terça-feira, 20 de abril de 2010

Maldito Marx!!!


Ócio. Tédio. A dúvida é inevitável: caralho, porque não posso aproveitar esse tempo dormindo?!?!?! Afinal,  dormir é só o que desejo nos últimos tempos.

O dia está lindo lá fora e eu deveria ter vontade de viver o que está lá. Mas penso na trabalheira disso e a vontade em estar no aconchego de minha cama retorna. Viver é coisa de uma trabalheira, né?! Tantas coisas a fazer e sempre parece assim: ter sempre algo em atraso a fazer.

Em meio a este estado anestésico e incômodo resolvi perambular por algum dos milhões de blogs que tenho em meus favoritos do Explorer e não é que caio em um maldito texto sobre a teoria marxista?!

 

O mundo só existe para o animal como deglutição, consumo, objeto de desgaste e destruição – a busca da repetição incessante desse mundo faz da sobrevivência seu campo de realização.

 

Só o homo sapiens sabe que vai morrer. Então, para ele, não faz nenhum sentido que o mundo seja apenas a incessante repetição da busca por comer e copular. Ele não pode mais deixar que lhe passe com indiferença a existência que lhe resta: só quem tem consciência da proximidade crescente da morte é capaz de estabelecer a vida como sua esfera de existência.

 

O homem inventa o arco e a flecha para não ter que passar o resto da vida correndo sem parar atrás da comida. Ele precisa cantar, dançar, brincar, conversar, inventar, imaginar, pensar, em suma, ele precisa transformar o mundo de maneira que deixe de meramente sobreviver e passe a viver. Ele precisa fazer do mundo um lugar bonito, musical, gostoso e aconchegante onde ele não precise mais brigar por comida, onde ele possa encontrar seus amigos e mostrar para eles seus inventos, danças, músicas, pensamentos, brincadeiras e conhecer o que seus amigos têm de novo, para que, juntos, possam transformar novamente o mundo num lugar onde tudo isso possa se realizar.

 

No blog em que recolhi o exerto acima– Café Moçambique, alegam ser o texto anonimo. É claro que, como já iniciada na teoria marxista e em um monte de outras tantas, não deveria haver qualquer espanto, ou estranhase na leitura deste tipo de texto. Mas como não pensar no estado de prostração a que me confinei nos últimos tempos? Eu trabalho para viver, mas vem final de semana, vem feriado, vem férias e só o que quero é dormir?

Resolvi voltar a escrever. Nem que seja qualquer coisa. Q.U.A.L.Q.U.E.R C.O.I.S.A! Este cérebro, estas ansiedades, todas as trivialidades que esta caichola habitam necessitam voltar a serem registradas: preciso de uma prova cabal de que ainda estou viva... 

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Da solidão necessária (e inevitável)


Há quem defenda que a condição humana é a da dependência em relação ao outro. A de nunca estar só. Mas, talvez em decorrência de tantas chuvas e de uma solidão eterna que em mim parece enraizar-se com o passar do tempo (quem sabe como o mato que prospera com a chuva), enxergo que grande parte de meus medos, covardias e erros venham da negação furiosa que opero para esquivarme de uma condição primeira: a solidão necessária da condição de existir. Não sei isso acomete a todos, mas acredito que, mesmo em parte, sim: quem nunca invejou de forma incestuosa as decisões alheias? Quem nunca sonhou com ter a seu serviço uma espécie de gênio que viesse aos ouvidos e lhe revelasse a escolha certa em uma situação difícil? Um gênio que lhe tomasse o corpo, como quem toma uma marionete e que o “fizesse fazer”? Somos absolutamente solitários em nossas decisões, em nossas responsabilidades e em nossas dores. Há a possibilidade de culparmos a outros, e os culpados podem mesmo existir. Porém, em uma reflexão sincera e franca junto ao travesseiro será difícil nos exirmimos de nossa cumplicidade a nossos algozes. A condição solitária fica ainda mais evidente se pensarmos em nossas dores. A quem confessar a raiva infantil e os desejos bobos que a provocou? A quem partilhar a amargura ainda doída do que tivemos de passar por cima? É claro que a “vaguidão” de tantas perguntas tem origem mesma na solidão do que tenho de guardar e que talvez contextualizasse melhor tanta inquietação.  Por outro lado, posso compartilhar o que ando a observar em mim e nos que vivem ao meu redor. O que anda a despertar o meu interesse, tanto em minhas atitudades, quanto nas atitudes de quem amo, ou mesmo de quem odeio, é o medo. Quantas paixões amputadas, violências, durezas, futilidades, passividade acompanham a sofreguidão de nos entregarmos as decisões alheias e paradoxalmente, em não admitirmos a dependencia que temos do amor alheio?  O medo que azeda tudo. Explico. Acredito que por não ser suportável a nossa condição solitária, amamos. Enquanto estamos junto ao ser amado, nos sentimos protegidos de nossa condição. Ao mesmo tempo, podemos ou, nos viciar nisso, e nos tornarmos “escravos do outro”, nos rebaixando inteiramente as suas vontades. O contrário também é possível e, a fim de demonstrarmos a nós mesmos nossa “racionalidade” e distanciamento, passamos a depreciar e ignorar o ser amado, ou a qualquer um que ouse expor nossas fragilidades. Um exemplo disso é o que acontecia quando ainda não era mãee e dizia que tinha medo de crianças. Isso porque, muitas delas, ao se depararem com minha deficiência, eram categóricas: “você é feia!”. Por muito tempo, creio, tive medo de acreditar nisso. Então, preferia manter-me distante a fim de não odiar-me. Com o tempo, essa questão foi se resolvendo em mim e consequentemente, perdi o medo dos pequenos. Embora reflexões exparsas e com pouca maturidade para descrever o que exatamente gostaria de escrever, nestes últimos meses ando a sentir o peso do que  chamo aqui de condição solitária da existência. Ser ou não ser dizia Shakeaspeare e ele tinha razão: decidir é realmente angustiante. Condição paradoxal a de apenas nos completarmos no outro e pelo outro e ao mesmo tempo sermos  os únicos a termos o leme de nossas decisões – dentro de um quadro de opções. A coragem em dizer sim e em dizer não às aproximações à subjetidade alheia. Aprender a diferenciar “estar só” e “ser só”.  Por esses dias, em conversa com meus botões, pensava em uma “mania feia” que insisto em repetir: contar tudo de minha vida de maneira descontrolada. Colocando de lado o caráter narcisico desta mania, percebi que expunha-me descontroladamento por algo além do que a necessidade de falar sobre mim. Não sou eu geralmente quem inícia assuntos em que a minha vida seja o tema princípal (ao menos não na maioria dos casos). Por algum motivo que desconheço, as pessoas com quem tenho contato têm uma curiosidade enorme sobre minha vida. Nada de mal até aí, se essas “curiosidades” não fossem geralmente invasivas e de intenções duvidosas. Geralmente estão a especular a “exoticidade” de minhas atitudades frente a minha condição de pessoa que tem deficiência – namorar, ter filho, sair à noite, etc. Mas o que eu realmente ando a me perguntar é o porquê eu tão solicitamente respondo em pormenores a esse tipo de interlocutor? Por que sinto-me tão impelida a prestar contas de minhas atitudes? A condição de existir é de solidão e eu acrescentaria, dentro de uma enorme contradição que não sei resolver, amor. Eu sou uma viciada da aprovação alheia. Um carência estranha que de fundo esconde uma enorme covardia em frustrar expectativas alheias são (ou assim acredito) alicerssam essa compulsividade em expor-me tão desprotegidamente.   Um dia, quem sabe, eu consiga resolver todas as contradições desse desabafo. Até lá, é ter paciência com a vida que, mal criada, opera suas  mudanças somente a conta gotas...                   

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre quem sou...

Já faz dois anos que ela se foi e tudo o que representou , em presença e em ausência, nunca foi escrito por mim até agora. Procrastinação, medo e imaturidade resumiriam bem o meu silêncio...

Essa “ela” de quem contarei hoje é Dona Maria Lourdes Gonçalves, minha avó paterna. Mulher nascida no interior de São Paulo em 1925, Batatais, foi criada por sua mãe sozinha, pois perdeu seu pai ainda com dois anos de idade. Teve mais quatro irmãos, dois dos quais eu conheci. Os outros dois morreram, um aos seis anos de idade e outro na juventude, afogado na piscina do Club Nitro Química Irei deter-me na primeira morte apenas ao final deste texto. Morreu aos 82 anos após um AVC durante um tratamento para cura de um Câncer. Essa caipira corajosa e disciplina foi, junto com meus pais, a pessoa que “me criou” e graças a quem sou o que sou. Mas não é apenas um escrito de homenagem o que me traz novamente à essa arena...

O silêncio “significa”. E não apenas: é um verbo com objeto direto - silenciar alguém. No texto passado, discuti a função do sentido para o aprendizado e desconstrução de ideologias em nossa subjetividade. Não sei se consegui imprimir força suficiente para os perigos de uma cegueira em relação a alguns sentidos, mas, talvez, na corporização do que isso pode levar consiga ser, se não mais clara, mais palpável. O que me traz aqui é o grande incômodo em tardiamente ter percebido o que fiz: eu passei boa parte de minha adolescência e fase adulta a perfidamente silenciar a minha avó.

Dona Lourdes foi uma grande contadora de histórias. Das histórias de sua vida. Conforme foi envelhecendo, parecia mais querer falar. E falava. Mas, mal sabia ela, falava só...Passei minha infância em companhia de minha avó. Eu fui sua principal interlocutora e sua principal “emudecedora”. Explicarei com algumas perguntas e conclusões que tanto demorei a delinear. O que acontece quando quem tanto amamos passa a nos irritar veementemente? E o que deve acontecer quando quem tanto amamos e a quem tanto nos dedicamos passa a nos ignorar ferozmente?

Violência. É isso o que acontece. Há vários tipos e modos de violência. Algumas são mais óbvias em nossa cultura. Mas o espectro é grande o suficiente para não enxergarmos certas nuances. A família é um trator de subjetividades. O tempo todo na defensiva, a querer salvar nossas identidades e, conseqüentemente, a passar por cima das demais. É no ambiente familiar, neste ambiente de amor - e ódio - que parece estarmos mais vulneráveis e mais ferozes com outros indivíduos A promiscuidade da evasão e da invasão de nossas subjetividades em um ambiente transpassado por uma sociedade em que a voz do velho e da criança são caracterizadas pela irrelevância e pela imprudência, não poderia gerar senão, violência. Em minha casa não foi diferente. E tudo que é sólido se desmancha com o ar...
Em 2008 minha avó veio a falecer após um ano inteiro de dor, medo e indiferença de muitos dos que tanto amou. Seus filhos “não tinham mais paciência” para ouvi-la. Uma de suas netas que também foi criada por ela apenas a ajudava quando tinha vontade. Eu, também por conta da gravidez, não conseguia ouvi-la sem descordar e talvez, as únicas que não a desqualificou foram minhas primas. Quem sabe, por terem morado muito tempo fora do país, a elas, as histórias de Dona Lourdes não enfastiavam. Quando somos crianças, achamos que para sempre teremos nossos pais. Eles são fortes, sábios e sempre nos salvam de tudo. Acho que crescemos e essa idéia não nos deixa de todo. Eu tinha toda a eternidade para ouvi-la, então porque fazer isso naquele momento? Muito mais importante ler teóricos, filósofos, jornais, revistas, “gente jovem” “sem idéias passadas e de pouca utilidade em nosso contexto”.

Eu teria de ler um pouco mais, ou ouvir um pouco mais. Mas o que sei é que de algum modo, Walter Benjamin tinha razão. Não temos mais paciência para narrativas reais. Deixamos folhas de papel e giga bytes nos substituir. A palavra, que voa com o vento, mas que mais força chega ao coração está em baixa no mercado. Eu leio para me tornar “uma pessoa melhor”, mas o que eu pareço ter esquecido – e não só eu - é que de nada servirá “ser” se o tempo se encarregará de calar esse “conhecimento” adquirido sob o rótulo da velhice. Talvez seja preciso, de uma vez por todas, parar de nos embasbacar com a legitimidade dada à escrita e voltar a “ouvir conselhos e histórias de vida”.

Por estes dias, em um conflito que tive com meu filho, percebi que repetia os mesmos erros de minha mãe. Eu os repetia mecanicamente. Daí que percebi além dos erros, muito do que eu negava de seus conselhos, não passavam de pura birra e dos defeitos que lhe atribuo, pura demagogia, pois os repetia tal qual ela. Somos também e fortemente quem convivemos. Se tudo o que estudamos, nos enfeitamos e nos gabamos nada mais é do que ferramentas de nossos desejos, o desejo pelo outro, somos sim, como nossos pais. E enquanto não estivermos atentos a isso, corremos sério risco de termos em nosso destino o mesmo que dei a minha avó: o silêncio. Violentamente, o silêncio. Substituídos por qualquer palavra socialmente – pelo senso comum – legitimada. Por qualquer palavra morta sem afeto...

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“Lurdinha” tinha ainda dois anos, quando seu irmãozinho de seis, ficou muito doente: intestino preso. O menino não conseguia ir ao banheiro e a situação cada vez mais se só se agravava.

Lourdes e seus irmãos moravam na roça, em um sítio pobre, mas que tinha algumas mangueiras. Manga era a fruta predileta do irmão de Lourdes.

Os dias passavam e o menino ficava cada vez pior, até que sua mãe, finalmente, resolveu levá-lo para o Hospital, na cidade. Mas o trem que os levariam só passava pela manhã e sem outro meio de transporte disponível, teriam de esperar.

“Manga prende o intestino” diz o medicina popular e também a mãe de Lourdes ao seu irmãozinho. Mas o menino não largava a saborosa fruta à espera do momento em que, por fim, pudesse dar uma dentada daquelas na em sua suculenta manguinha.

Quase pela manhã, já desfalecido pelas dores de barriga, mas ainda com a manga nas mãos, o menino não agüentou Um outro trem passou primeiro e o levou. Um mais rápido e menos cruel. E o menino se foi, levando a manga nas mãos...

Conta minha avó que em cima de sua sepultura, um tempo depois, nasceu sem que ninguém ali plantasse, um lírio branco que nunca morria, apesar das todas as pragas e do mau tempo.

 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um, dois, três, testanto!

Ano novo, vida nova, já diz o ditado popular. Então, para dar um empurraozinho nos posts deste ano, vamos mudar esta cara amassada e ver se exercitamos essas idéias enrrugadas...Nova cara e nova casa também! Replicarei (mais um projeto infálivel?) o conteúdo deste diário também em www.yaritcha.wordpress.com. Vamos ver no que dá!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Discurso e sentido

“Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro!”
DOSTOIÉVSKI - Crime e Castigo
A cada dia que passa, convenço-me mais e mais de que apenas “papagueamos” boa parte dos discursos que pronunciamos. Não porque sejam discursos já ditos e repetidos, mas porque no fundo, não fazem sentido verdadeiramente para nós. E eu digo “nós”, pois enxergo isso o tempo todo ao meu redor. Explicarei o que entendo deste recorte de idéias e de onde o retirei.
Sentido englobaria os conceitos  e apreensões discursivas que inerentemente se ligariam à nossa vida e às nossas experiências, a capacidade em entender algo e/ou se colocar na  situação dita entendida, ou ainda, no papel – social - dito entendido. Estaria então no âmbito dos enunciados e da sua consequente (ou seria inerente?) classificação de mundo. Seria assim, o que vai além das relações sêmanticas e pragmáticas: contemplaria o ideológico, o sentido em sua condição de sentimento, a literalidade de sentirmos os discursos que nos tocam.
Em minhas aulas de Metodologia de Lingüística, o professor Valdir Barzotto nos colocou a reflexão sobre a tão discutida e batida questão das variantes linguísticas. O que ele nos apontou foi o fato de que os sociolinguístas em boa parte de seus textos empenham discursos de “abaixo ao preconceito língüístico” ,  promovem a idéia de que todas as variantes são importantes, mesmo as mais desvalorizadas socialmente. Contudo,  ao mesmo tempo em que “papagueiam” esses discursos, fazem-no na mais rebuscada e complexa NORMA CULTA DA LINGUA. Alguns diriam que o fazem assim em razão das regras sociais que infligem ao gênero científico a utilização da norma culta como pressuposto de legitimidade. Okay. Mas que outra maneira de legitimar uma norma línguística senão pelo uso? 
Sexta-feira passada, em minha aula de Didática, a professora nos trouxe o documentário “Heliopólis, bairro educador”, do diretor André Ferezini, sobre a EMEF Presidente Campos Salles, na favela de Heliopolis. Nele, é retratado como a própria comunidade  ajudou e participa ativamente no desenvolvimento e realização do projeto pedagógico da escola.  A iniciativa começou com a mudança de postura e visão pedagogica em relação à cultuta escolar tradicional, do diretor Braz (ver dados do documentário no link). Para obter o sucesso que hoje tem o projeto e que é que me importa aqui, foi a necessidade de deslocamento de pressuposto das pessoas daquela escola e, como pude constatar àquele momento, nunca havia feito SENTIDO para mim realmente: a voz e contribuição daquela comunidade como conteúdo de caráter valorativo. O diretor junto com as lideranças locais e os pais das crianças construiram um projeto pedagógico JUNTOS. A postura que realmente me chamou atenção foi a de que o objetivo do ensino àquelas crianças não é que saiam da favela para “algo melhor”: e sim, que lá fiquem e modifiquem o seu local de origem, politicamente. Um movimento exatamente contrário ao que eu fiz: assim que passei a fazer parte do ambiente social privilegiado financeiramente ao de minha origem, construi um projeto de vida de mudança e negação da cultura e mesmo do local de onde eu vim. Para tanto, desenvolvi e, não serei hipócrita, desenvolvo os mais diferentes argumentos. Mas ao assistir o documentário, não pude calar uma pergunta incômoda que ainda agora me gera certo mal-estar: qual é a  cultura do local de onde vim?
Alguns mais sarcásticos poderiam responder: a cultura do churrasco de final de semana e da adolescente com cabelo molhado pingando a creme de tratamento capilar e calça jeans de lycra apertada. Talvez. Mas por algum motivo, também não consigo engolir o discurso polido e envernizado do “pessoalzinho do Espaço Unibanco”. Não que eu não frequente o lugar. Mas realmente não é essa a cultura que me apetece. É como se eu fosse uma “aculturada”, desajustada pela cultura que acolhi artificialmente e pela que também nego tão simuladamente quanto a tento recuperar.
A partir daí, desde livre associação até a rememoração dos acontecimentos que ando a verificar no lugar onde vivo, a USP, não pude deixar de associar essa minha posição demagoga à toda demagogia que desde que entrei à Academia presencio, tanto no discurso dos alunos, quanto dos docentes, e, inclusive, de maneira grosseira, embora, não sejam as aparições grosseiras o que anda a me incomodar.
De alguma maneira, supeito que tal demagogia é sustentada pela modalidade “sarcasmo desnecessário”, ou ainda “sarcasmo em cima do muro” que coloca fogo em tudo e, deste modo, esconde o que realmente veicula. Creio que posturas duramente críticas em nível de sarcasmo sejam necessárias. Por outro lado, o exagero com que muitas vezes é utilizado incomoda-me muito. Uma acidez desnessária que, sagasmente tenta dissimular o quê traz consigo:  uma posição confortável e hipócrita de "sei o que acontece, mas não tenho nada a ver com isso". Como se sob este patamar, pudessem manter-se em amoralidade. Porém, nunca revelar o que se pensa não é, no fundo, de um moralismo medonho? Direi o porque desse mote, inspiração deste texto.
Freqüentemente ando pela Faculdade de História da USP e o que eu vejo não é bonito. Eu vejo fascismo, eu vejo posturas legalistas alienadas, eu vejo machismo, eu vejo moralismo sexual, eu vejo os mais diversos totalitarismos ideológicos. Eu ando pela Faculdade de Letras da USP e vejo preconceito lingüístco, eu vejo despotismo, eu vejo deslumbramento barato, eu vejo fetichismos demagogos. Eu convivo com gente da filosofia e as descrições feitas por eles são de um ambiente de irresponsabilidade pedogógica por parte dos docentes, narcisismo e elitísmo que não faz o menor sentido em um país de terceiro mundo - para não dizer ridículo. Aliás, elitismo, eis o que eu vejo em toda a USP, sob as mais variadas nuances. Conforme o contexto, um tipo de discurso. Se o ambiente é a aula, o discurso do politicamente correto (seja lá o que isso for). Se o ambiente é o bar, o individuo saca seu melhor sarcasmo, o do politicamente incorreto (que não há como errar). Já nas relações familiares, o  discurso utilizado é o do senso comum ou, simplesmente, o SILÊNCIO. Aliás, “sentido” , definido nos moldes como descrevi  na abertura deste texto, para os enunciadores do “sarcasmo em cima do muro”, realmente, mora em seu silêncio.  O silêncio dos formadores de opinião, da “nata intelectual da sociedade”.
O engraçado é que há qualidade de silêncios. O silêncio da classe média geralmente é classificado com o rótulo da tolerância.Muito diferente do silêncio dos alienados e alienadas do suburbio. Aqueles cuja cultura é fazer churrasco e andar de calça jeans de lycra dita vulgar . De onde virão os futuros professores de humanas (curso fácil de passar no vestibular, ou ainda o mais barato de pagar) ressentidos.  Os futuros classe média resignados. Ou, “como sempre”, os “futuros bandidos”, serventes de pedreiro, atendentes, prostitutas... Os futuros “sem futuro” do país.  Muito diverso do “silêncio puro” de simulação da tolerancia, da ideologia do amoralismo,  da rigidez do politicamente correto e do politicamente incorreto: a ideologia do acolhimento axiologico. 
Por estes dias, eu discutia com uma amiga sobre a questão das minorias. Ela argumentava que não concordava com linhas teóricas multiculturalistas em que se exalta o “poder” político de movimentos de resistencia de minorias sociais. O que ela colocou, resumidamente, é que esses movimentos estão dentro do sistema capitalista e como tais, servem apenas para “alivio de consciencia” do discurso capitalista, atenuantes com o único propósito de calar esses agentes. Diante dos argumentos, questionei o que essas “minorias” farão “enquanto Seu Lobo não vem”? Mas ao final da discussão tive de admitir que do que ela colocava, havia algo realmente em que não apenas tinha razão, mas também preocupava a mim: nós não vivemos em uma época de acolhimento axiologico, mas de conceção axiologica. Um exemplo disso foi o que minha professora de Análise do Discurso descreveu de sua participação em uma banca sobre uma dissertação que tratava dos discursos de mães de homossexuais. A dissertação defendia que os discursos dessas mães era de acolhimento axiologico ao que Norma rebateu que não. Nos relatos análisados pela dissertação, as mães dizem que amam o filho APESAR de ele ser homossexual e não que o ama PORQUE ele é homossexual. Foi a utilização continua de concessivos a que Norma se apagou para rebater o argumento de acolhimento defendido pela dissertação.  O que se via nos relatos dessas mães eram relatos de conceção axiologica, nunca de acolhimento. Em meu caso as pessoas me amam APESAR de ter deficiencia física e APESAR ser mãe solteira. Poucas são as que me amam sem despadaçar a minha vida em compartimentos.   Poucas são as pessoas que me amam enquanto sujeito de minha própria existencia e não como a frustração resignada de suas idealizações. Cada um deve passar por situações semelhantes em maior ou menor grau, então, atualizem a questão suas vidas como quiserem. O resumo da ópera é um “papagueamento” de tolerância, de cultura, de senso crítico...
Não é de hoje que as questões “o que é sentido?” e “porque pessoas com tantas e tão boas leituras seriam tão demagogas? ” parecem estar intimamente ligadas. E nas últimas semanas para minha tranquilidade, vi que essa é uma discussão que já vem de muito nas discussões teóricas e é uma das principais pautas das discussões dos pedagogos e sociólogos que lidam com Educação. No texto de Adorno, Educação e Emancipação, texto pós-nazismo, a preocupação com uma educação essencialmente entrelaçada a um sentido, em caráter subjetivo é a direção central da reflexão.  Deleuze em o Anti-Édipo, também sob a sombra dos acontecimentos que ocorreram durante o nazismo,  ressalta a importância em estudármos os mecanismos e discursos que levaram um povo de cultura tida como predominante letrada e de apreciação da reflexão filosófica, como era a Alemã, a concepção de uma ideologia que desencadeou as práticas realizadas durante o Nazismo.  Bernard Charlot, filosofo da área de Educação, tem sua pesquisa exatamente sob a reflexão que iniciei aqui: a relação com o saber. O que ele coloca em sua pesquisa é a necessidade em se interpretar o saber como a manifestação, como modus operanti, de um sujeito desejante e não o objeto do desejo desse sujeito. Antonio Candido ao discutir o que seria “Compreensão” sob o ponto de vista da teoria hermenêutica nos traz que compreender algo é entender o que o discurso diz e ligar tal conhecimento à sua experiência de vida.  Nesta perspectiva, a abertura deste texto poderia ser apenas uma repetição vazia de algo já colocado por Antonio Candido. Mas a minha posição caminha ainda para o radicalismo da relação compreensão/história de vida do enunciatário. Com relação a Charlot, conheci o seu trabalho por força do destino quando já havia escrito mais da metade deste texto.Um outro autor o qual impregna as idéias desta minha materialização de “minhocações”  é Backtin, com as leituras que fiz de Marxismo e Filosofia da Linguagem, e, Dialogismo e Polifonia. Neles o autor me trouxe que temos como caráter inerente da linguagem as relações dialogicas que estabelece com outros textos e a ideologia como condição sine que non do signo lingüístico enquanto conceito que se refere ao que é constituído de SENTIDO.  Com base no que Backhtin e Antonio Candido dizem é que olho esses “ruidos de linguagem” e me convenço de que talvez,  sentido e senso crítico, como almejamos através da erudição de nossas leituras e aulas, estariam em relação de indissociação e o último só teria razão de ser enquanto apreensão profunda, completa, enquanto o que a hermeneutica classifica como “compreensão”,   e não apenas como prática técnica de reprodução do arquétipo discurso acadêmico.  Claudemir Belintane (2005), linguísta e professor da Faculdade de Educação,  tratou em seu texto, Matrizes e matizes do oral, na Revista Doxa, rapidamente em um dos trechos de seu artigo sobre o que de alguma forma eu tento apalpar nesta minha especulação:
Falar é falar-se, como diz Kristeva (1988 p.19) mas “falar-se” não apenas por que se domina um código e uma interlocução objetiva, da qual se pode deduzir um suposto conteúdo habitual e ali entrever um sujeito lógico especularizado. O “fala-se” que faz diferença suficiente é o que se enlaça às ambiguidades de uma herança primaria, desejante, que demanda do outro amor e sentidos – sentidos para além da compreensão objetiva, que ultrapassam a dimensão consensual da correlação significado/ significante. (BELINTANE, 2005)
O processo inverso do fetiche cientificista que passamos na Acadêmia.
E não é preciso ir longe para falar sobre fetiche cientificista. O  departamento de Linguística, por exemplo, se tornou o departamento de Gerativa. O que está fora disso é inclusive ironizado como “não-linguística”. “Análise do Discurso não é Linguística!” é o que sempre ouço  entre risos dos colegas da Gerativa. E isso porque não é considerado “cientifico”. Estamos no alge do tecnicismo. O que fugir a ideologia da argumentação dita lógica, cartesiana, legalista não terá legitimidade ou adquirirá qualidades pejorativas.
Dentro desse quadro, como falar em sentido como uma atualização dos discursos que temos contato, “do outro que nos atravessa” pela atualização subjetiva por deslocamentos e pulverizações de nossos arquedestinadores e arquedestinatários (imagens sociais de nós e de nossos interlocutores e que moram dentro de nós)? E se a história só fizesse sentido se for atualizada em nossa vida e,  para o resto, fossemos apenas uma espécie complexa de analfabetos funcionais?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Partilha do sensível

Rating:★★★★★
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A associação entre arte e política segundo o filósofo Jacques Rancière

08/08/2009

Gabriela Longman e Diego Viana
Fotos: Ilana Lichtenstein

Para Jacques Rancière, política e arte têm uma origem comum. Em suas obras, o filósofo francês desenvolve uma teoria em torno da "partilha do sensível", conceito que descreve a formação da comunidade política com base no encontro discordante das percepções individuais. A política, para ele, é essencialmente estética, ou seja, está fundada sobre o mundo sensível, assim como a expressão artística. Por isso, um regime político só pode ser democrático se incentivar a multiplicidade de manifestações dentro da comunidade.

Recém-lançado na França, seu último livro, Le spectateur émancipé (O espectador emancipado - ainda inédito no Brasil),
debate a recepção da arte e a importância - ética e política - da posição do espectador. O volume é uma compilação de conferências realizadas por ele nos últimos anos, uma delas no Sesc, em São Paulo. Em 2002, uma de suas principais obras, O mestre ignorante, foi traduzida e distribuída gratuitamente entre professores em formação no Rio de Janeiro. Trata-se da história de Joseph Jacotot, que, no século 19, ensinou a língua francesa a jovens holandeses da classe operária. Detalhe: nem mesmo o professor conhecia o idioma de Zola.

Originalmente discípulo do filósofo marxista Louis Althusser e coautor de Ler O capital, de 1965, Rancière afastou-se do pensamento do mestre nos anos 1970. Rejeitou a ortodoxia marxista da época, mas jamais deixou de se considerar um homem de esquerda. Até se aposentar em 2000, foi professor da Universidade Paris 8, fundada para acolher formas de pensamento que não encotravam espaço no ambiente da Sorbonne. Sua ligação com o Brasil é antiga. Sua esposa, Danielle Ancier, era professora de filosofia na USP em 1968. Eles se conheceram quando ele esteve no país para uma conferência sobre Ler O capital.

O filósofo nos recebeu em seu apartamento no nono arrondissement parisiense. Perto de completar 70 anos, afirma que "o presente não é muito alegre", mas critica as visões saudosistas de parte da esquerda. Defensor do ativismo social, ele comenta a ascensão dos ecologistas e questiona a ideia de um mundo dominado por imagens. Convidado para um colóquio no Rio de Janeiro pelo Ano da França no Brasil, ele recusou em função de um conflito de agenda, mas concendeu a seguinte entrevista para a CULT.


CULT - Seu último livro, Le spectateur émancipé, menciona o teatro, as artes performáticas, a fotografia, as artes visuais e o cinema, mas não fala de TV. O espectador de TV também é ativo?

Jacques Rancière - No meu livro, eu tentei reinterpretar a relação das pessoas com o espetáculo sem me interessar tanto pela questão das mídias. Mas me centrei mais na ideia, tão comum, de que "agora não há nada mais além da TV... não há mais arte, não há mais cultura, não há mais literatura, nada".

Há casos em que o espectador está na frente da TV mudando de canal sem prestar atenção ao que está vendo. Eu me preocupei mais com o cinema, as artes plásticas, nos quais uma relação forte do olhar está pressuposta. A TV, de modo geral, não pressupõe um olhar forte, mas um olhar alienado ou distraído.

No espetáculo, o espectador de teatro é levado a trabalhar, porque aquilo que ele tem à sua frente o obriga a um trabalho de síntese. É preciso sair de uma peça, de uma exposição ou do cinema com certa ideia na cabeça, o que não necessariamente é o caso da televisão, em que as coisas podem simplesmente passar.

Já um lugar onde os espectadores se encontram, para as artes performáticas, por exemplo, implica um recorte fechado no tempo. Não é uma questão de suporte, mas do tipo de atitude e de atenção criadas. Podemos nos colocar na frente de um filme de TV com a postura de quem está no cinema. Nesse momento, nós agimos como o espectador de cinema.


CULT - O senhor rejeita a ideia de estetização da política que encontramos em Walter Benjamin. Como podemos interpretar a manipulação das sensações dentro do campo político? Por exemplo, o incentivo ao medo do terrorismo, a apresentação de políticos como mercadorias não seriam maneiras de estetizar a relação das pessoas com o poder político?

Rancière - Penso que a política tem sempre uma dimensão estética, o que é verdade também para o exercício das formas de poder. De certa maneira, não há uma mudança qualitativa entre o discurso em torno do terrorismo hoje e o discurso midiático contra os trabalhadores no século 19, que dizia que os operários contestadores cortavam pessoas em pedaços. Sempre houve, digamos, uma série de discursos organizados pelo poder. Eventualmente, eles serviram como forma de ilustração.

Não há novidade radical. A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos. Para mim, é um dado permanente. É diferente da ideia benjaminiana de que o exercício do poder teria se estetizado num momento específico. Benjamin é sensível às formas e manifestações do Terceiro Reich, mas é preciso dizer que o poder sempre funcionou com manifestações espetaculares, seja na Grécia clássica, seja nas monarquias modernas.

Há um momento em que é preciso distinguir duas coisas: de um lado, a adoção de certas formas espetaculares de mise-en-scène do poder e da comunidade. De outro, a ideia mesma de comunidade. É preciso saber se pensamos a comunidade política simplesmente como um grupo de indivíduos governados por um poder ou se a pensamos como um organismo animado.
Na imaginação das comunidades há sempre esse jogo, essa oscilação entre a representação jurídica e uma representação estética. Mas não creio que se possa definir um momento preciso de estetização da comunidade.
Por exemplo, o nazismo, que é usado frequentemente como exemplo de política estetizada, na verdade também recuperou a estética de seu tempo. Pense nas demostrações dos grupos de ginástica em Praga nos anos 1930. Eram associações apolíticas ou absolutamente democráticas, com a mesma estética que encontramos no nazismo.
Para mim, é preciso tomar distância da ideia de um momento totalitário da história marcado especialmente pela estetização política, como se pudéssemos inscrever isso num momento de anti-história das formas estéticas da política e das formas de espetacularização do poder.

CULT - Uma das críticas mais frequentes à arte contemporânea é a impossibilidade de definir o que é uma obra de arte e o que não é. O senhor escreve que, "para que uma maneira de fazer técnica seja qualificada como artística, primeiro é preciso que seu tema o seja". Como definir a obra de arte ou a arte em si?
- Uma das críticas mais frequentes à arte contemporânea é a impossibilidade de definir o que é uma obra de arte e o que não é. O senhor escreve que, "para que uma maneira de fazer técnica seja qualificada como artística, primeiro é preciso que seu tema o seja". Como definir a obra de arte ou a arte em si?

Rancière - Não definimos a obra de arte como "obra". O que eu digo, no fundo, é que uma forma de arte é sempre ligada à dignidade dos temas.
O romance torna-se grande arte quando a vida de qualquer um se tranforma em arte. A fotografia no cinema não é só uma forma de mostrar o visível, mas mostra que uma cena de rua ou a vida de qualquer pessoa tem direito de ser citada na arte.
A partir do momento em que tudo é representável, não há mais especificidade. A especificidade não será dada, enfim, pela técnica em particular, mas pelos códigos de apresentação. Mais uma vez, não creio que haja uma radicalidade nova.
Há algumas décadas, as análises de Arthur Danto vieram dizer que somente a instituição é quem faz a obra de arte. De certa maneira, isso sempre foi verdadeiro. A "representação da representação" ligada a certo tipo de procedimento ou de instituição sempre foi necessária para identificar uma coisa como pertencente ao universo da arte.


CULT - Mas, hoje, mesmo uma grande parte do público questiona o fato de estar vendo "arte". Não há uma maior distância entre a apresentação e a recepção?

Rancière - Vivemos hoje em dia a contradição máxima, qualquer coisa pode entrar na esfera da arte. Mais do que nunca, a arte, hoje, se constitui como uma esfera à parte, com as pessoas que a produzem, com as instituições que a fazem circular, seus críticos.
Numa época em que os afrescos de uma igreja eram o que se considerava arte, essa questão simplesmente não se colocava, porque a arte não existia como instituição. É a contradição constitutiva do regime estético.


CULT - A última Bienal de São Paulo tinha um andar inteiramente vazio, simbolizando o vazio na arte. Como podemos interpretar esse vazio? O senhor fala do fim da arte utópica. O vazio seria a arte "atópica"?

Rancière - Podemos fazer o vazio significar várias coisas. Há artistas que organizam retrospectivas de suas obras, e o que vemos? Nada. Há apenas guias que falam. Há muitas possibilidades. Podemos conceber uma exposição sobre o tema do vazio no modernismo duro. Ou então imaginar uma exposição pós-moderna desencantada "mostrando o vazio porque a arte contemporânea é vazia". Ou ainda criar uma exposição em termos conceituais, em que efetivamente substituímos as obras pelo discurso sobre as obras, e assim por diante.

Mas a verdade é que eu nunca estou muito interessado por esse tipo de estratégia. Se partimos da ideia de que não há nada, é preciso mostrar que não há nada, e mostrar que o que há não vale nada, e assim por diante.

São estratégias eficazes, mas não tão interessantes. Quando não sabemos muito bem como qualificar algo, sempre podemos fazer uso do "vazio". Eu me lembro da Bienal de Veneza de dois anos atrás, em que havia uma multiplicidade de obras neo-naïf, neoexpressionistas, como iconografia provocante. Há multiplas estratégias.


CULT - O senhor critica muitas vezes a separação a priori entre atividade e passividade. Nesse contexto, como analisa as tecnologias colaborativas que estão surgindo na atividade artística?

Rancière - O que digo não é especialmente ligado à arte colaborativa. Em primeiro lugar, toda atividade comporta também uma posição de espectador. Agimos sempre, também, como espectadores do mundo.
Em segundo lugar, toda posição de espectador já é uma posição de intérprete, com um olhar que desvia o sentido do espetáculo. É minha tese global, que não está ligada só a uma arte interativa.

Todas as obras que se propõem como interativas, de certa maneira, definem as regras do jogo. Então, esse tipo de obra pode acabar sendo mais impositivo do que uma arte que está diante do espectador e com a qual ele pode fazer o que bem entender.
Podemos dizer, então, que as obras estão no museu, na galeria, na internet, e o espectador é convidado a colaborar. Mas isso é só mais uma forma de participação, e não necessariamente a mais interessante.


CULT - O senhor recupera o lado político da literatura, graças a seu poder de reconfigurar os modos de existência, e evoca a passagem de Aristóteles em que ele diz que o ser humano é político porque possui o logos, ou seja, é capaz de fazer discursos. Hoje, os meios de publicação tradicionais, jornais, editoras etc. estão ameaçados por formas como blogs e redes sociais. Que tipo de mudanças podemos esperar na vida política com essas novas formas?

Rancière - Isso depende de até que ponto a internet define uma escritura específica. Para mim, na verdade, a internet define essencialmente apenas um modo específico de circulação da informação, que não nega as formas anteriores da escrita. Dá para consultar, numa infinidade de sites, as obras clássicas da literatura e da filosofia, ao mesmo tempo em que existe a linguagem SMS.

Tudo circula, cada vez mais rápido e com mais facilidade: da linguagem minimalista dos SMS aos livros todos, digitalizados pelas grandes bibliotecas. Muitas vezes, recuperam-se livros que não podem mais ser encontrados no papel. Desconfio sempre desse discurso de que o Google vai matar o livro. Não há motivo, porque podemos ler livros no Google.
Para pensar essa questão da política e da literatura na era da internet, precisamos primeiro pensar nas relações entre tipos de mensagem. A internet é, para mim, um suporte que não vem associado a um tipo de mensagem particular. Portanto, não deve causar grandes mudanças.

É diferente do que aconteceu com a chegada do cinema, por exemplo. Podemos constatar que a literatura não tem hoje o papel que tinha no século 19. Apesar do número enorme de romances publicados, poucos são os que remodelam a imagem do indivíduo e da comunidade. Esse papel foi assumido pelo cinema. A literatura oferecia uma capacidade de alargar as formas de percepção do mundo e da comunidade, ela agia sobre a visão e o sentimento de praticamente qualquer um. Hoje, quem faz isso é o cinema, a televisão, a internet.


CULT - Até há pouco tempo, havia Bush e Dick Cheney de um lado e, de outro, a Europa como uma espécie de guardiã do "bom senso" na política. Agora, os norte-americanos elegeram Obama e os europeus escolheram Sarkozy e Berlusconi, acompanhados por um fortalecimento geral dos partidos conservadores. Falando das eleições de 2002, o senhor disse que não se pode vencer a extrema direita associando-se ao consenso e às oligarquias. O ano de 2009 é a conclusão do que começou em 2002?

Rancière - Não acho que podemos comparar. Em 2009, foram eleições europeias. Se tomamos o caso da França, em 2005 houve o referendo da Constitição Europeia e a União triunfou.

Em 2007, Sarkozy chegou ao poder e renegociou os poderes dessa Constituição. Ele decidiu que não se submeteria ao referendo pois, segundo ele, havia questões importantes de Estado envolvidas. Esse é um primeiro ponto. É preciso dizer que falamos de 40% do eleitorado que votou e é preciso pensar nos 60% que não votou.

A mudança entre 2002 e 2009 é que a parte do corpo eleitoral que não votou está mais à esquerda. A vitória da direita está ligada mais ao fato de que o eleitorado de esquerda não se reconhece nos partidos de esquerda, do que numa conversão da população inteira ao sarkozismo. O eleitorado de direita está contente com o que tem, está contente com Sarkozy e Berlusconi.

O eleitorado de esquerda não está satisfeito nem com os homens que estão poder, como Gordon Brown, nem com os que estão na oposição, e o melhor exemplo é a oposição socialista na França. Não acho que haja um crescimento extraordinário da direita e da extrema direita, mas sim um desencanto da esquerda.


CULT - Mas a crise gerou nos Estados Unidos um abandono da direita, representada por Bush...

Rancière - Houve uma mobilização enorme em torno das eleições norte-americanas. Uma série de pessoas que nunca tinham votado foi votar pela primeira vez, especialmente os negros.

No caso da Europa, foi o contrário. Há países onde apenas 20% dos eleitores votaram, e só 40% na França. Não acho que esse contraponto deva ser pensado em relação direta com a crise financeira. O resultado foi precipitado por ela, mas a ideia de Obama contra Bush remete a uma insatisfação anterior e mais fundamental do que a mera reação à crise econômica.


CULT - Os desinteresses pela política e pela arte seriam duas vertentes da mesma situação?

Rancière - Não tenho certeza, até porque o desinteresse pela política não é tão claro assim. Muita gente votou nas eleições presidenciais há dois anos. Nas eleições europeias, aparentemente muitas pessoas que normalmente votam não votaram, e muita gente que não costuma votar saiu de casa porque queria salvar o planeta. Esse é um primeiro aspecto.
O segundo é que não creio que haja um desinteresse pela estética, pela arte. As pessoas ainda vão ver Jeff Koons em Versalhes. O interesse pelos artistas ainda é muito importante. É verdade que de vez em quando há coisas desastrosas, teve La force de l'art no Grand Palais e estava sempre deserto, mas as pessoas se davam cotoveladas para ver Picasso.


CULT - Se a mudança do mundo passa por reconfigurações da maneira de pensar e entender a realidade, então ela não passa pelas revoluções como as conhecemos?

Rancière - Podemos pensar nisso baseados nas revoluções que já aconteceram. Em primeiro lugar, uma revolução é uma ruptura na ordem do que é visível, pensável, realizável, o universo do possível. Os movimentos de revolução sempre tiveram a forma de bolas de neve.

A partir do momento em que um poder legítimo se encontra deslegitimizado, parece que não está em condições de reinar pela força, porque caíram todas as estruturas que legitimam a força. Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas. As instituições perdem a legitimidade, aparecem novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação, novas formas da economia, e assim por diante. É uma ruptura do universo sensível que cria uma miríade de possibilidades.

Não penso as revoluções, nenhuma delas, como etapas de um processo histórico, ascensão de uma classe, triunfo de um partido, e assim por diante. Não há teoria da revolução que diga como ela nasce e como conduzi-la, porque, cada vez que ela começa, o que existia antes já não é válido.

Existe uma carta interessante de Marx, um pouco após 1848, quando os socialistas pensavam que as estruturas seriam abaladas mais uma vez. Ele diz que as revoluções não funcionam como os fenômenos científicos normais, são mais como os fenômenos imprevisíveis, os terremotos. Não sabemos como elas vão se comportar. Todas as teorias científicas, estratégicas, das revoluções demonstram isso.


CULT - Não podemos antecipá-las...

Rancière - Podemos prepará-las, mas não antecipá-las. A temporalidade autônoma de uma revolução, os espaços que elas criam não correspondem jamais ao quadro conceitual que temos no início.


CULT - A estratégia da esquerda tradicional é o confronto aberto, o que se opõe à sua teoria de reconfiguração estética da vida política...

Rancière - Temos de pensar na estética em sentido largo, como modos de percepção e sensibilidade, a maneira pela qual os indivíduos e grupos constroem o mundo. É um processo estético que cria o novo, ou seja, desloca os dados do problema.

Os universos de percepção não compreendem mais os mesmos objetos, nem os mesmos sujeitos, não funcionam mais nas mesmas regras, então instauram possibilidades inéditas. Não é simplesmente que as revoluções caiam do céu, mas os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda.

Não sou contra processos cumulativos, claro: se imigrantes ilegais têm capacidade de fazer greves e manifestações em condições perigosas para eles mesmos, isso define um alargamento não só do poder e das capacidades que temos, mas também do mundo no qual inscrevemos nossas ações e nosso pensamento.

A transformação dos mundos vividos é completamente diferente da elaboração de estratégias para a tomada do poder. Se há um movimento de emancipação, há uma transformação do universo dos possíveis, da percepção e da ação, então podemos imaginar como consequência também um movimento de tipo revolucionário, de tomada do poder. É claro que estamos falando do passado, porque o presente não é muito alegre.


CULT - Por que "o presente não é muito alegre"?

Rancière - O presente não é alegre porque não há esperanças fortes, digamos assim, que sustentem os movimentos existentes.

Por exemplo, a recente greve das universidades, que criou algumas formas de manifestação, digamos, particulares: cursos na rua, no metrô, invenções para deslocar para o campo da sociedade como um todo o problema que atinge o ensino superior francês.

Mas todas essas inovações foram completamente isoladas do ponto de vista da informação. O ano de 1968 existiu em parte porque o rádio cobria profundamente o movimento estudantil, sabia-se tudo que acontecia, havia uma geração de jovens repórteres de rádio que fez circular as informações.

Agora, aconteceu o contrário. A mídia aprisionou o movimento universitário numa espécie de paisagem hostil, gente que não entendia, que dizia coisas alucinantes. O partido majoritário de direita (UMP) criou associações de pais de estudantes exigindo o reembolso das inscrições porque os estudantes não tiveram aula. Isso era impensável há dez anos.

As forças da dominação e da exploração aumentaram consideravelmente seus meios de ação. Diante da crise financeira, não vimos nenhum discurso forte e sério contra o capitalismo, só esses pequenos grupos e partidos anticapitalistas com as mesmas ideias de décadas atrás. Nada que trouxesse esperança, movimentos com ideias alternativas a uma concepção hegemônica confrontada com suas próprias contradições.

O presente não é muito alegre porque as forças da dominação e da exploração fizeram progressos consideráveis. Estudei, por exemplo, o movimento operário do século 19, que criou novas formas de associação e de visão do mundo e que resultou em movimentos políticos que, como sabemos, falharam. Mas é certo que o universo dos possíveis foi amplamente reformulado. O povo em manifestação podia algo que não podia antes, diante da realeza.

No mesmo sentido, o operariado adquiriu novos poderes e direitos face aos patrões. As formas de comunicação se comunicam entre elas e criam um universo de circulação de energia, ideias, vontades. Foi muito marcante, em 1968, vermos surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação.

É claro que tudo isso caiu com o movimento, mas foi um momento em que os estudantes viram que podiam fazer o mesmo que os operários, e vice-versa. Criaram-se formas de ação completamente imprevistas. O que se transmite são aberturas do campo do possível, não do campo estratégico.


CULT - No interior de sua distinção entre política e polícia, como podemos interpretar o crescimento da vigilância e do controle? Por que fizemos essa escolha, em vez do encontro político?

Rancière - É a lógica do funcionamento dos Estados como instâncias de administração, e dos sistemas midiáticos: trocar a política pela identificação de problemas que precisam ser solucionados. Se não é o conflito que é motor, o motor é uma espécie de patologia da vida política que a administração se propõe a remediar. É o modo de funcionamento do Estado moderno.

De um lado, há uma pretensão ao objetivismo, identificar os problemas e as imperfeições da sociedade, e, de outro lado, precisamente essa espécie de objetivismo idealizado é, essencialmente, uma questão de gestão das opiniões.
Tomando a questão da segurança, qual é o balanço da gestão de Sarkozy, primeiro como ministro do Interior, depois como presidente da República? Um desastre.

Estamos muito menos seguros do que antes. O que está em funcionamento é a gestão da insegurança como um sentimento para agregar as pessoas em torno de um poder que gerencia a segurança.

Resisto muito às teorias paranoicas de "sociedade de controle" que dizem que "somos observados e controlados em todo canto". No 11 de Setembro, vimos como as pessoas podem passar tranquilamente diante das câmeras de segurança e fazer seu atentado sem serem molestadas. Acredito muito mais na ideia de uma administração ideológica, no sentido tradicional, dos sentimentos, particularmente no que diz respeito à segurança.

Criamos um sentimento de que vivemos na insegurança e precisamos de gestores de segurança. Isso cria uma legitimação de decisões autoritárias que podem se estender a praticamente tudo. No fim, a segurança acaba significando qualquer coisa. A pobreza dos subúrbios, a saúde dos idosos, os "países terroristas" pelo mundo, os poluidores, qualquer coisa.
A segurança vira um sentimento de perigo onipresente, extrapolando a ideia da proteção das "pessoas de bem" contra os maus de qualquer tipo. Isso cria estruturas de gestão estatais e interestatais, que não são necessariamente da ordem do controle minucioso ou do terror, mas de um sentimento flutuante.

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/novo/entrevista.asp?edtCode=405A8403-AD34-47FE-9051-22017E8B23A9&nwsCode=0452FD78-D0E1-4275-95F6-6E5618F6F8AA