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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ancestralidade

Eu apenas planto sementes.

Coloco num vaso de terra, aguo e espero.
Nenhuma das sementes que plantei nasceram.
Nenhuma.
O vaso parece só conter terra há meses.
E por isso colocam coisas por cima dele.
Jogam bitucas de cigarro.
Eu vou e retiro.
E molho.
Talvez o sal da água ainda faça a terra dali infértil.
Mas eu sei que um dia alguma das sementes naquela terra podem brotar.
E que se nenhuma das sementes que plantei brotarem, ao menos a terra estará fértil
para outras sementes
ou para alguma muda de planta.
A muda contará a todos sobre a herança que cultivei.
Ainda que ninguém escute.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sobre quem eu sou parte II: a festa...

Sobre quem eu sou parte II: a festa...

Seria mais uma dessas comemorações familiares não fossem as idéias. Há muitos meses que não via meus tios por parte de mãe e o casamento de minha tia caçula finalmente conseguiu reunir a todos. O ponto de encontro era a casa de minha avó, Dona Joaquina, matriarca de seis filhos os quais criou sozinha, com muito sacrifício e muita dificuldade. Dos sete, apenas um não estava presente por motivo de desaparecimento a mais de dez anos – doença mental. Todos os demais estavam lá, presentes, unidos, cheios de filhos e netos a correr pela rua pela falta de espaço na pequena casa de minha avó. Três de seus cinco filhos presentes moram na casa de sua mãe, casa esta obtida na época do Governo Quércia, em lotes de pequeníssimas casas muitíssimo afastadas dos centros e que abrigariam famílias de grandes proporções as quais, com o tempo, fariam desses locais, sobrados mal planejados, puxadinhos, reformas das mais diversas, tendo em vista que em seu formato original não os caberiam de maneira alguma.

Apesar das melhoras nos transportes públicos da região leste de São Paulo, muitos dos convidados tiveram de esperar o ônibus por uma hora a fio para garantir presença na comemoração. Os ônibus têm maior freqüência durante a semana, nos dias “úteis” em que trabalhadores que moram na “extrema-periferia” atravessam a cidade por salários modestos e algum utensílio de conforto em seus lares. E têm toda a razão: somente em seus lares têm a possibilidade de nos “dias- inúteis” terem algum conforto, não serem empurrados, pisoteados, ou esperarem por um transporte público que por essa lógica maluca só serve para servir ao que é privado – somente ao trabalho.  E foi assim que,  após duas horas de metrô lotado (Butantã – Itaquera) e a carona de minha mãe a me pegar na Estação Corinthians Itaquera, que chegamos à casa que seria ponto de encontro para o churrasco. O salão ficava na rua ao lado onde somente após a chegada de todos iríamos seguir a pé.

Enquanto o momento de partir não alcançava, crianças que não mais reconhecia as feições me cumprimentavam e esclareciam a esta persona non grata serem meus primos. Uma tia avó questionava à minha avó se o pai de meu filho “me ajudava” com algo para a criança e eu a conhecer o mais novo andar da casa dos fundos, construído pelo marido de minha tia. Tia Elizete, a noiva, é uma dessas mulheres, ou melhor, é A mulher de personalidade forte, fala direta e sincera, de uma beleza que os homens querem, mas que não teve muita sorte no amor até então.  Mãe de quatro filhos e apesar disto com pouca paciência pra crianças, sempre investiu todas as suas energias nos amores de sua vida e sempre foi muito criticada por sua mãe por conta disso. O novo marido, o único “marido mesmo”, de papel passado foi mais uma de suas ousadias em uma família branca, de loiros de olhos azuis e que olhava pessoas negras assim, meio de lado.  Negro, orgulhoso, sorridente e de fala extrovertida, Genésio conseguiu sucesso financeiro por sua competência extrema como chefe de obras. Apesar disso, construiu a nova casa, a nova vida, na “extrema periferia” de São Paulo, pois lá é feliz e pretende seguir sua nova história.

O salão era um segundo andar construído acima de uma das casas do tipo descrito acima em que havia uma churrasqueira, muita carne, pães, cerveja à vontade e uma família que veio do nordeste e que conseguiu construir uma história acima de tudo de união. 

Entre uma conversa e outra, meu primo de 17 anos senta-se para falar comigo e perguntar de minha irmã, com quem tem muito mais contato. Conversa vai, conversa vem, perguntas sobre o que faço, o que tanto estudo (oito anos de graduação é difícil de explicar) e eu o questiono sobre o futuro. A resposta, porém, é simples e pragmática: “vou trabalhar na loja com meu pai. Já estou dentro, montando móveis, só preciso estar mais perto dele, do trabalho dele”. E os estudos, pergunta a prima estudiosa: “mal sei falar e ler direito, não vai dar certo”. Também na mesma conversa, me pôs a saber  que os montadores de móveis da loja de seu pai ganham melhor do que eu. Devo esclarecer que isso em nada fere meu orgulho, mas me deixa um tanto quanto invejosa por não saber o oficio.

Durante a comilança e as conversas de mulheres de nossa mesa, Genésio me aborda e diz que quer me apresentar a um amigo. A pessoa em questão, ou melhor, a família em questão, era a de seu melhor amigo, amigo de toda a vida e a quem fui escolhida para apresentação por ser, segundo ele, alguém passível de muita admiração. Durante nossa conversa, Genésio me contou que fui apresentada por ser uma “intelectual”. Fui apresentada ao melhor amigo de toda sua vida por ser “A intelectual”.  

E como não ser “A intelectual” com todas as observações estereotipadas e com esse tipo de texto tão distanciado? Que a tudo observa como se não fizesse parte? A intelectual que foi morar no bairro nobre de São Paulo? A mesma que tem um falar tão diverso daquela família. Palavras que distanciam... Que escondem. Esconderam de mim também, como se a V.Y de sempre tivesse irreversivelmente morta.

Ao mesmo tempo, não consigo mais me lembrar a quanto tempo eu não me sentia tão à vontade: tão em casa!  Era como se finalmente, eu estivesse entre os meus...

Em tempo! Devo confessar  um arrependimento: não ter jamais cursado marcenaria...rsrs!  

             

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Da solidão necessária (e inevitável)


Há quem defenda que a condição humana é a da dependência em relação ao outro. A de nunca estar só. Mas, talvez em decorrência de tantas chuvas e de uma solidão eterna que em mim parece enraizar-se com o passar do tempo (quem sabe como o mato que prospera com a chuva), enxergo que grande parte de meus medos, covardias e erros venham da negação furiosa que opero para esquivarme de uma condição primeira: a solidão necessária da condição de existir. Não sei isso acomete a todos, mas acredito que, mesmo em parte, sim: quem nunca invejou de forma incestuosa as decisões alheias? Quem nunca sonhou com ter a seu serviço uma espécie de gênio que viesse aos ouvidos e lhe revelasse a escolha certa em uma situação difícil? Um gênio que lhe tomasse o corpo, como quem toma uma marionete e que o “fizesse fazer”? Somos absolutamente solitários em nossas decisões, em nossas responsabilidades e em nossas dores. Há a possibilidade de culparmos a outros, e os culpados podem mesmo existir. Porém, em uma reflexão sincera e franca junto ao travesseiro será difícil nos exirmimos de nossa cumplicidade a nossos algozes. A condição solitária fica ainda mais evidente se pensarmos em nossas dores. A quem confessar a raiva infantil e os desejos bobos que a provocou? A quem partilhar a amargura ainda doída do que tivemos de passar por cima? É claro que a “vaguidão” de tantas perguntas tem origem mesma na solidão do que tenho de guardar e que talvez contextualizasse melhor tanta inquietação.  Por outro lado, posso compartilhar o que ando a observar em mim e nos que vivem ao meu redor. O que anda a despertar o meu interesse, tanto em minhas atitudades, quanto nas atitudes de quem amo, ou mesmo de quem odeio, é o medo. Quantas paixões amputadas, violências, durezas, futilidades, passividade acompanham a sofreguidão de nos entregarmos as decisões alheias e paradoxalmente, em não admitirmos a dependencia que temos do amor alheio?  O medo que azeda tudo. Explico. Acredito que por não ser suportável a nossa condição solitária, amamos. Enquanto estamos junto ao ser amado, nos sentimos protegidos de nossa condição. Ao mesmo tempo, podemos ou, nos viciar nisso, e nos tornarmos “escravos do outro”, nos rebaixando inteiramente as suas vontades. O contrário também é possível e, a fim de demonstrarmos a nós mesmos nossa “racionalidade” e distanciamento, passamos a depreciar e ignorar o ser amado, ou a qualquer um que ouse expor nossas fragilidades. Um exemplo disso é o que acontecia quando ainda não era mãee e dizia que tinha medo de crianças. Isso porque, muitas delas, ao se depararem com minha deficiência, eram categóricas: “você é feia!”. Por muito tempo, creio, tive medo de acreditar nisso. Então, preferia manter-me distante a fim de não odiar-me. Com o tempo, essa questão foi se resolvendo em mim e consequentemente, perdi o medo dos pequenos. Embora reflexões exparsas e com pouca maturidade para descrever o que exatamente gostaria de escrever, nestes últimos meses ando a sentir o peso do que  chamo aqui de condição solitária da existência. Ser ou não ser dizia Shakeaspeare e ele tinha razão: decidir é realmente angustiante. Condição paradoxal a de apenas nos completarmos no outro e pelo outro e ao mesmo tempo sermos  os únicos a termos o leme de nossas decisões – dentro de um quadro de opções. A coragem em dizer sim e em dizer não às aproximações à subjetidade alheia. Aprender a diferenciar “estar só” e “ser só”.  Por esses dias, em conversa com meus botões, pensava em uma “mania feia” que insisto em repetir: contar tudo de minha vida de maneira descontrolada. Colocando de lado o caráter narcisico desta mania, percebi que expunha-me descontroladamento por algo além do que a necessidade de falar sobre mim. Não sou eu geralmente quem inícia assuntos em que a minha vida seja o tema princípal (ao menos não na maioria dos casos). Por algum motivo que desconheço, as pessoas com quem tenho contato têm uma curiosidade enorme sobre minha vida. Nada de mal até aí, se essas “curiosidades” não fossem geralmente invasivas e de intenções duvidosas. Geralmente estão a especular a “exoticidade” de minhas atitudades frente a minha condição de pessoa que tem deficiência – namorar, ter filho, sair à noite, etc. Mas o que eu realmente ando a me perguntar é o porquê eu tão solicitamente respondo em pormenores a esse tipo de interlocutor? Por que sinto-me tão impelida a prestar contas de minhas atitudes? A condição de existir é de solidão e eu acrescentaria, dentro de uma enorme contradição que não sei resolver, amor. Eu sou uma viciada da aprovação alheia. Um carência estranha que de fundo esconde uma enorme covardia em frustrar expectativas alheias são (ou assim acredito) alicerssam essa compulsividade em expor-me tão desprotegidamente.   Um dia, quem sabe, eu consiga resolver todas as contradições desse desabafo. Até lá, é ter paciência com a vida que, mal criada, opera suas  mudanças somente a conta gotas...                   

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre quem sou...

Já faz dois anos que ela se foi e tudo o que representou , em presença e em ausência, nunca foi escrito por mim até agora. Procrastinação, medo e imaturidade resumiriam bem o meu silêncio...

Essa “ela” de quem contarei hoje é Dona Maria Lourdes Gonçalves, minha avó paterna. Mulher nascida no interior de São Paulo em 1925, Batatais, foi criada por sua mãe sozinha, pois perdeu seu pai ainda com dois anos de idade. Teve mais quatro irmãos, dois dos quais eu conheci. Os outros dois morreram, um aos seis anos de idade e outro na juventude, afogado na piscina do Club Nitro Química Irei deter-me na primeira morte apenas ao final deste texto. Morreu aos 82 anos após um AVC durante um tratamento para cura de um Câncer. Essa caipira corajosa e disciplina foi, junto com meus pais, a pessoa que “me criou” e graças a quem sou o que sou. Mas não é apenas um escrito de homenagem o que me traz novamente à essa arena...

O silêncio “significa”. E não apenas: é um verbo com objeto direto - silenciar alguém. No texto passado, discuti a função do sentido para o aprendizado e desconstrução de ideologias em nossa subjetividade. Não sei se consegui imprimir força suficiente para os perigos de uma cegueira em relação a alguns sentidos, mas, talvez, na corporização do que isso pode levar consiga ser, se não mais clara, mais palpável. O que me traz aqui é o grande incômodo em tardiamente ter percebido o que fiz: eu passei boa parte de minha adolescência e fase adulta a perfidamente silenciar a minha avó.

Dona Lourdes foi uma grande contadora de histórias. Das histórias de sua vida. Conforme foi envelhecendo, parecia mais querer falar. E falava. Mas, mal sabia ela, falava só...Passei minha infância em companhia de minha avó. Eu fui sua principal interlocutora e sua principal “emudecedora”. Explicarei com algumas perguntas e conclusões que tanto demorei a delinear. O que acontece quando quem tanto amamos passa a nos irritar veementemente? E o que deve acontecer quando quem tanto amamos e a quem tanto nos dedicamos passa a nos ignorar ferozmente?

Violência. É isso o que acontece. Há vários tipos e modos de violência. Algumas são mais óbvias em nossa cultura. Mas o espectro é grande o suficiente para não enxergarmos certas nuances. A família é um trator de subjetividades. O tempo todo na defensiva, a querer salvar nossas identidades e, conseqüentemente, a passar por cima das demais. É no ambiente familiar, neste ambiente de amor - e ódio - que parece estarmos mais vulneráveis e mais ferozes com outros indivíduos A promiscuidade da evasão e da invasão de nossas subjetividades em um ambiente transpassado por uma sociedade em que a voz do velho e da criança são caracterizadas pela irrelevância e pela imprudência, não poderia gerar senão, violência. Em minha casa não foi diferente. E tudo que é sólido se desmancha com o ar...
Em 2008 minha avó veio a falecer após um ano inteiro de dor, medo e indiferença de muitos dos que tanto amou. Seus filhos “não tinham mais paciência” para ouvi-la. Uma de suas netas que também foi criada por ela apenas a ajudava quando tinha vontade. Eu, também por conta da gravidez, não conseguia ouvi-la sem descordar e talvez, as únicas que não a desqualificou foram minhas primas. Quem sabe, por terem morado muito tempo fora do país, a elas, as histórias de Dona Lourdes não enfastiavam. Quando somos crianças, achamos que para sempre teremos nossos pais. Eles são fortes, sábios e sempre nos salvam de tudo. Acho que crescemos e essa idéia não nos deixa de todo. Eu tinha toda a eternidade para ouvi-la, então porque fazer isso naquele momento? Muito mais importante ler teóricos, filósofos, jornais, revistas, “gente jovem” “sem idéias passadas e de pouca utilidade em nosso contexto”.

Eu teria de ler um pouco mais, ou ouvir um pouco mais. Mas o que sei é que de algum modo, Walter Benjamin tinha razão. Não temos mais paciência para narrativas reais. Deixamos folhas de papel e giga bytes nos substituir. A palavra, que voa com o vento, mas que mais força chega ao coração está em baixa no mercado. Eu leio para me tornar “uma pessoa melhor”, mas o que eu pareço ter esquecido – e não só eu - é que de nada servirá “ser” se o tempo se encarregará de calar esse “conhecimento” adquirido sob o rótulo da velhice. Talvez seja preciso, de uma vez por todas, parar de nos embasbacar com a legitimidade dada à escrita e voltar a “ouvir conselhos e histórias de vida”.

Por estes dias, em um conflito que tive com meu filho, percebi que repetia os mesmos erros de minha mãe. Eu os repetia mecanicamente. Daí que percebi além dos erros, muito do que eu negava de seus conselhos, não passavam de pura birra e dos defeitos que lhe atribuo, pura demagogia, pois os repetia tal qual ela. Somos também e fortemente quem convivemos. Se tudo o que estudamos, nos enfeitamos e nos gabamos nada mais é do que ferramentas de nossos desejos, o desejo pelo outro, somos sim, como nossos pais. E enquanto não estivermos atentos a isso, corremos sério risco de termos em nosso destino o mesmo que dei a minha avó: o silêncio. Violentamente, o silêncio. Substituídos por qualquer palavra socialmente – pelo senso comum – legitimada. Por qualquer palavra morta sem afeto...

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“Lurdinha” tinha ainda dois anos, quando seu irmãozinho de seis, ficou muito doente: intestino preso. O menino não conseguia ir ao banheiro e a situação cada vez mais se só se agravava.

Lourdes e seus irmãos moravam na roça, em um sítio pobre, mas que tinha algumas mangueiras. Manga era a fruta predileta do irmão de Lourdes.

Os dias passavam e o menino ficava cada vez pior, até que sua mãe, finalmente, resolveu levá-lo para o Hospital, na cidade. Mas o trem que os levariam só passava pela manhã e sem outro meio de transporte disponível, teriam de esperar.

“Manga prende o intestino” diz o medicina popular e também a mãe de Lourdes ao seu irmãozinho. Mas o menino não largava a saborosa fruta à espera do momento em que, por fim, pudesse dar uma dentada daquelas na em sua suculenta manguinha.

Quase pela manhã, já desfalecido pelas dores de barriga, mas ainda com a manga nas mãos, o menino não agüentou Um outro trem passou primeiro e o levou. Um mais rápido e menos cruel. E o menino se foi, levando a manga nas mãos...

Conta minha avó que em cima de sua sepultura, um tempo depois, nasceu sem que ninguém ali plantasse, um lírio branco que nunca morria, apesar das todas as pragas e do mau tempo.