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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ancestralidade

Eu apenas planto sementes.

Coloco num vaso de terra, aguo e espero.
Nenhuma das sementes que plantei nasceram.
Nenhuma.
O vaso parece só conter terra há meses.
E por isso colocam coisas por cima dele.
Jogam bitucas de cigarro.
Eu vou e retiro.
E molho.
Talvez o sal da água ainda faça a terra dali infértil.
Mas eu sei que um dia alguma das sementes naquela terra podem brotar.
E que se nenhuma das sementes que plantei brotarem, ao menos a terra estará fértil
para outras sementes
ou para alguma muda de planta.
A muda contará a todos sobre a herança que cultivei.
Ainda que ninguém escute.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

INICIAÇÃO

Primeiro,

o abandono dos sapatos.

Os pés nus, 

e a descoberta íntima do chão.

Entender o mundo pelo tato,

e experimentar a firmeza da vida 

pelos pés desprotegidos de seus medos.

Depois, no solo desnudo de cimento,

acariciar a terra

e nela reencontrar,

íntima de mim,

os meus pés e o meu firmamento.

Já arraigada,  por fim,

redescobrir o corpo

de suas inúteis cobertas.

Olhar por entre as vendas desses panos,

o que do olhar acoberta.

Devolver ao mundo,

os sapatos apertados,

os passos rasgados, 

e as cicatrizes 

que suas roupas escondiam

enquanto não tinha coragem de me despir.