apartamento que eu perdi por dividas de condomínio. A perda foi fruto do agravo em ficar dois anos da Pandemia desempregada, e minha inabilidade em gerenciar um imóvel caro e o meu cansaço por trabalhar muito e longe por anos.


Procurei por muito tempo histórias sobre pessoas que perderam seus imóveis e como  lidaram com isso, mas eu não achei. 


Porque expor algo assim é inaceitável.


O que havia era um milhão de coachs com dicas esdrúxulas sobre comprar ou não comprar imóveis. 


Morar é muito mais do que um cálculo matemático. Eu arriscaria afirmar que morar é muito pouco cálculo matemático.  


A partir dessa procura, percebi que compartilhar uma história triste é também dar testemunho de UM AMOR QUE REALMENTE EXISTIU. Histórias tristes carregam um pedaço de algo humano que de tão insuportável a perda, quer se fazer eterna pela linguagem, pela memória. 


Na foto, houve amor pela ideia de ter finalmente um lar. A menina da periferia de São Paulo que viu os pais morarem de favor na infância, sorria na foto.  Havia ali a  felicidade de ser fotografada enquanto tomava drinks com as amigas na piscina do condomínio. 


É triste e lindo lembrar que pude viver isso. É também muito bom saber que a piscina se foi, as amigas e amigos continuam e eu, que quase me perdi junto com o imóvel, também estou aqui. Escrevendo isso.


E pronta para nadar na piscina alheia! 😎

domingo, 15 de janeiro de 2023

Eu preciso provar que existir no meu corpo pode ser uma experiência humana válida.

Outro dia uma amiga me apontou que eu escrevo muito sobre minhas experiências pessoais, que era meu estilo de escrita. 

Realmente, é uma escolha ainda não ter criado personagens que fossem simulações de outras existências. 


Ano passado eu li um texto - não consigo lembrar o título, infelizmente - que trazia que ser negro não era um devir desejado e, por isso mesmo, não era considerado útil o suficiente para ser preservado. Ninguém tem o sonho de um dia ser negro. 


Esses dois pontos a respeito do que é o exercício de escrever e do que seja um devir desejável parece apontar para o que intuitivamente eu tenho necessidade de trazer quando escrevo; dar testemunho de minha existência. 


Por muito tempo, os poemas que eu escrevi não traziam nenhuma menção direta a eu ser uma pessoa com deficiência. E sempre houve grande identificação das pessoas com o que ali estava colocado. Na minha cabeça, era óbvio que todos sabiam que era sobre "ser uma mulher com deficiência". Mas não era. Era sobre sentir. 


Desejar estar na minha pele, fantasiar que a voz que canta em meus escritos é a de tantas outras pessoas com outros corpos é o trabalho de formiga que de algum modo me move. 


Eu existo e eu não sou um monstro ou um anjo, eu sou tão real que poderia ser qualquer um que lê o que eu escrevo.



domingo, 26 de junho de 2022

Aviso

 Eu quero avisar sobre os poemas que eu publico, que eles nunca são sobre ser vítima de algo. Nunca. Eu nunca estou mal e por isso publiquei um poema. Nunca. 

Porque se eu escolhi o formato "poesia" é porque estou compartilhando algo que pode também ser sentido pelo leitor. Eu estou num lugar quando trago o poema, esse lugar é o da validação do sentimento. Isso quer dizer que em algum momento eu escolhi brincar com as palavras no meio de uma reflexão que poderia ser apenas dolorosa. 

Esse brincar em si já me retira do papel de vítima. Papel esse que existe e seria muito tentador eu cair, caso eu não considerasse cafona.

Então, respondendo a qualquer pessoa que se preocupe com o quê eu escrevo, se eu escrevi e publique é porque eu estou bem.  


(aliás, as vezes eu publico textos só para fazer pirraça inclusive, não se enganem)

Casulo

 Eu preciso me mover e não consigo


Eu preciso me mover e não consigo


Não consigo sozinha


Só que para me mover


Eu preciso deixar um pedaço


Um pedaço de mim


Eu ofereço o pedaço que menos dói


Mas as pessoas querem


Querem


Elas querem decidir o que querem de mim


Se eu mover o meu corpo, elas querem que eu entregue minhas memórias


Se eu mover as memórias, querem um pedaço do meu corpo


Se eu mover os dois, elas querem o meu simbólico 


E mover tudo


só se esquartejada


As pessoas querem


Querem


Saber que existe alguém


a quem elas podem decidir algo


Já que delas mesmas 


elas não sabem decidir nada 


Eu sei bem dançar a coreografia alheia


E deixar pedaços de mim para os outros


Eu preciso me mover


Eu preciso


Eu vou fingir ser uma lagartixa dançarina


.


.


.


.


.


.


.


.


.


(até o casulo se romper)

sábado, 26 de março de 2022

Projeto de vida

Faz algum tempo que percebo que caminhamos em uma sociedade do projeto. Você tem de ter todas as direções de suas ações e seus sentimentos devidamente mapeados, afinal, você tem um projeto de vida a cumprir. Não cumpriu as metas do projeto? Fracasso. 


Ao mesmo tempo, vivemos a sociedade do fracasso. Não conseguimos mais seguir projetos individuais e dependemos o tempo todo de outras pessoas e seus sentimentos aleatórios. Então, fracassamos. Projetos são previsões de futuro, que ao dependerem de outras pessoas mas não pressupor-las, fracassa. 


Dessa forma, parece que não é possível escolher o quê sentimos baseados em projetos de como estaremos daqui dois anos. Eu não consigo saber onde estarei daqui dois anos. 

Talvez ninguém nunca teve os seus sentimentos baseados somente conforme um projeto de vida para daqui a dois anos. 

Percebo que, no meu caso, eu me sinto culpada por sentir de um modo que não seja em direção para onde quero estar daqui dois anos. 


Essa neblina social extrema parece esfregar algo em minha cara que é: os meus afetos estão fadados ao "agora". 

Eu desejo saber onde quero estar daqui dois anos ainda. Talvez porque ter um planejamento de futuro seja um compromisso com o agora. Uma espécie de contrato em que se diz subliminarmente "Quero que esse agora continue e entrego meu futuro em garantia disso". 


O fracasso parece fazer a todos nós caminhar em um agora sem garantias. A qualquer momento você estará na floresta e poderá ser atacado. Por isso, a ansiedade e a síndrome do pânico parecem ser também sentimentos tão comuns atualmente. Estar o tempo todo em alerta adoece. 


Em uma sociedade em quê os laços sociais parecem estar afirmados unicamente em uma penhora do nosso projeto de futuro, como lidar com uma crise que nos obriga a nos segurar no quê temos no agora? Sem garantias, relações baseadas somente na solidariedade mais primária, como as relações por afinidade? 

Lidar com a angústia contemporânea parece ser caminhar no escuro e escolher apenas a quem queremos dar a mão para caminhar com a gente. Será?

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Pés e Asas

 Já faz tempo que devo esse texto a vocês. Hoje em dia, olho para vocês, que é dois, como eu e lembro que por muito tempo eu fiz de tudo para esconder vocês. Eu tive tanta vergonha de vocês, eu transava de meias para esconder vocês. 

Eu olho neste exato momento para vocês e não consigo mais ver o que aquela Outra via de feio. No máximo, a cicatriz do tornozelo direito, que me gerou muita dor física. 

Eu quero dizer agora: nunca houve nada de errado com vocês. Não é que eu aprendi a amar vocês, meus pés, como são. É que eu consegui me livrar daquela máscara terrível que tampava meus olhos e inventava um mundo onde sereias devem ser devoradas pois são monstros. 

Sereias só são pessoas com calda. 


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Oi,

Espero que a carta tenha feito você se sentir bem. A mim, chegou tarde demais. 

Você sabe o quanto eu aguentei para que pudesse realizar seu maravilhoso sonho de fazer faculdade? E depois, de dançar?

Eu doía mesmo. Era o mínimo que você tinha de compartilhar do que eu sentia. 

Você me escondendo enquanto eu te carregava para lá e para cá nas costas! 

Folgada!

E nada nunca estava bom. Incrível. Eu cheguei a lavar o chão de sangue em nome do seu capricho por dançar perfeitamente. Porque, né? Dançar só por dançar não parece bom para a dona obcecada pela aparente perfeição! Aff!

Se eu fosse até a lua e dos fios de sua luz lhe fizesse asas para voar, ainda assim era bem capaz de você ensacar tudo em uma meia esburacada e só voar escondido.

Será que podemos somente curtir a partir de agora?  

 É o mínimo que nós merecemos. 


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Pensei em ficar em silêncio depois do que me contou. Meus pés, mas que é um também, pois é o equilíbrio na dubiedade. 

Eu talvez realmente ensacaria em meias furadas as minhas asas caso vocês as me dessem. Eu jamais as rejeitaria entretanto. Eu nunca as rejeitei. Amar escondido é um modo de ser livre. Covarde pode chamar. Às vezes, porém, o único modo possível. 


Ser livre pode ser uma afronta em certos ambientes. Se eu fui tão obcecada na perfeição, é que isso parecia ser o único modo de caminhar sozinha. E, trouxe sim novos modos de pisar. Eu alonguei vocês, meus pés. Eu os tornei mais fortes. Mais ágeis.  Não nego o sofrimento de vocês. 

Se fui cúmplice na dor que passaram, também fui a espiã que libertou a nós três.

Voar a luz do dia é curtir o voo. É também saber da guerrilha que será ter de voar contra os estilingues. E também saber que será preciso se posicionar contra as gaiolas de quem tanto nos ama e nos quer nelas.


Poderia perguntar a vocês: estamos preparados? Mas isso não existe. Nunca estaremos preparados, no máximo com boa estratégia. 

É assim que as histórias reais começam. 



domingo, 2 de janeiro de 2022

Se eu fosse criar uma história de amor perfeita


Era uma vez… Alguém que me fizesse companhia; que me acolhesse; que me assumisse. O que é me assumir?

É desfilar publicamente comigo? É ter em aberto a possibilidade de projetar futuro comigo? 

Era para ser uma ficção isso aqui. Um dia eu fui à padaria e um rapaz interessante puxou assunto comigo. Eu fiquei com vontade de continuar conversando com ele. Depois sutilmente ele acessou meu corpo e transamos. E foi maravilhoso. E queríamos mais. 

Passamos a conviver e eu podia fazer coisas legais com ele. Talvez seja só isso. Parece monótono, mas nada é monótono na América Latina, no Brasil, sendo uma pessoa pobre. Não faltaria assunto e aventura pela menos.

Por outro lado, nenhum plano parece possível, eu não consigo escrever uma ficção de amor. Até ia mudar o título para "uma história de amor imperfeita". Não ajudou a tentativa de mudança. 

Eu nem mesmo consigo assumir o desejo de ser publicamente amada. Eu venho aqui e pela escrita tento rascunhar notícias de meu desejo. 

Do que eu tenho medo? 

Um dia o rapaz interessante lhe disse: gosto de você, mas nem tanto. Ela se desfez em lágrimas como quem tenta regar uma planta seca e fazer que volte à vida pelo excesso de águas que agora deposita nela. 

Há muitos jeitos de ser gostada, não deveria doer. E não dói. Porque essa é uma história perfeita de amor. O rapaz da padaria mora dentro do meu coração e o medo que o protege não permitirá jamais que eu fale de modo amistoso com rapazes interessantes em padarias.

sábado, 27 de novembro de 2021

Pena de mim?

 Algumas pessoas, muitas, na verdade, ao me conhecerem, agradecem a Deus por não ser eu. 

Eu já provei pelo menos uns 4 tipos de orgasmo diferentes mesmo com menos dedos. E já havia comprado meu primeiro imóvel aos 30 anos de idade, ganhando menos no mercado de trabalho. 


Assediada por 80% dos boy sem deficiência, criei meu filho sem homem na responsabilidade comigo. Terminei os estudos antes que uma boa parte das pessoas sem deficiência, vinda de família pobre. 


Eu achei por muito tempo que eu deveria ter inveja de pessoas com seis dedos a mais do que eu.


Hoje eu estou fracassando na carreira, na compra da casa e nos estudos e acho que é o que todo mundo está fazendo independente da quantidade de dedos.


Só que agora eu conheço mais uns 6 tipos de orgasmo.  Entre eles 

escrever e fazer pirraça. 


As pessoas não deviam sentir culpa por ter pena de mim.


Eu já sinto culpa por ter tido pena de mim por eu mesma. 

E eu não sinto culpa por ter pena das pessoas sem deficiência. 


Só gostaria que sentissem de pena de mim com os motivos certos: 

que é eu não conseguir mostrar o dedo do meio porque não tenho. E por não conseguir assoviar. 


Eu sinto pena de vocês por não conseguirem mostrar o dedo do meio quando isso é necessário. 

Também sinto pena quando deixam de dançar por acharem que dançam mal.  E quando acham que o prazer de vocês depende das mãos de outras pessoas.   


Ah, também sinto pena por terem unhas esquisitas, 

sendo sincera.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Quem eu serei em seis anos

Eu queria ser essa que eu sou hoje só que há seis anos atrás. Para evitar os problemas que eu tenho hoje. Só que é exatamente os erros desses seis anos o quê me formou em ser quem eu sou. É um paradoxo. 


Eu queria ter dito que eu poderia ser solidária com quem fosse, mas não com minha casa. A casa é minha extensão de corpo, ser solidária parece ter sido esconder o medo de eu ficar a sós com esse corpo. 


Eu morei com algumas pessoas, quase todas sem deficiência física. A casa nunca esteve tão limpa quanto por mim. Eu achava que eu precisava das pessoas para isso acontecer.


Gostaria de ter me perguntado há seis anos atrás porque eu deixo a imagem de uma incapacidade que eu nem testei me fazer acreditar que todos em minha volta podem fazer coisas a mais do que eu.


Eu queria saber naquela época é que minha imagem às pessoas importa sim. Mas o quanto eu preciso investir em mim para sobreviver?

É verdade que ser uma pessoa com deficiência demanda mais gastos, no meu caso. Porque eu lembro o dia em que eu caí na rua e por ser uma pessoa com deficiência me deixaram no chão. Na chuva.  

Pessoa com deficiência física é pedinte se está no chão. E pedinte quando pede ajuda, pode ser ignorado. 

Saber quem sou no mundo e saber que essa narrativa não é minha me faz planejar o quanto eu quero investir para não sofrer violência. Para ter minha voz respeitada. E em quê eu quero colocar dinheiro e energia para isso acontecer.

Eu queria saber naquela época que meu consumismo é fruto do medo de ficar no chão na rua de novo 

E não uma loucura da minha cabeça.


Queria me avisar naquela época a segurar minha ansiedade em ter de dar conta de urgências alheias. Urgências essas que dava conta por achar que preciso mais das pessoas do que elas de mim.  


As pessoas me dizem há muito tempo para eu aguentar coisas que só eu darei conta.  

Eu queria saber, há seis anos atrás, que as coisas dão errado. E as pessoas escondem que deram errado. Elas não aguentam necessariamente. E que eu posso errar e eu posso voltar atrás mesmo em grandes escolhas.

Há pouco tempo, duas pessoas me culparam por eu ter feito o que elas mesmas aconselharam. As falas foram de que eu não fiz do "modo certo". Bom, se eu relutava em fazer, era porque não me sentia preparada. Em um dos casos, o que deu certo posteriormente foi fruto do meu primeiro erro.


Talvez eu não seja uma mulher de "meios termos", mas use esse lugar como defesa

um lugar de ponderações que

eu não preciso fazer

nem agora

nem há seis anos atrás. 

há seis anos atrás.



É só um relato para alguma Outra-Eu, que esteja na fase do que eu era, 

há seis anos atrás

e para os próximos seis anos.


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Ejaculação precoce

Vez ou outra vem na cabeça fazer uns versinhos

Só para levar os boy pra cama

Na lábia

Pelos dedos...


O problema é que mal começo 

a escrever

já começo a gozar.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Degustação de tintos

 A tudo merecerei se estiver 

atenta.

Se estiver AQUI.

***

(mas como 

não ter medo

da gula sabendo que o mais sábio

dos deuses foi também

aquele que comeu 

os próprios filhos,

o Tempo?)


Se ainda é doloroso

mastigar minhas memórias

é também um banquete 

eu sei

sentir você em minhas fibras:


Somos D.E.l.I.C.I.O.S.O.S

Decifro-me e devoro-te.





 




quinta-feira, 18 de março de 2021

"Será que ela não se enxerga?"

Pode o subalterno não se sentir subalterno?


Pode o subalterno desejar? Por inteiro?

Pode o subalterno sentir por inteiro?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Sentir números

 Olhar o corpo de uma ideia, foi a primeira vez que vi materializada minha ansiedade. E ela fala em línguas. Números.


Abrir uma planilha e sentir. Não existe linguagem lógica. Os números ali desenhavam meus dias escorrendo em juros.


Amortizações decrescentes juros bebendo em meu pescoço e reproduzindo como células de um câncer. 


A minha ansiedade têm dentes feitos zeros arredondados, mas afiados. Que se escondem por trás de siglas. Abreviações que expandiram a  zero a esquerda que eu me sentia.  Como quem ficou pra trás depois de cansar de nadar.

.

.

Por isso, sinto tanta falta de ar.

Estava me afogando pelas bordas do sonho de uma casa própria.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ancestralidade

Eu apenas planto sementes.

Coloco num vaso de terra, aguo e espero.
Nenhuma das sementes que plantei nasceram.
Nenhuma.
O vaso parece só conter terra há meses.
E por isso colocam coisas por cima dele.
Jogam bitucas de cigarro.
Eu vou e retiro.
E molho.
Talvez o sal da água ainda faça a terra dali infértil.
Mas eu sei que um dia alguma das sementes naquela terra podem brotar.
E que se nenhuma das sementes que plantei brotarem, ao menos a terra estará fértil
para outras sementes
ou para alguma muda de planta.
A muda contará a todos sobre a herança que cultivei.
Ainda que ninguém escute.

sábado, 18 de julho de 2020

Valor de uso, referencial vazio e corpo desviantes


Um dia desses apareceu para mim como sugestão de leitura um texto sobre a relação entre o ato de comer animais e o modo como as mulheres são consumidas em nosso sistema de consumo.
Era um texto bem simples que fazia uma comparação entre o ato de observar um pedaço de carne retirando o seu sentido de “cadáveres de animais” e o corpo da mulher como algo a disposição para ser “comido”, consumido. 
Um termo utilizado e que achei realmente interessante é o de referencial ausente. Quando pensamos em uma pessoa ou objeto, esse pensar não é algo etéreo e sem matéria: é algo aterrado em referenciais. Isso quer dizer que precisamos ter em mente uma referência real para entendermos o que temos contato. 
O que faz olharmos uma cadeira e sabermos que estamos diante de uma cadeira? A quantidade de pernas? A função de sentar? Como conseguimos ver uma cadeira de três pernas e outra de quatro pernas e interpretarmos ambas como cadeiras? E como diferenciamos um banquinho de quatro pernas e uma cadeira de quatro pernas? 
A nossa visão passa por referenciais de mundo que consegue classificar tudo o que nos rodeia por analogia. 
Ao voltar ao tema corpos e carne já tendo em mãos o conceito de referencial ausente, ficou mais claro perceber como sou vista. 

O texto diz o seguinte:
A função do referencial ausente é manter a carne separada de qualquer ideia de que ela era um animal. As mulheres são referenciais ausentes em nossa cultura também, sendo vistas como um corpo a ser consumido e usado pela publicidade e de muitos outros modos. A teoria feminista é importante, porque nos ajuda a entender o modus operandi de como as opressões estão interligadas. O livro mostra como os animais são consumidos, literalmente, e como as mulheres são consumidas, visualmente, através de acesso sexual de seus corpos estupráveis.

Dessa forma, somos vistas como hologramas vivos, isso quer dizer, seres sem uma história válida, seres sem narrativa. Nossas dores e prazeres passado e expectativas de futuro não existe. Uma grande amiga em conversa sobre o assunto relações afetivas entre homens e mulheres, disse uma coisa muito interessante, que a relação que homens estabelecem com mulheres é a de eterno recomeçar. O que isso quer dizer? Que a relação que estabelecem conosco é como se fosse sem memórias e sem história. Se nos magoaram em algo e nos encontram em outro momento, agem como se toda a história construída anteriormente conosco nunca houvesse existido. Como se nossos corpos não fossem capazes de reter narrativas, apenas somos “deliciosas”, ou úteis ou inúteis. 
Por isso mesmo, após nos violentarem ou nos magoarem, podem conviver conosco como se nada tivesse deixado marcas reflexivas. 
Obviamente, esse tipo de relação de uso - valer somente enquanto gerar algo útil - não é sempre aberta. Mas, para alguns tipos de corpos, esconder que existe uma relação de uso apenas é quase dispensável. Como um bicho menos valorizado, mulheres com deficiência física parecem entrar nesse último grupo. 
O que eu reflito sobre isso é que há uma pressuposição de disponibilidade em relação à nós. Como se de alguma forma houvesse a garantia de que somos corpos disponíveis. Conforme a frase de Elza Soares sobre pessoas negras, somos tratadas como uma das “carnes mais baratas do mercado”.
Hologramas não menos desejáveis como poderia se pensar, somos apenas aparentemente mais disponíveis de se obter e, por isso mesmo, tratadas conforme uma precaridade de trocas. 
A pergunta que fica é como podemos nos empoderar dentro do universo afetivo? Talvez dissociando afeto e sexualidade. A sexualidade seria dessa forma absorvida por encontros casuais. Entretanto, é o tipo de encontro que coloca mulheres já em situação de vulnerabilidade ainda mais em risco (temos o dobro de chances de passar por abuso sexual). 

Ou, abdicando da sexualidade e centrando os afetos em relações de parceria e amizade. 

*Revista Estudos Feministas: Uma teoria feminista-vegana: a política sexual da carne 

domingo, 10 de maio de 2020

Virtualidades

Os seus dedos
Tateiam
e trabalham
frenéticos
e suaves
sob teclas
sobre teias...
friccionam e
massageiam
imagens
e carnes... (o desejo sempre foi uma virtualidade)
Os seus dedos
percorrem
sem tocar
(sem me tocar)
Os seus dedos
estão longe demais
do que me penetra

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Mulher com deficiência

Eu sou
“aquela”
aquela
mulher com deficiência
em ser troféu
de igreja ou provedor
Eu sou
“aquela”
aquela
que “apesar de”
sorri
e chora
e goza
e também luta
útero prenhe
de luz
como qualquer outra
Aquela
que é
frágil
no que lhe destinaram heroína
e forte
no que lhe queriam
silêncio
e “mal resolvida”
Aquela
feita
de instante e fotossíntese
realizada
apesar de.
Flor
de pétalas
deformadas
e néctar de formato
perplexo
e orvalhado
das gotas que escorrem
por toda a sua pele
Aquela
que se serve
do próprio dito defeito:
Ter nascido
corpo-constrangimento
encarnação do "erro" de Deus
pecado meu
aos olhos dos homens
(como sempre!)
E mais pecadora ainda
em ter aprendido
por eu mesma
a ser perfeita
não por obra de um milagre
ou reza
perfeita
para todo aquele e aquela
que espera mais do que
o tédio
de um Deus
que só projeta beleza
na simetria do previsível
paraíso que só existe
na cura de um amanhã
Eu sou
“aquela”
“aquela”
filha do erro divino
em não seguir
a lógica dos homens
encarnação do pecado de Deus
em me fazer
"assim"
por puro capricho
Aquela
que não é sua imagem e semelhança
e está sempre e apenas sendo
ela
aquela
que pari e renasce
todo dia
do próprio útero
e com meus poucos dedos
de minhas próprias escrituras.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Encontro

 quanto mais as pessoas negam meu corpo
mais o procuro
é por meio dessa matéria - corpo - que eu sinto o mundo
e por meio desse sentir que construo o quê penso
alguém dizer para mim que eu venci meu corpo
e querer que eu transcenda meu corpo
é destruir minha inteireza
é me jogar numa busca ainda mais incessante desse corpo
dessa minha máquina de sentir e pensar
Esperar que eu supere meu corpo
que eu dê algo em troca da falta que transferem ao meu corpo
inventar poderes mágicos para ele
em volta de uma falta que não existe
só para disfarçar o incômodo com uma suposta falta
minha,
só me devassa mais
como todo mundo eu também quero saber
o que as pessoas acham que eu sou
e quem sou eu em meio a tantos espelhos
distorcidos
O quê posso querer ser...
Mas
eu não poderia ser mais bonita se
(não tivesse deficiência física)
eu não sou feia por causa da
(deficiência física)
eu não sou mais inteligente para compensar
(minha deficiência física)
nem mais psiquicamente forte
As fibras que compõem meu cérebro têm
igual ou maior limitação que boa parte das pessoas
e eu não estou me expondo mais
eu estou me impondo com mais ferocidade apenas
se eu não posso ser "normal"
então serei a minha detalhada invenção
de anormalidade
eu não estarei mais somente nas
descrições e fotos de livros médicos
nem somente na categoria de pornografia bizarra
Eu não serei a esposa de um homem
misericordioso e muito preocupado
E sim
A antipatologia de um corpo
A antipornografia de um tesão
A minha grafia ontológica
A minha detalhada invenção em naturalidade
eu existirei deliciosamente
para fora de mim
como uma invenção minha
pelo menos em alguma medida
e os livros médicos não serão a única referência possível
da existência de pessoas como eu
E
não sinta dó de mim
seu amor me assedia quando você vira as costas
e eu penso em ceder
mas lembro que
não preciso disso
que você não é mais feliz porque tem mais dedos
e nem eu lembro disso quando os boletos chegam
mas eu lembro bem que
as mulheres não são mais felizes porque têm um homem
e nem eu serei se tiver um
eu só ando querendo me ter
que foi a minha primeira subtração pelo mundo
então
eu invento
com muita naturalidade
não me incomodar com o quê inventam sobre mim
sobre meu corpo
Jogo fora alguns santinhos não requisitados
Assim que viram as costas
E escrevo um poema
com mais uma parte de meu retrato-falado e novas invenções